A atriz Débora Nascimento revelou ter enfrentado anorexia na juventude devido à rígida pressão estética da carreira de modelo, superando o quadro com a maternidade. O relato motivou um alerta da psiquiatra Jessica Martani sobre a gravidade do transtorno alimentar, uma condição que envolve distorção de imagem e risco de morte. A especialista alertou para a romantização da magreza extrema e reforçou que dietas severas e exercícios compulsivos não devem ser confundidos com hábitos saudáveis.
A atriz Débora Nascimento abriu o coração ao relembrar os desafios que enfrentou em relação ao próprio corpo ao longo da carreira. Tendo iniciado na carreira de modelo aos 15 anos de idade, período em que viajava sozinha para diversos países, a artista revelou ter vivenciado "algumas coisas muito dolorosas" em virtude da cobrança estética rigorosa. As declarações acenderam um debate importante sobre saúde mental, levando a psiquiatra Dra. Jessica Martani a destrinchar a gravidade do quadro.
Cura de Débora Nascimento através da maternidade
Em entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo, a famosa resgatou o diagnóstico que marcou sua trajetória profissional. "Já tive anorexia. Esse [a questão estética] sempre foi um ponto de atenção", desabafou a artista.
Contudo, a relação com o espelho e com a autoimagem assumiu uma postura muito mais leve e saudável no cotidiano ao lado da filha. "É até engraçado que hoje em dia tomo banho com minha filha, ela me vê à vontade e fala: 'Mamãe, sua bunda balança'. E eu falo: 'É, filha, balança'. Daí eu danço com ela e mostro que está tudo bem, estou feliz", comentou.
Sendo assim, ao analisar a forte declaração, a Dra. Jessica Martani fez questão de enfatizar que a condição relatada pela famosa vai muito além de uma simples insatisfação estética. "Quando uma pessoa como a Débora Nascimento relata que viveu anorexia e distorção da própria imagem, é importante entender que não estamos falando simplesmente de uma fase em que alguém queria emagrecer ou estava insatisfeito com o corpo. A anorexia nervosa é um transtorno mental grave, no qual a relação com alimentação, peso e imagem corporal pode ficar profundamente alterada. A pessoa pode estar objetivamente muito magra e, ainda assim, perceber o próprio corpo de maneira distorcida, manter um medo intenso de ganhar peso e adotar comportamentos cada vez mais restritivos", explicou a psiquiatra.
Além disso, a especialista alertou para a forma silenciosa como a patologia avança sob o disfarce de elogios sociais. "Isso pode evoluir de forma silenciosa, porque muitas vezes começa com atitudes que a sociedade até elogia, como emagrecer, controlar muito a alimentação, treinar excessivamente ou demonstrar uma disciplina considerada exemplar. O problema é quando esse controle passa a controlar a vida da pessoa. A anorexia pode trazer consequências importantes para o organismo, mas também está associada a sofrimento psíquico intenso e risco de morte, inclusive por complicações clínicas e suicídio. Por isso, nunca deveria ser reduzida a vaidade ou falta de autoestima", pontuou.
Vulnerabilidade na juventude, redes sociais e sinais de alerta
Dessa forma, o fato de Débora Nascimento ter enfrentado a indústria da moda ainda muito jovem ilustra bem os riscos enfrentados durante o desenvolvimento emocional. "O relato da Débora também chama atenção porque ela entrou no universo da moda ainda adolescente e já contou que não conseguia enxergar o próprio corpo como ele realmente era. Isso mostra como a pressão estética pode encontrar uma pessoa justamente em uma fase de construção de identidade e de enorme vulnerabilidade à validação externa. Hoje existe ainda um agravante: as redes sociais criaram uma exposição praticamente ininterrupta a corpos editados, filtros, tendências de emagrecimento, comparações e discursos que muitas vezes disfarçam comportamentos adoecidos de 'estilo de vida saudável'", ressaltou a médica.
Diante do retorno de padrões estéticos rígidos na internet, a médica fez um apelo para que comportamentos nocivos não sejam banalizados. "Quando a magreza extrema volta a ser apresentada como ideal, precisamos ter muito cuidado para não romantizar sinais de transtornos alimentares. Nem toda pessoa magra tem anorexia, evidentemente, e não podemos diagnosticar alguém pelo corpo ou por uma fotografia. Mas mudanças importantes na relação com comida, medo intenso de engordar, restrição alimentar, exercício compulsivo, isolamento durante refeições, culpa depois de comer e uma preocupação que passa a ocupar grande parte do dia são sinais que merecem atenção", acrescentou.
Por fim, a psiquiatra defendeu uma mudança profunda e coletiva na forma como o valor do corpo humano é enxergado na sociedade. "O tratamento precisa olhar para a saúde mental e física de forma integrada e, quanto mais cedo houver reconhecimento e acompanhamento adequado, melhor. Também precisamos mudar a conversa coletiva: um corpo não deveria precisar adoecer para ser considerado bonito, disciplinado ou digno de aprovação", concluiu a Dra.