Jay-Z fala sobre a relação com J. Cole e rebate narrativa de abandono: 'Acreditamos nele o suficiente para deixá-lo encontrar seu caminho'

Em entrevista à GQ, fundador da Roc Nation explica abordagem deliberadamente livre com o rapper — e diz que acompanha a carreira dele como fã até hoje

6 abr 2026 - 10h42

Jay-Z usou parte de sua extensa entrevista à GQ para falar sobre um dos relacionamentos mais comentados da história recente do rap americano: sua parceria com J. Cole, o primeiro artista a assinar com a Roc Nation, em 2009. O fundador da empresa rebateu a narrativa de que Cole teria sido negligenciado durante sua ascensão e defendeu que a abordagem distante foi uma escolha consciente, não um descuido.

Foto: Taylor Hill/Getty Images / Rolling Stone Brasil

"A narrativa é que não gostávamos do Cole. Não. Acreditávamos nele o suficiente para deixá-lo encontrar seu caminho. Demorou um tempo, mas ele encontrou", disse Jay-Z. O rapper e empresário explicou que nunca se sentiu confortável com o modelo tradicional de gravadora, em que a empresa dita a direção criativa do artista. "A expressão de um artista deve ser a expressão dele. Eu realmente me afasto".

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Jay disse que ofereceu alguma orientação nos primeiros anos, inclusive sugerindo que Cole trabalhasse com a dupla de produção Stargate, mas também deixou claro que nunca impôs decisões. "Eu estava dando a ele a chance de levar seu talento ao maior número de pessoas possível, mas do jeito dele. Não disse: 'Aqui está essa faixa... você vai lançar'", explicou. Para ilustrar a diferença de abordagem, Jay-Z comparou sua relação com Cole à que tem com Memphis Bleek: "O Bleek é meu irmão mais novo; ele tem que me ouvir. Mas o J. Cole precisava encontrar sua própria direção, e eu ia dar a ele as ferramentas".

Cole assinou com a Roc Nation em 2009 e se desligou da empresa por volta de 2020, para se dedicar integralmente ao próprio selo, a Dreamville Records, movimento que Jay-Z enquadra como parte natural de uma trajetória bem-sucedida. A Roc Nation, segundo ele, evoluiu justamente para um modelo mais flexível e focado na independência dos artistas, distante da estrutura engessada das gravadoras tradicionais.

Sobre o estado atual da relação, Jay-Z foi direto: "Não tenho nenhum sentimento negativo em relação a ele. Estou muito orgulhoso do que ele fez". O rapper revelou ainda que continua acompanhando a música de Cole como fã, e que soube de The Fall Off (2026) não pelo próprio artista, mas por meio do DJ Clue.

Sobre The Fall-Off

O conceito é simples, mas devastador: duas viagens que Cole fez para Fayetteville, North Carolina, sua cidade natal. Uma aos 29 anos, recém-saído de Nova York, com a fome ainda afiada. Outra aos 39, casado, pai de dois filhos, carregando a bagagem emocional de uma década inteira no topo. E cada uma delas se transformou em um disco (Disco 29 e Disco 39), que funciona como fotografias de um homem que voltou para casa, mas não é mais a mesma pessoa, e que descobriu da pior forma possível: você não consegue mais viver no lugar que te criou quando a fama te transformou em outra coisa.

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O tema central atravessa o álbum inteiro: Cole sempre quis ser famoso, mas hoje quer voltar a sentir o que sentia no começo da carreira. A conexão com Fayetteville — carinhosamente apelidada de "the Ville" — se distanciou no meio do caminho. Não por falta de amor, mas porque o sucesso cria esse espaço. Ele volta, mas as pessoas que ficaram não vivem mais a mesma realidade. Os amigos estão presos, mortos, ou olham pra ele como celebridade em vez de Jermaine. Ele frequenta os mesmos lugares, mas agora precisa calcular cada movimento por medo de violência ou de virar manchete. E nada disso é culpa da cidade. É culpa do que ele se tornou. Essa tensão — querer pertencer, mas não conseguir mais — é o motor que faz The Fall-Off funcionar como narrativa completa. E Cole aceitou, e é isso que torna o álbum maduro.

The Fall-Off é um clássico instantâneo, quase perfeito. Com 2014 Forest Hills Drive (2014) e o conceitual 4 Your Eyez Only (2016), forma a tríade definitiva da carreira de J. Cole. É ambicioso. É denso. Tem muita coisa pra digerir. Mas cada audição revela uma nova camada, um novo detalhe, uma nova conexão entre músicas que pareciam soltas, mas, na verdade, estão amarradas. A saída dele da briga Kendrick-Drake não agradou ninguém — tirando ele mesmo. E isso fez bem. Deixou ele focar no que sempre foi melhor: rap introspectivo, honesto, tecnicamente impecável, que não tenta impressionar a indústria, mas sim fazer as pazes com o homem no espelho. Não acredito que The Fall-Off seja o último álbum de Cole. Mesmo assim, se ele estiver falando a verdade, estamos diante de uma obra que tem tudo para envelhecer bem, que será revisitada, estudada e referenciada. Foram dez anos que valeram a pena.

Rolling Stone Brasil
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