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Leia trecho de 'Trincheira Tropical', Livro do Ano do Jabuti sobre a 2ª Guerra, de Ruy Castro

Obra reconstitui o cotidiano do Rio de Janeiro durante a Segunda Guerra Mundial e venceu também a categoria Biografia e Reportagem na premiação de 2026

28 out 2026 - 11h02
Resumo
O escritor Ruy Castro conquistou o Prêmio Jabuti de Livro do Ano pela segunda vez consecutiva com a obra "Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio". O livro, que também venceu na categoria Biografia e Reportagem, investiga os impactos do conflito global no cotidiano da então capital brasileira entre 1935 e 1945. A narrativa aborda as tensões políticas da época, as disputas ideológicas e o avanço de movimentos autoritários no país, a exemplo da Ação Integralista Brasileira.

O escritor e jornalista Ruy Castro venceu o Prêmio Jabuti 2026 com Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio, eleito Livro do Ano na 68ª edição da premiação, realizada na terça-feira, 27, em São Paulo. A obra também conquistou o troféu na categoria Biografia e Reportagem.

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"Trincheira tropical: A Segunda Guerra Mundial no Rio" de Ruy Castro
"Trincheira tropical: A Segunda Guerra Mundial no Rio" de Ruy Castro
Foto: Companhia das Letras/Divulgação / Estadão

Publicado pela Companhia das Letras, o livro investiga como a Segunda Guerra Mundial repercutiu no Brasil entre 1935 e 1945, com foco no Rio de Janeiro, então capital federal. A narrativa reúne histórias de espiões, refugiados, diplomatas, artistas e pessoas envolvidas nas disputas políticas daquele período.

Ruy Castro venceu o Prêmio Jabuti 2026 com 'Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio'.
Foto: Julia Queiroz/Estadao / Estadão

Ao reconstruir os acontecimentos, Ruy Castro aborda as tensões provocadas pela ascensão do nazifascismo na Europa, os reflexos do conflito na sociedade brasileira e os debates que antecederam a entrada do País na guerra. A pesquisa combina acontecimentos históricos e episódios da vida cotidiana carioca.

Livro do Ano do Jabuti pela segunda vez consecutiva

Esta é a segunda vez consecutiva que Ruy Castro conquista o principal prêmio do Jabuti. Em 2025, o escritor foi reconhecido por O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim, coletânea de crônicas sobre o músico, vencedora na categoria Crônica e escolhida como Livro do Ano.

Capa de 'O ouvidor do Brasil - 99 vezes Tom Jobim', de Ruy Castro
Foto: Divulgação/Companhia das Letras / Estadão

Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), o autor construiu uma trajetória marcada por biografias e obras dedicadas à música e à história cultural brasileira.

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Ruy Castro não compareceu à cerimônia de 2026 por questões de saúde. Segundo a editora Companhia das Letras, ele está bem.

Leia trecho de 'Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio'

Em 1934, no Rio, a quem quisesse juntar-se às multidões que começavam a sacudir as ruas marchando uniformizadas pela salvação da pátria bastava subir ao primeiro andar da rua Rodrigo Silva, 40, no centro da cidade, e inscrever-se. Era a sede carioca da AIB (Ação Integralista Brasileira), o movimento criado por Plínio Salgado dois anos antes, em São Paulo. Ele seria recebido com sincero apreço por um funcionário de camisa verde, que o ajudaria a preencher a ficha e presentearia o novo membro do integralismo com uma sacola de livros, compêndios, cadernos e panfletos sobre o movimento.

Por acaso, a duas portas da sede, no mesmo primeiro andar, ficava uma alfaiataria dedicada à confecção do uniforme dos integralistas: camisa verde-bandeira, "cor das matas e da bandeira brasileira", de brim ou de algodão, mangas compridas para abotoar nos punhos, alças nos ombros, bolsos estilo militar, gravata preta, calças brancas ou pretas e cinto e sapatos pretos. O das mulheres seguia o mesmo modelo, exceto pela camisa, de gola aberta, sem gravata, e pela saia, também branca ou preta, em vez de calças, na altura das canelas. Para certas atividades, como as cerimônias militares promovidas pelo movimento, o uniforme masculino previa também uma boina de lona verde em forma de capacete militar. Mais que um uniforme, era uma farda. Nas suas marches aux flambeaux pelas ruas, à noite, com as tochas de estopa embebida em gasolina, as camisas verdes pareciam incandescentes.

Fardas no Brasil eram exclusividade das Forças Armadas. Mas o ex-poeta, escritor, jornalista, profeta e apóstolo do integralismo Plínio Salgado conseguira uma licença especial do ministro da Guerra, general Euclydes Goes Monteiro, para que a AIB, uma organização civil, as usasse. Com isso, os camisas-verdes estavam na legalidade e instruídos por Plinio a usá-las o dia todo e em toda parte. Para Goes, nada a opor também a que, na manga esquerda da camisa, pouco abaixo do ombro, os integralistas trouxessem uma braçadeira branca com uma figura dentro do círculo. Era o sigma — S —, 18ª letra do alfabeto grego, correspondente ao S latino e, na matemática, símbolo de uma soma. E esta era a ideia da AIB: uma congregação nacional de pequenas unidades. Centenas de milhares dessas pequenas unidades, talvez milhões, patriotas como só os integralistas sabiam ser. Nada disso parecia perturbar o presidente da República, Getúlio Vargas.

Assinada a ficha na sede e tiradas as medidas no alfaiate, o novo filiado ou filiada logo estaria de posse de dois ou mais jogos de uniforme, um dos quais, de preferência, já no corpo. Tornava-se um camisa-verde (as mulheres eram as blusas-verdes). Devidamente encamisado, bastava ao novo integralista sair à rua para exibir sua filiação e praticar o código estabelecido entre seus correligionários. Ao passarem um pelo outro, estendiam o braço direito em posição vertical, mão espalmada, e se saudavam exclamando "Anauê!", palavra que os integralistas diziam ser originária do tupi, significando — não se sabia ao certo — "Eis-me aqui!" ou "Você é meu irmão!". Os alfaiates aderiram em massa à confecção, com o que, subitamente, as províncias do Brasil foram tomadas de verde e os ares, carregados de "Anauê!".

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O termo correligionário não era força de expressão. O integralismo se via como uma espécie de religião. Baseava-se na tríade "Deus, Pátria e Família" (maiúsculas compulsórias) e tinha ideias rígidas sobre como a pátria devia ser conduzida — ideias essas que estavam no ar em toda parte, principalmente na Europa, na voz dos descontentes com as democracias liberais e assustados com o comunismo. No Brasil, elas foram organizadas e postas em letras de fôrma por Plínio Salgado.

A figura de Plinio, 39 anos, natural de São Bento do Sapucaí (SP), não correspondia ao seu poder. Era baixinho, de compleição de mosquito, cinquenta quilos de roupa e sapato, olhos tristes, orelhudo, rosto afilado e bigode estilo escova de dentes, não muito diferente do criado pelo cômico Carlitos e adotado pelo líder alemão Adolf Hitler. Plinio parecia ter dupla personalidade. Em pequenos grupos, era apagado, discreto, hesitante. Já nos palanques e comícios, transfigurava-se. Era o arrebatador de massas, o líder, o condottiere, só comparável ao seu inspirador, o italiano Benito Mussolini. O escritor luso-brasileiro Carlos Malheiros Dias descreveu-o como orador: "Em Plínio Salgado, as reticências, as perplexidades, as condicionais são substituídas, à maneira de Mussolini e de Hitler, pelas convicções imperativas e contagiosas". Outro admirador apaixonado o definiu para a eternidade: "Ninguém como Plinio tem o dom de conjugar a palavra com a ação, o verbo com a carne, e descer o sonho das alturas da imaginação para fazê-lo palpitar nos corações humanos". E o futuro jurista Miguel Reale: "Plinio não é uma pessoa, é uma ideia". Abstrato, quase incorpóreo, nem assim Plinio abria mão de, como chefe nacional do integralismo, ser sempre saudado com três "Anauês!".

Seus discursos eram ribombantes, sem economia de pontos de exclamação: Não! Não e não! Não está tudo perdido! Existe uma geração nova que se levanta! Que quer caminhar! Que já começou a caminhar! Que reerguerá a Pátria! Que construirá o Brasil! Que saberá ir até ao sacrifício, para redimir nossa terra e nossa gente dos erros do passado! Essa geração surge com força! Seu entusiasmo não é fogo de palha! É um incêndio assoberbante de fé, de brasilidade, de convicção e de certeza!

Se a geração velha não soube acreditar em coisa alguma e sucumbiu no pântano dos imediatismos, a nova geração saberá crer! E, se isto é loucura, bendita a loucura sagrada que salva as Pátrias do bom senso que as destrói, enxovalha e avilta!

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O integralismo era a extrema direita brasileira. Pregava um Executivo de poder integral: centralizador, implacável, corporativista, anticomunista, ultranacionalista e de férrea orientação cívica e religiosa — no caso, católica, mas sem excluir os protestantes e espíritas. Na sua concepção, o Legislativo e o Judiciário deveriam ser simples extensões do Executivo. Seus modelos eram a Alemanha, a Itália e o Império do Japão, os novos Estados autoritários que estavam assombrando o mundo com sua prosperidade e pareciam barreiras invencíveis contra a ameaça das esquerdas. A esse respeito, a pregação de Plinio nos palanques era quase bíblica:

A esquerda é a violência, o golpe cruel, o assassínio frio, o defloramento em massa, o saque organizado, o massacre, o incêndio, a blasfêmia! A direita é a união sagrada em torno da Bandeira da Pátria, das tradições nacionais, da virtude, da castidade, do heroísmo, da religiosidade, da delicadeza de sentimentos, do pudor individual e coletivo, do sacrifício, da honra de uma Nação!

Os camisas-verdes vinham "salvar o Brasil" de, entre outras ameaças, sua "iminente anexação à URSS". Para Plinio, o belzebu comunista estava se infiltrando em todo o tecido nacional: Exército, Congresso, administração pública, imprensa, literatura, teatro, sindicatos, ginásios, universidades, associações culturais e onde quer que se juntassem dois ou mais brasileiros. E advertia:

Sei os inimigos que o integralismo tem. Sei os que tramam contra a Nação. Percebo suas manobras. Estou alerta. Acompanho os passos dos bolchevistas. Sei onde estão, o que pretendem e quando vão querer agir. Nos lugares onde percebi a infiltração comunista, também me infiltrei. Se o comunismo tem gente nos quartéis, eu também lá tenho companheiros. Se ele vai aos navios, eu também vou. Se ele vai às fábricas, também vou eu. Não lhe darei quartel!

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Mas o comunismo, ele bradava, era só a consequência dos desmandos de uma longa lista de inimigos do país: as elites, os burgueses, liberais, socialistas, anarquistas, materialistas, ateus, judeus, maçons, cínicos, velhacos e imorais; os praticantes de latrocínio, jogatina, cafetinismo e prostituição; os assíduos nos cassinos, garçonnières, rendez-vous e corridas de cavalos; os frequentadores das praias, onde imperava o despudor, do hall dos hotéis elegantes com suas demi-mondaines às cinco da tarde, e até das confeitarias, com seus milk-shakes, símbolos da invasão americana. Os camisas-verdes eram uma casta à parte, puros, imunes às tentações.

Com tantos inimigos a combater, Plinio sempre encontraria quem se identificasse com pelo menos uma de suas propostas. E muitos se identificavam com todas. Era um discurso hipnótico para a classe média, afundada em falências e inadimplências desde a quebra do capitalismo em 1929, com inflação, desemprego e insatisfação geral no país. Mas o público que Plinio queria atingir era a "mocidade", receptiva à estratégia de que, antes de fundar um partido político, era preciso formar um movimento de ideias — sugestão que ele ouvira do próprio Mussolini, quando o Duce o recebera no Palazzo Venezia, em Roma, em 1931.

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