Desconfie sempre de um branco tocando blues. Mas se hoje em dia há inúmeras licenças poéticas a essa regra, não é exagero dizer que a primeira grande exceção nasce do encontro entre John Mayall e Eric Clapton.
Um amálgama em que Mayall, do alto de seus 32 anos, era a reserva moral, enquanto o jovem e impetuoso guitarrista de apenas 21 foi a centelha da revolução que eletrificou o blues rural dos Estados Unidos, mantendo seu aspecto cru e espontâneo, mas encharcando-o de distorção.
Juntos, mas sobretudo guiados pela guitarra solo de Clapton, eles conjuraram o disco de blues mais importante da Inglaterra: Blues Breakers with Eric Clapton, lançado a 22 de julho de 1966.
https://open.spotify.com/album/3W45Tazulh4zb48uL1RV8H
Eric Clapton incendeia o blues
Coube a Eric Clapton, recém-saído dos Yardbirds, incendiar composições de bambas do blues como Otis Rush, Robert Johnson, Freddie King e Little Walter, obliterando barreiras geográficas e culturais entre as raízes do estilo no Delta do Mississippi e a modernidade urbana de Londres.
A combinação entre Gibson Les Paul e o amplificador Marshall Bluesbreaker completamente saturado, tal como o jovem Eric "Slowhand" já vinha usando em apresentações ao vivo, causou um pandemônio no estúdio da Decca. O produtor Mike Vernon quase teve uma síncope com o fuzz e o feedback (técnica que consiste em vibrar as cordas a partir do volume intenso do alto-falante) extraídos da guitarra em doses impensáveis para a época.
Em faixas como "All Your Love", "Hide Away" e "Steppin' Out", o discípulo britânico se equipara aos bluesmen que foram seus professores, ainda que do outro lado do Atlântico. Já em "Have You Heard", original de John Mayall e com um naipe de metais imponente, Clapton expande seu arsenal, tateando conexões com jazz, soul e entregando um de seus solos mais brilhantes. Há também no repertório aquela que foi sua primeira incursão como vocalista: "Ramblin' on My Mind".
Os outros Bluesbreakers
Não se pode esquecer o papel fundamental da seção rítmica composta por John McVie no baixo e Hughie Flint na bateria. O groove gerado por ambos faz a cama para um tipo de blues mais palatável e capaz de ser assimilado por uma audiência que, ao contrário de Clapton, nem sempre é formada apenas por puristas.
McVie cofundaria o Fleetwood Mac no ano seguinte, 1967. Eric Clapton não esperaria nem isso. Ainda em 1966, ele criou o Cream com os igualmente talentosos - e difíceis de lidar - Jack Bruce (baixo) e Ginger Baker (bateria). As coisas estavam acontecendo rapidamente para o guitarrista, que nesse ínterim se viu alçado à condição de "Deus".
Eric Clapton vira Deus
Blues Breakers with Eric Clapton foi aclamado por público e crítica, rendendo a famosa pichação nos muros de Londres: "CLAPTON IS GOD" (Clapton é Deus, em português). É justo, justíssimo. O disco legitimou o blues na Inglaterra, bem como forçou o público americano a redescobrir seus próprios artistas negros, muitas vezes marginalizados em sua terra natal.
Também apelidado carinhosamente de "The Beano Album", devido à revista em quadrinhos que o guitarrista lê na foto de capa, Blues Breakers... até hoje é citado como exemplo definitivo de como respeitar a tradição de um gênero musical e, ao mesmo tempo, modernizá-lo com atitude e conhecimento de causa. Um marco do blues, da guitarra elétrica e da discografia de Deus - digo, Eric Clapton.