Se existe um momento para a magia acontecer, é nesta quarta-feira, 24 de junho. Brasil e Escócia se enfrentam às 19h, no Hard Rock Stadium, em Miami, pela terceira rodada do Grupo C da Copa do Mundo de 2026. Para a Escócia, é a chance de fazer história. Para Belle and Sebastian, é a chance de ver a própria música ganhar vida em campo. "It Only Takes One Lion" foi lançada como hino oficial da seleção escocesa — uma canção que nasceu da euforia de um momento específico e que agora carrega, nos acordes, o peso de 52 anos de frustração.
A música nasceu na noite da vitória por 4 a 2 sobre a Dinamarca, nas eliminatórias. Chris não assistiu ao jogo ao vivo; estava ensaiando com a banda, mas a atmosfera em Glasgow era elétrica. "A gente estava acompanhando pela TV, e a energia no ensaio era incrível. Voltei para casa, vi o VT e assisti a tudo de novo. Foi incrível", conta Chris Geddes, um dos fundadores da banda, à Rolling Stone Brasil. Foi nesse clima que Stuart Murdoch, vocalista, escreveu a canção.
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O que começou como uma possível colaboração solo de Stuart com Pete Ferguson e Brian McNeill virou um projeto do Belle and Sebastian. A banda inteira entrou na criação. O resultado transita de um hino esperançoso para um pop acelerado, carregado de cordas — exatamente o que uma nação em suspensão precisava ouvir.
A canção foi adotada rapidamente pela torcida: um amigo de Chris a ouviu tocando em uma fan zone durante o jogo contra o Haiti, e a reação foi imediata e positiva. Mas o momento que realmente consolidou "It Only Takes One Lion" foi a estreia no Royal Albert Hall, em Londres. Chris levou o sobrinho, de 11 anos, à apresentação:
"Ele subiu no palco com o uniforme escocês, com uma bola de futebol, e eu e o Stuart ficamos chutando a bola com ele ali mesmo. Mesmo estando na Inglaterra — rival da Escócia —, ninguém vai jogar garrafas em você se tiver uma criança de 11 anos no palco", brincou.
Torcedor desde sempre
A relação de Chris com o time nacional começou cedo, herdada do pai. "Quando eu era criança, meu pai ia a muitos jogos. Eu acompanhava o time pela TV, e ele trazia os panfletos das partidas. Eu adorava isso". Mais tarde, quando morou em Mount Florida, o mesmo bairro onde fica o Hampden Park, estádio nacional escocês, passou a frequentar jogos presencialmente — mas era, sobretudo, pela TV que absorvia a atmosfera, especialmente quando a multidão deixava o estádio. A relação era a de um torcedor comprometido, mas distante: via o time lutar e, muitas vezes, falhar.
A história da Escócia em Copas do Mundo é paradoxal: durante décadas, foram sempre favoritos — mas nunca campeões. "Quando éramos esperados apenas para destruir o time, levamos 1 a 0 contra a Costa Rica em 1990. É engraçado: em Copas anteriores, havia histórias assim. Muitas vezes, a gente é um time melhor quando somos azarões do que quando somos favoritos". Com o tempo, a Escócia mudou de patamar. De favoritos sob pressão, viraram azarões com liberdade. E, para Chris, essa mudança de papel é melhor. Não há expectativa para decepcionar quando ninguém acredita que você pode ganhar.
Mas nenhuma derrota dói tanto quanto contra o Brasil. A história entre os dois países é feita de esperança repetidamente frustrada. Em 1974, houve um empate — a última vez em que se encontraram em uma Copa do Mundo sem que a Escócia saísse derrotada. Em 1982, David Neary marcou um gol que o tornaria lenda em Glasgow, mas não adiantou: a Escócia perdeu mesmo assim. Desde então, são 52 anos de espera. Duas gerações inteiras cresceram vendo o país nunca conseguir sequer um empate contra o Brasil em Copas.
Agora, em 2026, o contexto é diferente e urgente. O Brasil chega ao jogo contra a Escócia precisando vencer para se garantir na próxima fase. Para a Escócia, a situação é ainda mais crítica: uma derrota significa eliminação. É David contra Golias, mas com o Golias tendo mais a perder. E, quando perguntado sobre as chances, Chris é realista, mas não sem esperança: "Eu ficaria muito surpreso se a gente ganhasse. Mas não ficaria tão surpreso se conseguíssemos um empate. Brasil é uma seleção de altíssimo nível".
Ele conhece o adversário. Acompanha o Celtic, viu Vinícius Júnior em pessoa quando enfrentaram o Real Madrid na Champions League. "Ele é um dos melhores jogadores do mundo. Qualquer time ficaria feliz em tê-lo".
Falando em música…
No meio de toda essa tensão, o Belle and Sebastian celebra 30 anos e faz uma turnê tocando, na íntegra, os dois primeiros álbuns clássicos: Tigermilk (1996), o álbum de estreia que os apresentou ao mundo como uma banda de indie-folk melancólica e sofisticada; e If You're Feeling Sinister (1997), talvez sua obra-prima, um disco que definiu gerações de ouvintes e consolidou a banda como uma força criativa a ser levada a sério.
Agora, a banda está em uma turnê celebrando esses dois álbuns clássicos, tocando-os na íntegra — uma imersão completa no passado. Mas há um problema nessa nostalgia: pode fazer a banda parecer congelada no tempo:
"É bom porque tocar álbuns de 30 anos pode fazer as pessoas pensarem em nós como uma banda do passado. Então, é ótimo ter música nova ao mesmo tempo, capturando a atenção também".
Escócia campeã?
E, quando questionado sobre a primeira coisa que faria se visse a Escócia campeã do mundo, Chris foi direto: "Eu ficaria convencido de que estou sonhando, com certeza. E eu gostaria de ter apostado £100 no início do torneio". É o sonho do torcedor desapegado — quem aposta não porque acredita que vai acontecer, mas porque seria tão extraordinário que mereceria, depois, poder dizer "eu sabia". Ninguém na Escócia realmente acredita que vai ganhar. Mas todo mundo — Chris incluído — espera. E, quando um hino como "It Only Takes One Lion" toca nos estádios, nas ruas de Glasgow, nas fan zones, talvez — só talvez — a esperança seja suficiente.
Nesta quarta, quando Brasil e Escócia entrarem em campo, toda a história vai colidir: 52 anos de frustração, 30 anos de celebração, uma canção que nasceu da euforia e agora carrega a responsabilidade de um país inteiro. Chris Geddes não será o técnico, nem o goleiro, nem o artilheiro. Será apenas alguém vendo o próprio time jogar, com a música da sua banda como pano de fundo. E talvez isso baste. Talvez a magia realmente possa acontecer — não porque seja provável, mas porque, quando você tem um hino como esse, a Escócia nunca está completamente sozinha em campo.