Em relato sobre entrevistar o U2 em 2004, o repórter detalha a dinâmica de lidar com o grande ego de astros do rock. Ao superar as respostas protocolares sobre o álbum da época massageando o ego de Bono e fugindo do roteiro trivial, ele arrancou uma rara revelação bem-humorada sobre o lado superprotetor do cantor com os pretendentes das filhas. Por fim, o jornalista destaca a lição de nunca desligar o gravador antes da hora, após perder o elogio que recebeu do vocalista ao final da conversa.
Aprendi duas coisas com o U2. Primeiro, o ego inflado faz a diferença — e não para o pior. "Claro que o ego do Bono é enorme. Senão ele se chamaria, sei lá, José da Silva e trabalharia de caixa numa agência bancária", me disse certa vez Steve Lillywhite, produtor da trilogia Boy (1980), October (1981) e War (1983), e How to Dismantle an Atomic Bomb (2004), último disco do U2 que amei (a propósito, nada contra os bancários).
A outra lição foi dada por Bono, numa reportagem especial sobre a Rolling Stone. "Toda entrevista é um jogo. Você não quer falar nada além do disco que acaba de lançar, ao passo que o repórter quer algo além disso", confessou.
Foi munido dessas duas informações preciosas que, no final de 2004, encarei Bono e o baterista Larry Mullen Jr. para uma entrevista especial. O tema, claro, era How to Dismantle an Atomic Bomb e a conversa se deu num escritório da banda, perto de Windmill Lane, estúdio onde gravou seus primeiros trabalhos — e que foi demolido em 2015.
O U2 mantinha suas raízes na Irlanda porque, segundo o guitarrista The Edge, era o único lugar no qual eram tratados como pessoas normais. "O sujeito te aborda no pub e diz que seu disco é uma porcaria", me disse ele, numa conversa que tivemos no início dos anos 2000. Quando o baixista Adam Clayton pergunta a você se prefere açúcar ou adoçante em seu café, você até acredita nessa simplicidade. Mas não se deixe enganar: ele vai mostrar para você que é um astro do rock.
Bono e Larry chegaram no horário, encrencaram com o fotógrafo (a matéria se limitou a um clique ao lado da dupla) e veio com as respostas prontas para as perguntas de sempre. O disco, o processo de gravação, planos de uma nova turnê… Nesse ponto, entra em ação a primeira aula que aprendi: use seu talento para massagear o ego do entrevistado, faça ele se sentir à vontade. Percebi que a missão tinha sido cumprida quando o assessor do U2 avisou que o tempo da entrevista tinha terminado, mas Bono quis continuar o papo.
A segunda aula é ir além do trivial "como foi feito o novo disco". E nasceu de uma resposta de Bono sobre o hip hop. "As letras de crime são iguais às do Johnny Cash", disse o cantor, referindo-se aos contos de morte e tiros narrados por um dos pioneiros do country rock americano. "Escuto esses discos com meus filhos, mas sempre as versões censuradas."
É chegada a hora de pegar o vocalista no contrapé. "Você é um pai zeloso e tem duas filhas adolescentes. Como faz quando elas trazem um namorado para casa?" Bono, então, me olhou com incredulidade. Larry Mullen teve um acesso de riso, mostrando que o repórter tinha saído do roteiro. Mas não se é Bono por acaso. "Quando chega um pretendente em casa, faço questão de abrir a porta e faço de conta que vou dar um soco nele. Se o sujeito fraquejar, digo que ele não serve para namorar as minhas filhas", brincou.
Costumo chamar esse momento da entrevista de "docinho". É quando você consegue uma informação inédita e sabe que ela raramente irá se repetir -o "docinho", claro, é aquele presente que a gente ganha depois de comer todo o brócolis do jantar. Bono e Larry responderam a mais algumas perguntas triviais e deram a conversa por encerrada. No final, o vocalista se aproximou de mim e disse: "Você é um grande entrevistador…" Pena que falou isso quando meu gravador estava desligado. Talvez tenha faltado aprender a uma terceira lição: mantenha o gravador em ação ainda que ache que a conversa foi dada como terminada.