MC Cabelinho e TZ da Coronel lançaram, na última quinta, 5, o álbum colaborativo Palácio de Lona, um projeto de 10 faixas que cumpre uma promessa feita há três anos. Com oito músicas em parceria e duas solo, o disco transita entre trap e funk e consolida a união de dois dos principais nomes da nova geração do rap brasileiro. O single "Foragido", com Vinicin e Raflow, abriu os trabalhos, mas o álbum completo traz uma dimensão maior.
"Esse álbum é muito especial pra mim porque mostra uma conexão de verdade. Não é só feat, é vivência junto, é visão parecida e muita história pra contar", explica Cabelinho à Rolling Stone Brasil. O título materializa a dualidade que atravessa o disco: o palácio como símbolo de conquista e a lona como referência à origem na favela. Ostentação e memória, vitória e raiz, luxo e sobrevivência coexistindo no mesmo projeto.
Entretanto, encontrar o título certo não foi simples. "Foi bem difícil chegar nesse nome. A gente ficou pensando, pensando, pensando, pensando". Mas quando chegaram em Palácio de Lona, tudo fez sentido.
"No baile tem a lona, mas o morro também é o nosso palácio, o nosso castelo, enfim. Então, na favela nós aprendemos ser rei antes de ter nosso castelo, tá ligado? E a lona que protege da chuva, que também tampa ali pra gente fazer o nosso baile".
A imagem sintetiza exatamente o que o álbum representa: a dualidade de quem saiu da favela mas nunca deixou de ser favela e Cabelinho se identifica profundamente com isso: "Hoje eu vou na favela e me sinto rei. Tá ligado? Eu me sinto rei. E muito respeitado. Pelas crianças, enfim. Então, acho que isso significa muito pra mim. Começar um álbum chamado Palácio de Lona. É aqui, ó. Aqui é meu império, aqui é meu reino. Eu sou rei aqui. Não só aqui, mas em qualquer outra favela sou bem respeitado, bem recebido e é isso".
Expectativa alta
Os fãs esperavam há muito tempo. Cobravam nas redes, perguntavam em show, pressionavam. E a dupla sabia. Mas o momento certo precisava chegar. "Cara, o que eu senti que agora é a hora foi quando a gente tinha tanta música que não sabia o que fazer, tá ligado? Aí decidimos lançar o álbum", conta Cabelinho.
O acúmulo de material foi decisivo. Tinham músicas demais, conexão demais, química demais pra continuar adiando. Pegaram as melhores faixas, gravaram, estruturaram o projeto. "Quando a gente coloca o que queria para eles ouvirem as músicas, eles se sentem felizes, se identificam. Então, acredito que o público da favela vai abraçar o nosso trabalho. E o público da pista, mano, eles guardam tudo que é da favela mesmo. Então, vamos embora pra cima".
O resultado é um projeto que transita entre trap e funk, mas sem forçar coesão. As duas sonoridades fluem naturalmente porque, no fundo, vêm do mesmo lugar. "Tem mais trap. Tem outro elemento de funk, sim, tem um funk até, mas também mais trap, mas eu acho que os dois ritmos conversam, os dois ritmos são de gênero preto, tá ligado?".
Cabelinho e TZ também não precisaram ajustar estilos ou forçar sintonia para fazer o álbum funcionar. A química já existia. "A sintonia já existia naturalmente. Quando a gente começou a fazer música, nós fazíamos essa parada muito rápido. A gente faz duas ou três músicas no dia. E a gente também ajuda muito um ao outro no estúdio, sabe?"
A dinâmica é orgânica: um tem uma ideia, o outro abraça e desenvolve, depois o contrário, e por aí vai. "Acho que a nossa conexão, tipo a do Vitor e do Mateus, tá ligado? Ajudou muito o álbum". Não é só mais um trabalho de dois artistas que se juntaram para somar números. É uma parceria real, construída em estúdio, testada no tempo, consolidada agora em álbum completo.
'Eu nunca esqueci de onde eu vim'
Palácio de Lona tensiona realidade, ficção, ostentação e memória. E consegue fazer isso sem romantizar a pobreza nem esquecer de onde veio. Mantendo os pés fincados na origem mesmo quando o corpo já está em outro lugar. "Eu nunca esqueci de onde eu vim, tá ligado? Eu tô sempre em comunicação com as minhas crianças; acho que isso é tudo".
E essa é a mensagem pro público: "Mano, a gente dá vários papos maneiros. Nós falamos sobre vivência, nós falamos que amigo não pode ter inveja de amigo. Eu acredito que tem muito verso bom ali, verso novo e eles vão se identificar, tá ligado?" A ideia não é entregar manual pronto, mas oferecer espelho. Versos que ressoam, vivências que se cruzam, possibilidades que se abrem. "Vai de cada um sentir na hora e ver onde vai chegar quando ouvir o som. A vibe do som vai levar eles".
Palácio de Lona chega como a materialização de uma promessa adiada por três anos, mas que nunca foi esquecida. Cabelinho e TZ da Coronel entregam um álbum que resume a trajetória dos dois. O palácio é real, a conquista é concreta, mas a lona segue ali, como fundação que sustenta tudo. Aprenderam a ser rei antes de ter um castelo. Agora tem os dois. E sabem exatamente o peso que cada um carrega.