PARATY - Uma procissão deixou o centro histórico de Paraty na tarde deste sábado, 25, em direção ao Sesc Caborê, a cerca de 20 minutos de caminhada, para conferir a concorrida mesa com Angela Davis na 24ª Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty.
A filósofa e ativista foi entrevistada pela jornalista Flávia Oliveira como parte da programação da Casa Sesc no evento, em conversa que passou por temas diversos ancorados por grandes pensadores negros brasileiros.
Angela é sem dúvida a maior estrela desta Flip, mesmo sem integrar a programação oficial do evento (quase ao mesmo tempo que ela, falava no Auditório da Matriz a escritora inglesa Zadie Smith, que teria o segundo lugar nesse pódio). Sua mesa teria participação do nigeriano Wole Soyinka, prêmio Nobel de Literatura, mas o autor precisou cancelar por razões pessoais. No início da conversa, a filósofa lamentou a falta do escritor e disse que espera que ele possa "sair do hospital logo".
O evento ocorreu em uma tenda montada no Sesc Caborê; antes, ocorreria na Casa Sesc, no centro de Paraty, mas o local foi alterado para atender à demanda. Foram 700 ingressos distribuídos online com antecedência, esgotados em minutos. Essas mesmas 700 pessoas formaram uma longa fila na Av. Octávio Gama, aguardando a liberação da entrada.
Para se ter uma noção da concorrência, Juliana Takeuchi, designer de 36 anos que aguardava na fila, disse que estava em uma casa com cinco pessoas, todas tentando conseguir ingressos. Apenas ela e a amiga Lyssandra Leite, especialista de dados, de 30, deram a sorte de estar lá.
A demora na liberação atrasou o início da mesa em 25 minutos. Quando Angela subiu ao palco, a tecnologia foi o que atrapalhou. Ela planejava usar fones de tradução simultânea, mas o áudio parecia estar vazado ou com problemas. No fim, a tradutora e intérprete Amanda Gabriele subiu ao palco e traduziu as perguntas para ela durante a conversa.
O telão montado ao lado do palco e as transmissões ao vivo na Casa Sesc em Paraty e no YouTube do Sesc RJ também apresentaram problemas, com falhas, imagem estourada e a câmera sendo reposicionada com frequência.
Fora os contratempos, a conversa ocorreu sob constantes aplausos. "O Brasil é o meu lugar favorito no mundo. Estou especialmente feliz de estar aqui em Paraty, um lugar com tanta história. Você quase consegue sentir a presença dos ancestrais aqui, que tiveram um papel tão grande durante o período da escravidão", disse.
A jornalista Flávia Oliveira conduziu a conversa a partir de conceitos de grandes intelectuais negros do Brasil, começando por nomes como Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez. "Muitos acadêmicos jovens nos Estados Unidos estão estudando o trabalho da Lélia. Claro que ela pertence ao Brasil, mas ela também pertence ao mundo", exaltou Angela.
"O que me impressionou sobre o conceito de amefricanidade [cunhado por Lélia] é que ela reconheceu que a luta da população negra em qualquer lugar do mundo não teria tido avanço sem a ajuda dos povos originários", continuou. "A crítica dela ao capitalismo é algo de que precisamos desesperadamente hoje, especialmente na era do primeiro trilionário."
A crítica de Davis ao capitalismo e aos grandes ricos permeou a mesa. Ela não citou o nome de Elon Musk, apesar de aludir a ele. O mesmo ocorreu, em determinado momento, com Flávio Bolsonaro. "Não podemos permitir que o filho daquele… qual o nome dele?", disse em tom irônico. "Dar nome às pessoas dá poder a elas. Eu me recuso a nomeá-lo."
A intelectual afirmou que "o fascismo está em ascensão na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina, mas não entre as pessoas". "O que quero dizer aqui é que somos bem mais fortes do que aqueles que fingem nos governar", disse.
A conversa também trouxe Milton Santos e o conceito de desigualdade socioterritorial, momento em que a filósofa americana criticou a gentrificação em Paraty.
"Tivemos a oportunidade de ouvir ontem sobre o que está acontecendo nesta área. Prometi que diria algumas palavras sobre a gentrificação que está acontecendo em regiões pobres em Paraty e também sobre o racismo ambiental. Os jovens estão nos dizendo que temos que nos preocupar com o meio ambiente, caso contrário não haverá vida para eles. Os empreiteiros aqui em Paraty estão tentando criar meios de lucrar mais enquanto expulsam as pessoas de suas casas", afirmou.
Já um dos momentos bonitos da mesa ocorreu com a menção à escritora Conceição Evaristo, cujas mesas na programação paralela têm provocado enormes filas em Paraty. Presente na primeira fila para acompanhar a participação de Angela, ela ouviu palavras de admiração da americana. "Te coloco no mesmo nível que Nina Simone e Toni Morrison. Quero renascer como vocês três juntas."
Aos 82 anos, a professora relembrou a prisão nos anos 1970, quando suscitou um movimento global em nome de sua libertação. Ela disse que não sabia, naquele período, o quanto aquilo moldaria sua trajetória em direção ao abolicionismo penal, teoria que defende e promove atualmente.
Ecoando declaração dada em entrevista ao Estadão na sexta, 24, a filósofa se disse admirada pelas políticas de inclusão no Brasil. "A primeira vez que vim ao Brasil não havia ações afirmativas, quase não tinha pessoas negras nas universidades. Vi um novo sistema universitário nascer na Bahia. Já que são palpáveis, precisamos celebrá-las", afirmou.
Com o encerramento da mesa, Angela permaneceu no palco. Discretamente, uma cadeira foi colocada ao centro e, sem anúncios, ela se sentou para autografar livros que logo começaram a aparecer aos montes. Ficou ali por longos minutos. "Toquei na mão da Angela Davis", dizia uma senhora enquanto deixava a tenda. Certamente uma passagem que ficará marcada na história da Flip.
*A repórter viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026