No livro de memórias "Swan Song: Diana, My Sister", Charles Spencer expõe os bastidores da realeza britânica após a morte da princesa Diana em 1997. Ele acusa a monarquia de frieza, relata um suposto alívio do então príncipe Charles com o falecimento da ex-esposa e critica a exposição dos sobrinhos William e Harry no funeral, além da perseguição dos tabloides. O Palácio de Buckingham rebateu as alegações de forma rara, afirmando que a dor do luto fraternal pode nublar o julgamento e as memórias.
Aguardado livro de memórias de Charles Spencer revela comportamento do Palácio de Buckingham após a morte de sua irmã. Obra gerou rara reação da família real britânica. Confira alguns dos principais trechos.No novo livro Swan Song: Diana, My Sister ("Canto do Cisne: Diana, minha irmã" em tradução livre), Charles Spencer, o 9º conde Spencer, apresenta sua perspectiva sobre a vida de sua falecida irmã, Diana, Princesa de Gales.
Como a cultura dos tabloides britânicos garante que qualquer desavença ou controvérsia envolvendo a família real seja amplificada e transformada em um grande debate público, o livro de memórias começou a ganhar as manchetes antes mesmo de seu lançamento, nesta terça-feira (22/09).
Entre as principais revelações da obra, Spencer afirma acreditar que Diana tinha Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e que, "como parte dessa condição, ela sofria de disforia sensível à rejeição", algo que ele descreve como "uma dor emocional intensa diante da rejeição ou crítica de outras pessoas".
Spencer também afirma que seu pai desenvolveu uma "ligação romântica" com a futura rainha Elizabeth 2ª, até ser dissuadido por Lorde Mountbatten - tio materno e mentor próximo do marido da rainha, o príncipe Philip.
No entanto, o ponto mais polêmico do livro ocorre quando Spencer revisita um dos capítulos mais dolorosos da família real britânica: o período que se seguiu à trágica morte de Diana em um acidente de carro, em 31 de agosto de 1997.
"Logo vamos esquecê-la"
Spencer escreve que, ao saber do acidente de Diana, a primeira reação da rainha Elizabeth 2ª foi perguntar: "O que ela está aprontando agora?", antes que a gravidade da situação ficasse evidente.
A morte de Diana provocou uma onda mundial de pesar. Após o acidente, a família real enfrentou forte reação negativa do público devido à resposta tardia e fria à tragédia. O primeiro pronunciamento público da rainha ocorreu cinco dias após a morte de Diana.
Em seu livro, Spencer sugere que algumas pessoas dentro do Palácio de Buckingham ficaram "aliviadas - e até satisfeitas" com a morte de sua irmã. Ele também relata uma conversa telefônica com o rei Charles 3º (então príncipe de Gales) ocorrida dias após o falecimento. Segundo Spencer, o príncipe parecia "eufórico, como alguém que ganhou na loteria". Spencer relata que eles discutiram sua oposição ao fato de o príncipe William, então com 15 anos, e o príncipe Harry, com 12, caminharem atrás do caixão da mãe durante o cortejo fúnebre, que foi transmitido internacionalmente.
Spencer considerava que seria traumático expor os meninos aos holofotes da mídia logo após a morte da mãe. Ele escreve no livro acreditar que os meninos foram usados como um escudo de proteção para Charles, pois autoridades do Palácio de Buckingham temiam que "membros do público pudessem gritar ofensas contra ele", enquanto a presença das crianças "certamente garantiria que não houvesse insultos".
O conde também relata a convicção de Diana de que o príncipe Charles já sentia ciúmes da popularidade dela décadas antes.
Ele descreve como o príncipe Charles teve um "acesso de raiva" durante a conversa telefônica realizada após a morte dela. O irmão da princesa escreve que o ex-marido dela extravasou "seu desprezo reprimido por Diana e seu horror diante do fato de o mundo estar tão comovido com a morte dela. 'Fique tranquilo', disse ele com rispidez, logo vamos esquecê-la'"
No entanto, quase 30 anos após o acidente fatal, Diana continua sendo um ícone global. Aos 36 anos, ela era uma celebridade glamorosa, reconhecida por sua atuação em diversas causas, incluindo seu apoio pioneiro a pacientes com aids.
O Palácio de Buckingham reagiu diretamente ao primeiro trecho publicado no tabloide britânico Daily Mail: "Embora, por princípio, não comentemos livros, Sua Majestade está ciente de que a dor do luto fraternal pode nublar a razão, afetar o julgamento e alterar a memória de maneiras que outros não reconhecem, mesmo muitos anos após tal perda."
Em contrapartida, o Palácio recebeu as acusações feitas pelo príncipe Harry em seu livro de memórias de 2023, O que sobra, com total silêncio institucional, aplicando a estratégia tradicional de relações públicas da família real: "Nunca reclame, nunca dê explicações".
Em nome da "família de sangue"
A desavença entre o conde Spencer e o Palácio de Buckingham não é recente.
Spencer ficou famoso por proferir um discurso emocionado em homenagem à irmã na Abadia de Westminster, em 1997. Nele, não apenas criticou o papel dos paparazzi no acidente ao descrever a irmã como a "pessoa mais perseguida da era moderna", mas também marcou uma distinção em relação à família real ao ressaltar seus laços de sangue com Diana e prometer proteger os filhos dela "de um destino semelhante".
"Prometo que nós, sua família de sangue, faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para dar continuidade à maneira criativa com que você guiava esses dois jovens excepcionais, para que suas almas não fiquem simplesmente submersas pelo dever e pela tradição, mas possam cantar livremente, como você planejou", disse ele na ocasião.
No dia do funeral, relata Spencer, a rainha Elizabeth 2ª ofereceu, por meio de intermediários, restaurar postumamente o título de "Sua Alteza Real" (SAR) de Diana. Spencer recusou a oferta, por considerar que o gesto não tinha mais sentido após a morte dela.
Embora o Palácio de Buckingham sempre tenha insistido que Diana abriu mão do título voluntariamente, Spencer revelou em seu livro que ela ficou "profundamente magoada" com a perda do título durante o processo de divórcio de Charles.
"Cultura dos tabloides contribuiu para sua morte"
No livro, Spencer retoma os temas abordados em seu discurso fúnebre, acusando editores e proprietários de veículos de comunicação que compravam fotos invasivas de Diana de terem contribuído para a morte da irmã.
Segundo ele, a cultura dos tabloides britânicos se transformou em um sistema que lucrava com o sofrimento de Diana e incentivava invasões de privacidade cada vez mais extremas.
Após o divórcio, grande parte da mídia passou a retratar Diana como alguém instável, manipuladora, difícil ou que buscava chamar a atenção. Os paparazzi provocavam situações de angústia e fotografavam a reação dela; em seguida, os jornais publicavam matérias sugerindo que ela era instável.
Ela não conseguia escapar do escrutínio da mídia, o que a deixava extremamente infeliz. "É um fato triste que, em seus últimos anos, Diana tenha dirigido mais de uma vez até Beachy Head - o penhasco calcário mais alto da costa inglesa - enquanto cogitava acabar com tudo", escreve Spencer, acrescentando: "O amor pelos filhos a impediu de ir adiante".
Lançamento a tempo do 30º aniversário da morte de Diana
Embora Spencer critique há muito tempo a natureza destrutiva do sistema de tabloides britânicos, a promoção de suas memórias depende exatamente do ecossistema que ele condena. Ele vendeu os direitos de publicação de trechos do livro ao Daily Mail - um dos tabloides frequentemente associados ao intenso escrutínio da família real.
Alguns críticos o acusam de querer lucrar com a tragédia, visto que o livro de grande repercussão foi publicado pouco antes do 30º aniversário da morte de Diana.
No entanto, seus apoiadores consideram que o irmão de Diana tem o direito de compartilhar sua perspectiva pessoal sobre a vivência que ambos compartilharam, ressaltando que muitos outros autores lucraram com o legado dela ao longo das décadas.
Spencer afirmou que seu relato visa corrigir décadas de "inverdades que foram aceitas com o tempo" e retratações imprecisas de sua falecida irmã, feitas por biógrafos e comentaristas externos ao longo dos anos.
"No fundo, trata-se de uma homenagem simples de um irmão a uma irmã extraordinária", escreveu o conde Spencer sobre sua obra no Instagram. "Há um mês, li meu livro em voz alta, ao longo de três dias, para uma gravação destinada à versão em audiolivro. Ao terminar a gravação, pensei: 'é exatamente isso que eu queria e precisava dizer - e ela, imagino eu, teria aprovado cada palavra'."
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