A série Emergência Radioativa está no Top 10 da Netflix há duas semanas. E não é para menos: a produção traz histórias e personagens inspirados em pessoas reais afetadas pela tragédia do Césio-137, em Goiânia (GO). A pequena Celeste, por exemplo, é inspirada em Leide das Neves Ferreira.
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A menina tinha apenas 6 anos quando foi contaminada com o Césio-137, em 1987. Ela morreu cerca de 1 mês depois de ter ingerido acidentalmente o pó radioativo. Na série, a história dela seu origem à personagem Celeste, interpretada por Mari Lauredo.
A mãe dela, Lurdes das Neves Ferreira, costumava descrevê-la como a alegria da casa. O pai de Leide era irmão de Devair Ferreira, dono do ferro-velho onde se iniciou o acidente radiológico. Devair comprou um objeto de aço que pertencia ao Instituto Goiano de Radioterapia sem saber do que se tratava.
O homem decidiu abrir a peça para tentar reaproveitar chumbo, mas acabou encontrando uma cápsula com cerca de 19 gramas de um pó azul brilhante que mudaria a vida deles para sempre. Surpreso com o pó brilhante, ele o levou para casa e compartilhou com familiares, entre eles, Ivo Ferreira, pai de Leide e marido de Lurdes.
O pai de Leide levou o pó para casa e a menina, encantada, brincou com o Césio-137 antes de fazer uma refeição do jantar. A mãe dela relatou que ela comeu um ovo cozido e que, possivelmente, ela pegou no alimento com a mão contaminada.
Leide faleceu no dia 23 de outubro de 1987, no mesmo dia em que sua tia Maria Gabriela. A mulher era esposa de Devair Ferreira e foi a primeira a desconfiar de que o objeto de aço do marido poderia estar fazendo mal à família.
Contaminação em série
Diversas pessoas que passaram pelo ferro-velho tiveram contato com a cápsula e foram contaminadas. Entre os sintomas estavam náuseas, tonturas, diarreias e vômitos, levando as pessoas a buscarem um hospital e ajuda médica.
Maria Gabriela chegou a acionar a Vigilância Sanitária, suspeitando de que a causa poderia ter sido o pó. Em uma entrevista com médicos, Maria afirmou que os sintomas apareceram depois que o marido desmontou um "aparelho estranho".
Entre outras vítimas fatais estão Israel dos Santos, de 22 anos, e Admilson de Souza, de 18 anos, ambos funcionários do ferro-velho de Devair. Devair chegou a passar por um tratamento de descontaminação e morreu sete anos depois.
O físico Walter Mendes Ferreira foi o primeiro a desconfiar de que se tratava de um acidente radiológico. Ele identificou altos níveis de radiação, resultando no diagnóstico correto das vítimas.
A limpeza do césio-137 resultou em 13.500 kg de lixo atômico, descartados em 14 contêineres lacrados que hoje estão armazenados no Parque Estadual Telma Ortegal, em Abadia de Goiás. O local foi criado para armazenar o lixo atômico.
Um monitoramento feito pela Comissão Nacional de Energia Nuclear mostrou que, na época, mais de 290 pessoas apresentaram elevados níveis de radiação. O número real de vítimas nunca foi descoberto, mas muitas delas se organizaram para criar uma associação após o acidente.