Em participação no podcast Achismos FM, o rapper Don L rebateu um argumento que circula com frequência na cena musical: o de que a era do CD era financeiramente mais vantajosa para os artistas do que o streaming. "Eu acho uma bobagem essa galera que fica falando que o CD dava mais dinheiro que o streaming. Isso é uma mentira deslavada, não chega nem perto", afirmou o rapper cearense.
O raciocínio de Don L parte de uma comparação simples, mas eficaz. No modelo físico, o artista vendia o disco uma única vez para o ouvinte, e ainda precisava absorver custos de logística, fabricação e distribuição, que, no caso de quem estava em uma grande gravadora, consumiam boa parte da receita. No streaming, a lógica é outra: a cada vez que alguém assina uma plataforma e ouve uma música, uma fração desse valor vai para quem a criou. "O Spotify, se a pessoa te ouvir por 10 anos, vai estar pagando por 10 anos, porque está pagando pela assinatura. E outra: quem estava em gravadora grande ganhava centavos por CD vendido". explicou.
A conta, segundo ele, favorece o streaming quando analisada na perspectiva de longo prazo. Um ouvinte que comprou um CD por R$ 30 em 2005 e ouviu aquele disco por uma década pagou ao artista — depois de todos os cortes da cadeia — muito menos do que pagaria ao longo de 10 anos de assinatura mensal de uma plataforma. "Provavelmente, a pessoa que escutou o mesmo disco meu por 10 anos me pagou mais do que teria me pago se tivesse me dado 50 centavos por um CD que comprou e usou durante 10 anos" argumentou. Don L reconhece que o streaming ainda tem muito a melhorar, mas rejeita qualquer romantização do passado: "Não dá para voltar para a idade da pedra".
A declaração entra em um debate que ganhou força nos últimos anos, especialmente depois que festivais como o Mad in Brazza abriram uma discussão pública sobre a sustentabilidade financeira na cena do rap. De um lado, artistas e produtoras disputam as condições de mercado; de outro, plataformas de streaming seguem sendo alvo de críticas por pagamentos baixíssimos por reprodução — especialmente para quem não alcança os volumes dos nomes maiores. A posição de Don L, no entanto, é que o problema não está no modelo digital em si, mas nos detalhes da sua execução.