Banal e rasa, 'Os Sete Relógios de Agatha Christie' subestima o público

Série da Netflix desperdiça a chance de elevar uma história considerada mediana escrita pela 'Rainha do Crime'

17 jan 2026 - 12h12

Será que tudo precisa ser adaptado para o cinema ou streaming, até mesmo os trabalhos mais imperfeitos de símbolos da literatura como Agatha Christie (1890-1976)? E quando vamos parar de ter franquias desnecessárias em Hollywood?

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Essas perguntas poderão rodear a mente dos telespectadores após a imersão de duas horas e meia por Os Sete Relógios de Agatha Christie, nova série da Netflix dividida em três episódios que chegou ao streaming na quinta-feira, 15, transportando para o audiovisual o livro O Mistério dos Setes Relógios, de 1929, obra considerada uma das mais fracas da escritora britânica, sob as rédeas do roteirista e produtor Chris Chibnall, que já foi showrunner de uma das versões do seriado Doctor Who.

A história é ambientada na década de 1920 e começa de maneira idêntica a muitas produções genéricas de época: uma mansão no campo, uma festa chique e, em algum momento da noite, alguém morre. No caso, o falecido é Gerry Wade (Corey Mylchreest), um funcionário do Ministério das Relações Exteriores por quem a protagonista, a jovem Lady Eileen "Bundle" Brent (Mia McKenna-Bruce), nutre interesse romântico. Todos suspeitam de um acidente ou suicídio, mas Bundle decide investigar o caso a fundo até esbarrar em mistérios da alta sociedade inglesa.

Série 'Os Sete Relógios de Agatha Christie' foi lançada na quinta-feira, 15, na Netflix
Série 'Os Sete Relógios de Agatha Christie' foi lançada na quinta-feira, 15, na Netflix
Foto: Netflix/Divulgação / Estadão

Falta de pungência e raciocínio

Mia McKenna-Bruce, que terá destaque nos próximos filmes sobre os Beatles, de Sam Mendes (como a mulher de Ringo Starr), simplesmente não convence como a heroína determinada do material original. Não há simpatia, nem charme. O projeto, no entanto, ganha alguma credibilidade com as presenças de Helena Bonham Carter, sempre competente em papéis que exigem alto grau de elegância, e Martin Freeman, como o Superintendente Battle, um personagem recorrente dos romances da autora, no qual Freeman revisita elementos divertidos de seu James Watson de Sherlock.

Mas o grande problema é que falta a esta atração a pungência e o raciocínio dos poderosos thrillers policiais de Christie, como Assassinato no Expresso do Oriente e Morte no Nilo, por exemplo, tão bem ajustados para a sétima arte nos anos 1970. E mesmo olhando para a indústria contemporânea, a moderna trilogia dirigida e estrelada por Kenneth Branagh, onde o foco está no processo investigativo e na psicologia dos personagens, sem nunca perder o apelo de entretenimento, seria uma ótima referência. A saga Knives Out, de Rian Johnson, apesar de não ser uma adaptação direta da autora e sim uma inspiração descarada e eficiente, foi adquirida pela Netflix e também deveria servir como pedra angular para esta empreitada. Mas, infelizmente, isso não ocorre.

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Em vez disso, Os Sete Relógios opta por uma proposta tão juvenil que não evita soar banal em certos momentos. Com trama desinteressante, repleta de respostas fáceis e diálogos anacrônicos, a série subestima o público. Faz até O Clube do Crime das Quintas-Feiras, uma decepção do mesmo gênero lançada no ano passado, parecer um filmaço. É Agatha Christie para a Geração TikTok - fugaz, superficial, sem originalidade narrativa nem estética que justifique a investida de alguém.

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