O músico e compositor Rafael Querido lançou o livro ‘Pastor Abusado: o Poder do Perdão’. A obra é autobiográfica.
Líder de uma igreja evangélica, ele relata o abuso que sofreu na infância.
Em conversa com a coluna, comenta também sobre o impacto das artes na superação dessa violência física e emocional.
Como foi o processo de decisão de escrever sobre o próprio abuso?
Eu tinha uma avó que, por circunstâncias familiares ligadas à minha mãe, convivia com o abusador. Quando ela faleceu, compreendi que aquele ciclo histórico em minha vida havia, de certa forma, se encerrado. Esse tema já vinha sendo tratado há anos em nossas congregações, com resultados consistentes de restauração e libertação. Diante disso, decidi inicialmente compartilhar meu testemunho na internet. Os frutos foram tão expressivos e as transformações tão profundas que entendi ser o momento de registrar essa experiência em forma de livro. A fé teve influência determinante nesse processo. A Palavra de Deus foi o principal instrumento da minha libertação interior.
A temática do abuso sexual ainda é um tabu dentro das igrejas, especialmente nas católicas e evangélicas. Acha que isso deveria mudar?
Sim, isso precisa mudar. É fundamental compreender que perdoar não significa absolver. Precisamos ensinar que existem liberações que realizamos por nossa própria saúde emocional e espiritual, para que haja desbloqueios internos. Entretanto, também é necessário discernir com clareza o que pertence à esfera espiritual, o que demanda acompanhamento psicológico e o que é de competência policial e jurídica. Quando essas dimensões são devidamente organizadas, o enfrentamento se torna mais maduro e responsável.
Na sua visão como líder religioso, abusadores devem ser denunciados ou perdoados?
Devem ser perdoados e denunciados. Uma coisa não anula a outra. No meu caso, quando compreendi plenamente a gravidade dos fatos, a possibilidade jurídica já havia prescrito, e a exposição acabou ocorrendo de forma midiática. Contudo, jamais devemos desprezar o que diz respeito à lei. Reafirmo: perdoar não é absolver.
Como pastor, de que maneira o senhor lida com esse problema tão íntimo e também social na sua igreja?
Ao compartilhar meu testemunho, naturalmente se estabelece uma abertura maior por parte daqueles que também foram vítimas. Cria-se um ambiente de empatia e confiança. Essa identificação facilita o início de um processo de cura conduzido com responsabilidade, acolhimento e direcionamento espiritual adequado.
As artes podem colaborar para o enfrentamento do abuso e a superação do trauma? Como aconteceu no seu caso?
Sim, desde que a arte esteja alinhada à Palavra de Deus. No meu caso, o fator central da libertação foi a compreensão bíblica do perdão, sem jamais minimizar a gravidade do ocorrido. A arte pode ser uma ferramenta poderosa de expressão e conscientização, mas a verdadeira libertação, para mim, veio por meio da verdade revelada nas Escrituras.
Os evangélicos têm sido criticados pelo envolvimento em militância política, especialmente em apoio a candidatos e políticos da direita. Qual sua opinião a respeito?
A Bíblia sempre dialogou com questões políticas. Observamos política ao longo de toda a narrativa bíblica. Fé e política, quando compreendidas corretamente, tornam-se dimensões que dialogam entre si. Vemos exemplos como o rei Davi, Salomão, José no Egito e, no Novo Testamento, José de Arimatéa, que ocupava posição de destaque no conselho, além de Nicodemos, inserido em contexto semelhante ao parlamentarismo de sua época. O essencial é que essa relação seja conduzida com ética, responsabilidade e temor a Deus.