Hoje, Selton Mello divide as telas com nomes como Jack Black e Paul Rudd, mas o caminho até Hollywood foi marcado por incertezas profundas. Durante a entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, ele recordou que, ao crescer diante das câmeras, os convites para novos trabalhos simplesmente pararam de surgir, um fenômeno comum para atores mirins daquela época, quando o mercado era muito mais restrito.
O fechamento de portas e o trauma
Selton explicou que o cenário artístico dos anos 80 era limitado à TV aberta e ao teatro, sem as janelas de oportunidade que o streaming oferece hoje. "O cinema estava morto nesse período. Não havia streaming, TV a cabo, nada disso. Também não tinham descoberto ainda o filão infantojuvenil. Então, as portas se fecharam para mim", relembrou.
Essa ausência de trabalho gerou uma crise de identidade profunda no jovem artista. "Foi um período esquisitíssimo. Eu pensei: 'Então, eu sou péssimo, não sou ator, sou horrível'. Foi traumatizante", admitiu com sinceridade.
A dublagem como salvação e escola
A reviravolta aconteceu quando Selton encontrou abrigo nos estúdios da Herbert Richers. Dos 12 aos 20 anos, ele dedicou-se intensamente à dublagem profissional, uma faceta de sua carreira que muitos fãs desconhecem. Foi nesse ambiente que ele não apenas manteve sua conexão com a atuação, mas também aprimorou o inglês e a técnica que utiliza hoje em produções internacionais.
"Enquanto eu me sentia péssimo como ator, achando que tinha acabado para mim, eu estava muito feliz na dublagem. Foi uma escola fabulosa na minha vida. A familiaridade que tenho hoje com a língua inglesa vem muito dessa época", contou o irmão de Danton Mello.
A bolta por cima em Hollywood
Para Selton, atuar em um blockbuster como Anaconda é o fechamento de um ciclo poético. Ele revelou que, durante as filmagens com grandes astros americanos, era impossível não recordar do adolescente que passava os dias trancado em um estúdio de dublagem no Rio de Janeiro, dando voz a personagens de filmes exatamente daquele estilo.
"É muito bonito essa volta que o mundo deu. Mesmo no set, eu olhava e pensava: 'Caramba, com 15 anos, eu achava que nem ator mais seria e estava dublando filmes exatamente nesse estilo. E agora estou aqui'. A vida é bonita", refletiu o ator, que hoje é considerado um dos maiores representantes do talento brasileiro no exterior.