Em "O Ser Querido", o cineasta Rodrigo Sorogoyen explora a complexa reaproximação entre um diretor consagrado e autoritário, vivido por Javier Bardem, e sua filha negligenciada, interpretada por Victoria Luengo. Ao convidá-la para seu novo longa, o set vira palco de tensões explosivas do passado. Com humor incômodo e violência psicológica, o filme mostra como a genialidade artística mascara a imaturidade emocional e a tentativa de redenção colide com a insistência no controle e no ressentimento.
Rodrigo Sorogoyen é um exímio observador das contradições humanas, um cineasta interessado na maneira como afetos, ressentimentos e disputas de poder podem transformar relações aparentemente banais em verdadeiros campos de batalha. Em As Bestas, seu longa anterior, o que começa como o conflito entre um casal de franceses que decide viver no interior da Galícia e os moradores locais contrários à sua permanência na região evolui para um retrato sufocante de orgulho, xenofobia, violência e masculinidade ferida.
Mais do que tomar partido de seus personagens, Sorogoyen investiga os mecanismos que os conduzem ao confronto, extraindo tensão de silêncios, olhares e conversas nas quais cada palavra parece carregar a ameaça de um desastre. Em O Ser Querido, exibido na 50ª Mostra de Cinema de São Paulo, essa habilidade é novamente colocada à prova, agora em um terreno mais íntimo: a relação entre um pai e uma filha que precisam confrontar as marcas de um passado que nenhum dos dois parece ter conseguido superar. Ao acompanhar as tentativas de reaproximação entre os protagonistas, o diretor expõe as feridas que persistem sob o desejo de reconciliação e a dificuldade de reconstruir um vínculo quando o afeto está profundamente entrelaçado ao ressentimento.
Esteban Martínez (Javier Bardem, Vicky Cristina Barcelona) é um cineasta consagrado, cuja reputação foi construída tanto pelo talento artístico quanto por uma trajetória pessoal marcada por excessos e comportamentos violentos. Ao convidar a filha Emilia (Victoria Luengo, Natal Amargo) para protagonizar seu novo filme, ele oferece à atriz uma oportunidade de retomar uma carreira estagnada, mas também encontra uma maneira de se reaproximar de alguém que negligenciou por anos.
A convivência no set, instalado em pleno deserto, transforma o projeto cinematográfico em uma extensão dos conflitos familiares: entre uma tomada e outra, ressurgem feridas antigas, cobranças represadas e expectativas incompatíveis sobre o que significa reparar os danos do passado. Esteban parece acreditar que o talento, o carisma e a disposição para trabalhar juntos podem abrir caminho para uma reconciliação, mas sua dificuldade em reconhecer a dimensão das próprias atitudes faz com que cada tentativa de aproximação carregue também o risco de uma nova agressão.
Seu comportamento no set reforça essa contradição: embora seja admirado pelo conhecimento e pela precisão com que conduz o trabalho, ele continua recorrendo a métodos autoritários e a uma postura controladora que revelam o quanto sua genialidade profissional está distante de qualquer maturidade emocional. Sorogoyen compreende que o desejo de recuperar uma relação não significa necessariamente estar disposto a reconhecer as razões pelas quais ela foi destruída.
A comparação com Valor Sentimental, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional deste ano, é praticamente inevitável. Os dois filmes partem de uma premissa semelhante: um cineasta consagrado tenta recuperar a proximidade de uma filha com quem mantém uma relação profundamente desgastada, oferecendo-lhe um papel em seu novo projeto. Em ambos, a profissão do pai é parte essencial do conflito, já que a capacidade de construir personagens e dirigir atores contrasta com a dificuldade de compreender as pessoas mais próximas.
As semelhanças, entretanto, encontram limites importantes na maneira como cada obra desenvolve essa relação. Enquanto Joachim Trier distribui as tensões entre diferentes personagens e explora as consequências familiares e emocionais de uma história compartilhada, Sorogoyen concentra seu interesse no embate entre Esteban e Emilia, conferindo à relação uma temperatura mais elevada e, por vezes, quase explosiva. Há menos espaço para a contemplação distanciada e mais para o desconforto de acompanhar duas pessoas que parecem incapazes de estabelecer uma fronteira segura entre amor, ressentimento e necessidade de reconhecimento.
Além disso, a realização do filme dentro do filme torna o conflito ainda mais complexo: Esteban não é apenas um pai tentando recuperar a filha, mas também um diretor acostumado a comandar pessoas, impor sua visão e exigir resultados. Sua autoridade artística, que desperta admiração na equipe, transforma-se em instrumento de intimidação, expondo o abismo entre a imagem que construiu de si mesmo e a experiência daqueles que convivem com ele. Se os dois longas se aproximam ao investigar as feridas deixadas por pais artistas, O Ser Querido é particularmente incisivo ao mostrar como a tentativa de reconciliação pode se converter em mais uma oportunidade para a repetição dos comportamentos que provocaram o afastamento.
Essa tensão encontra sua expressão mais brilhante em uma longa sequência ambientada durante a gravação de um almoço, na qual Sorogoyen demonstra como o domínio da linguagem cinematográfica pode transformar uma situação corriqueira em uma experiência de instabilidade emocional. O que começa sob uma aparência relativamente controlada logo ruma para o constrangimento, encontra momentos de humor quase absurdo e, quando parece ter permitido algum alívio, volta a se tornar ameaçador.
Javier Bardem é fundamental para o efeito de incômodo em O Ser Querido: seu Esteban alterna charme, comicidade e agressividade com uma naturalidade desconcertante, fazendo com que o espectador nunca saiba exatamente em que momento a simpatia dará lugar à hostilidade. A performance encontra um parceiro à altura na direção, que explora enquadramentos, ritmo de montagem e disposição dos corpos no espaço para extrair significados de cada gesto e de cada pausa.
Sorogoyen também experimenta com filtros em preto e branco, ampliando as possibilidades expressivas do filme e reforçando o diálogo entre a realidade dos personagens e a construção artificial das imagens. Na sequência do almoço, em particular, a própria mise-en-scène acompanha as mudanças de temperatura da relação: o humor não dissolve o desconforto, mas o torna ainda mais agudo, enquanto a aparente normalidade da situação serve de anteparo para a hostilidade que ameaça irromper a qualquer instante. É um exemplo especialmente feliz da capacidade do diretor de combinar rigor formal e espontaneidade dramática, fazendo com que a tensão não dependa apenas do que os personagens dizem, mas também da maneira como ocupam o espaço e Esteban invade ele.
Apesar da densidade dos conflitos, Sorogoyen evita transformar o filme em uma experiência excessivamente densa, encontrando espaço para o humor sem neutralizar a violência psicológica que sustenta a narrativa. Bardem compõe um personagem fascinante sem torná-lo menos repulsivo, enquanto o diretor demonstra que os conflitos mais devastadores não precisam de grandes explosões emocionais, mas da repetição de pequenos gestos que tornam a convivência insustentável.
Há uma ironia dolorosa no fato de Esteban ser um homem capaz de organizar cada detalhe de um filme, controlar o desempenho de seus atores e reconhecer as nuances de uma cena, mas incapaz de compreender aquilo que a própria filha tenta lhe dizer. Seu talento lhe permite construir mundos, embora não lhe garanta qualquer domínio sobre as consequências de suas escolhas. É nessa contradição que O Ser Querido encontra sua força: a reconciliação, que deveria representar a possibilidade de superar o passado, torna-se também um espaço em que antigas feridas voltam a ser expostas e o desejo de proximidade ameaça se confundir com a necessidade de controle.
Sorogoyen não oferece respostas fáceis sobre o que resta de uma relação tão profundamente marcada pela mágoa, nem transforma o afeto em garantia de redenção. Ao fim, O Ser Querido olha para esse processo com um ceticismo bastante cortante. Afinal, talvez a tragédia de Esteban não seja simplesmente ter perdido a filha, mas continuar acreditando que pode recuperá-la sem antes reconhecer quem ela se tornou à sombra de sua ausência. Porque desejar uma reconciliação é relativamente fácil; difícil é aceitar que ela não pode acontecer nos termos de quem causou a ferida.