Exibido na 50ª Mostra de SP, o thriller "A Morte Não Tem Dono", de Jorge Thielen Armand, aborda colonialismo, racismo e posse de terra na Venezuela. Na trama, uma herdeira vivida por Asia Argento tenta vender a fazenda da família, mas a encontra ocupada por antigos trabalhadores. Com estética imersiva e atmosfera de terror, o longa alegórico destaca a natureza como força implacável, embora oscile entre a contemplação lenta e a violência, por vezes distanciando o público do debate político central.
Em A Morte Não Tem Dono, longa exibido na 50ª Mostra de Cinema de São Paulo, o cineasta Jorge Thielen Armand (A Solidão) parte de uma situação aparentemente simples para construir um thriller sobre propriedade, memória e herança colonial. Caro, vivida por Asia Argento (A Diva Escarlate), retorna da Europa à Venezuela para vender a plantação de cacau que herdou do pai, mas encontra a antiga mansão familiar ocupada pelos trabalhadores que serviram à família durante anos.
O que poderia ser apenas uma disputa pela posse de uma terra rapidamente se transforma em um confronto com aquilo que a propriedade também carrega: violência, desigualdade e uma história que não desaparece simplesmente porque seus antigos donos foram embora. A volta de Caro é um encontro com as contradições de uma sociedade marcada pelo passado colonial.
Existe uma interessante aproximação com o brasileiro Propriedade, de Daniel Bandeira, que também transforma a questão da terra e da herança em matéria de tensão e violência. Mas, enquanto o filme brasileiro é mais direto e frontal em sua abordagem, Armand prefere se aproximar do conflito pelo caminho da alegoria.
A hostilidade de Caro em relação aos antigos trabalhadores negros da família expõe uma mentalidade colonial que persiste mesmo quando as estruturas tradicionais de poder começam a ruir. A disputa pela mansão não é apenas jurídica ou econômica: também envolve raça, pertencimento e a arrogância de quem acredita que uma herança lhe concede autoridade incontestável sobre um território e as pessoas que vivem nele.
Nesse sentido, a natureza é quase uma personagem e terra parece guardar uma memória própria. Não está apenas na paisagem ou na direção de arte, mas invade o filme por meio do desenho sonoro, dos ruídos, dos silêncios e de uma fotografia granulada que parece retirar da imagem qualquer sensação de conforto. Há uma atmosfera de terror que nasce justamente dessa relação entre o humano e o espaço. É um dos aspectos mais fortes do filme: a sensação de que a natureza não reconhece documentos, títulos de propriedade ou heranças. Ela simplesmente permanece, enquanto os donos passam. A ideia de que a morte não tem dono atravessa a narrativa como uma ameaça à ilusão humana de controle.
Armand constrói, assim, um pesadelo sobre as contradições da propriedade e a permanência das estruturas coloniais. A história de Caro ressoa em um contexto no qual antigas lógicas de dominação continuam a assumir novas formas, tornando a Venezuela um cenário particularmente expressivo para essa discussão. O problema é que a mesma escolha pelo abstrato que torna o filme intrigante também cria certa distância.
O ritmo deliberadamente lento e a insistência nas alegorias fazem com que, em determinados momentos, a obra pareça mais preocupada em construir uma atmosfera do que em aprofundar os conflitos que apresenta. Quando a narrativa finalmente desemboca em uma explosão de violência, o impacto existe, mas o espetáculo do desfecho acaba se sobrepondo, em parte, à reflexão política construída até ali.
Entre a contemplação e o excesso, Armand oscila entre a abstração e uma explosão de violência que nem sempre aprofunda as questões levantadas pelo filme. Embora a reflexão sobre racismo, colonialismo e propriedade seja potente, a narrativa nem sempre acompanha a ambição dessas ideias.
A força estética de A Morte Não Tem Dono está na maneira como som e imagem transformam a paisagem em uma presença ameaçadora, como se a própria terra guardasse as marcas de uma história de exploração que seus herdeiros preferem ignorar. Mas, se a Venezuela retratada por Armand carrega as feridas de um passado colonial que insiste em permanecer, falta ao filme transformar essa atmosfera em um drama mais contundente.