Por que a indústria musical está enviando suas estrelas para Hollywood

Com os pagamentos do streaming diminuindo e os custos das turnês aumentando, artistas estão recorrendo ao cinema em busca de dinheiro, controle e reinvenção criativa

25 mar 2026 - 10h48

Quando sua carreira começou, seria difícil imaginar Teyana Taylor ganhando um Globo de Ouro antes de um Grammy. Mas lá estava ela no Beverly Hilton, subindo ao palco após vencer como Melhor Atriz Coadjuvante, visivelmente surpresa enquanto agradecia à família, ao diretor Paul Thomas Anderson e às mulheres negras que abriram caminho.

Charlie xcx em The Moment e Teyana Taylor em Uma Batalha Após a Outra (Fotos: Divulgação)
Charlie xcx em The Moment e Teyana Taylor em Uma Batalha Após a Outra (Fotos: Divulgação)
Foto: Rolling Stone Brasil

"Nós pertencemos a todos os espaços em que entramos", disse. "Nossas vozes importam e nossos sonhos merecem espaço."

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Ela não levou o Oscar, mas sua atuação em Uma Batalha Após a Outra reformulou sua carreira, transformando anos de falta de reconhecimento em uma consagração definitiva. Também apontou para uma mudança mais ampla: músicos não estão mais apenas migrando para o cinema — estão se tornando essenciais para a indústria.

Taylor faz parte de uma onda crescente de artistas que encontram espaço em diferentes áreas do setor. Produtores como Kenneth Blume (Amor e Obsessão), Josh Dibb, do Animal Collective (OBEX), e St. Panther (Crush) estão reformulando a trilha sonora no cinema. Até meados de 2025, Charli XCX já havia garantido papéis em sete filmes, além de assinar a trilha de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emerald Fennel, explorando o universo estético que construiu com Brat. Em paralelo, Gracie Abrams e Billie Eilish estão assumindo papéis importantes no cinema, liderando novos projetos de Halina Reijn e Sarah Polley.

Para alguns, a transição ainda parece surreal. O rapper Guapdad 4000, da Bay Area, lembra de ter sido abordado para um papel em GOAT, filme de terror sobre futebol dirigido por Justin Tipping, em um momento que parecia saído de um thriller. "[Ele disse] 'Você estava no set da Issa Rae, mandando muito bem atuando. Você vai ouvir falar da gente'", conta Guapdad. "Eu cutuquei ele e falei: 'Você é policial? Quem diabos é "a gente"?' Não dá pra vir com esse papo misterioso de filme comigo. Sou paranoico. Já fui golpista."

O episódio captura a sobreposição curiosa que hoje define a indústria do entretenimento. À medida que o streaming fragmentou a monocultura, as fronteiras entre músicos, atores, influenciadores e cineastas se tornaram mais difusas. A fama está mais espalhada — criadores de conteúdo frequentemente ganham mais do que artistas tradicionais — embora Hollywood ainda exerça um forte magnetismo. Ao mesmo tempo, músicos oferecem algo que os estúdios buscam cada vez mais: credibilidade.

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"[Em parte, é] as corporações vendo quem pode garantir dinheiro e colocando essas pessoas nos filmes", diz Blume, que já trabalhou com Vince Staples, Geese e Dominic Fike. "Mas também há um ganho criativo real."

A relação entre música e cinema não é nova. Grandes gravadoras como Sony, Universal e Warner mantêm vínculos históricos com estúdios, e artistas como Cher e Barbra Streisand fizeram transições semelhantes décadas atrás. O que mudou foi a escala — e a acessibilidade. Estúdios como a A24 abraçaram essa transformação, chegando a lançar um selo musical em 2025 e se tornando, segundo o The Hollywood Reporter (via Rolling Stone), "o estúdio preferido de artistas musicais que querem atuar". A estratégia reflete uma convergência maior, em que artistas deixaram de ser visitantes em Hollywood para se tornarem parte de sua estrutura.

Essa convergência aparece tanto nos tapetes vermelhos quanto nas telas. No Academy Gala de 2025 (apelidado de "Met Gala do Oeste"), músicos como Charli XCX, Olivia Rodrigo, Haim, Ed Sheeran e Bruce Springsteen circularam ao lado dos maiores nomes do cinema, evidenciando o quanto esses dois mundos estão entrelaçados.

Há razões práticas por trás dessa mudança. Os pagamentos do streaming continuam notoriamente baixos, e as turnês estão cada vez mais caras, tornando o lucro difícil de alcançar. Segundo o Living Wage for Musicians Act, um artista precisa de mais de 800 mil streams mensais para ganhar o equivalente a um emprego de tempo integral que paga US$ 15 por hora. O cinema, por outro lado, oferece tanto oportunidades financeiras quanto expansão criativa. A trilha sonora, em especial, tornou-se um caminho viável. Embora sincronizações possam ser lucrativas, oferecem pouco controle criativo. Já compor para filmes permite que artistas moldem narrativas inteiras — e recebam de forma consistente, com valores padrão da indústria que variam de US$ 250 a US$ 1.000 por minuto de música.

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"Acho que parte disso é gente correndo atrás de alternativas", diz Dibb. "A economia da mídia está desmoronando, e todo mundo está procurando uma ilha. Mas há um lado disso que é realmente empolgante."

Esse entusiasmo aparece no trabalho. A trilha de St. Panther para Crush: Amor Colorido reimagina o romance colegial sob uma perspectiva queer de alt-R&B. "Levei uma interpretação mexicana trans para um filme como Crush, musicalmente falando", dizem. "Estava tomando decisões fora da caixa tradicional." Para Blume, esse tipo de experimentação é essencial. "Já tivemos remakes de remakes, samples de samples", afirma. "Em algum momento, as pessoas vão querer algo novo. Acho que é isso que esse movimento possibilita."

Algumas dessas novas direções já estão tomando forma. Os documentários de Questlove revisitam momentos negligenciados da história da música negra, enquanto Anderson .Paak estreou na direção com K-Pops!, uma comédia familiar ancorada nas realidades da indústria musical global. "Eu estava morrendo de nervoso", diz .Paak sobre dirigir seu primeiro longa. Ele credita ao colaborador Dumbfoundead a ajuda para navegar o processo, que começou a desenvolver durante a pandemia, quando as turnês pararam e ele passou mais tempo com a família.

Embora o cinema ainda seja mais fechado do que a música, as barreiras estão diminuindo. Hoje, artistas podem financiar seus próprios projetos, firmar parcerias com distribuidores independentes ou fechar acordos com plataformas de streaming. O resultado é uma variedade maior de histórias — e uma diversidade maior de vozes para contá-las. Rappers, em particular, estão rompendo com os papéis limitados aos quais antes eram restritos. Atuações de Vince Staples, Freddie Gibbs e .Paak mostram uma amplitude crescente, que vai da autoconsciência cômica à profundidade emocional, ampliando o que é possível para artistas nas telas.

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"Quanto mais vemos esse tradicionalismo sendo quebrado, melhor fica a arte", diz St. Panther. "Queremos criatividade. Queremos arte vibrante. Queremos filmes que realmente impactem — e queremos ouvir isso também."

Rolling Stone Brasil
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