'O Convite' mescla humor, drama e sensualidade com excelência

Com roteiro afiado e elenco em sintonia, terceiro longa dirigido por Olivia Wilde consolida sua potência criativa e garante gargalhadas nas salas de cinema

3 jul 2026 - 11h07

Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde) vivem um casamento desgastado pelo tempo e pela rotina. Os vizinhos do andar de cima, Hawk (Edward Norton) e Pína (Penélope Cruz), pelo contrário, parecem desfrutar de uma relação vibrante em todos os sentidos — além da alta performance sexual, o volume também é alto, e não deixa o casal de baixo, nem sua filha, dormirem em paz. Então, surge um convite aparentemente inofensivo: na tentativa de fazer novos amigos, Angela — a contragosto do marido — chama o casal para um jantar. 

'O Convite' (2026), dirigido e estrelado por Olivia Wilde (
'O Convite' (2026), dirigido e estrelado por Olivia Wilde (
Foto: Reprodução/TMDB / Rolling Stone Brasil

Essa é a premissa do fantástico lançamento da A24, O Convite, dirigido e estrelado por Wilde. Situado ao longo de uma noite e confinado a um único cenário, o longa tem uma proposta simples, mas a transforma em uma de suas maiores virtudes. A capacidade da direção e da montagem de manterem a tensão no ar — ou seria o tesão? — é impressionante. 

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Os interesses e intrigas se desenrolam entre os casais pelos diferentes cômodos do apartamento à medida que a noite avança. São 107 minutos de um verdadeiro furacão emocional, que alterna desconforto, desejo, humor, vergonha alheia e melancolia. 

Baseando-se no filme espanhol Sentimental (2020), de Cesc Gay, Wilde afirma que buscou tratar O Convite como uma peça teatral. Segundo a diretora, ela queria que os atores pudessem desenvolver e ensaiar os personagens juntos; as gravações também seguiram a ordem cronológica da narrativa. 

O resultado desse processo é perceptível: como se não bastasse o encontro de astros no elenco (Rogen e Wilde já haviam trabalhado juntos em O Estúdio), a química entre todos é incrível. As interações parecem naturais, como se fossem improvisadas. (Edward Norton revelou, inclusive, que criou parte da história de vida de Hawk por conta própria, e a apresentou de surpresa aos colegas durante as gravações).

O roteiro, escrito por Will McCormack e Rashida Jones, constrói uma troca contínua e agoniante entre Angela, ansiosa e neurótica, e Joe, deprimido e resignado. Há cenas que evocam respiros das clássicas comédias de Woody Allen, seja pela valorização dos diálogos afiados ou pela maneira como o humor nasce das contradições humanas. 

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Também chama atenção a maneira como o roteiro evita cair em estereótipos. Nenhum personagem é unilateral; cada um deles é explorado sob diferentes camadas, desde seu passado até seus desejos e ausências mais secretos. O apartamento recém reformado do casal anfitrião se transforma em uma extensão das relações: o quarto é o único cômodo onde a reforma não foi finalizada.

Personagens 

A interpretação de Penélope Cruz como Pína é, sem dúvida, um dos maiores destaques do longa. Inteligente, independente, sensual e segura de si, a personagem desperta em Angela sentimentos conflitantes. Seu carisma torna impossível desviar os olhos quando ela está em cena. Norton interpreta o personagem complementar, misterioso mas, como se revela aos poucos, também comicamente pretensioso.

Desde antes de O Estúdio, Seth Rogen já não tinha mais nada a provar sobre seu talento para a comédia — mas faz questão de reafirmá-lo. O timing do ator permanece impecável e, dessa vez, a faceta melancólica e amarga de seu personagem ganha mais espaço. É difícil não sair do cinema carregando a sensação desgastante de conviver com alguém constantemente insatisfeito.

Para falar sobre o trabalho de Wilde, é preciso dar alguns passos para trás. Ela fez sua estreia na direção de longas com Booksmart (2019), um coming of age sólido e elogiado pela crítica. Mas seu segundo trabalho, Não se Preocupe, Querida (2022), sofreu com um andamento confuso e roteiro fraco. 

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O Convite representa o completo oposto: cada diálogo é perfeitamente colocado em uma trama envolvente e bem amarrada, que arranca risadas da plateia do início ao fim da sessão. Este é, até agora, seu filme mais maduro e consistente.

A linha tênue entre comédia e drama

Embora o humor seja muito bem construído em O Convite, o longa também não perde pontos no aspecto dramático. É uma linha tênue e seria fácil cair em clichês, mas Wilde conduz esse equilíbrio com segurança. Em meio a uma risada, o espectador é surpreendido com um soco no estômago.

Por trás dos exageros típicos da comédia, o filme aborda a importância de cultivar a individualidade dentro dos relacionamentos, a tendência de culpar o outro pelas próprias frustrações e o ressentimento que se acumula ao longo de anos. E a identificação pode ser uma das armas mais poderosas do cinema. 

Pequenos atos cotidianos de misoginia também ganham espaço na trama. O Convite tem um olhar crítico frente aos papéis tradicionalmente atribuídos ao homem e à mulher dentro das relações, mas ao invés de criar discursos explícitos, Wilde coloca essas questões em xeque de forma orgânica.

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Uma das únicas limitações do filme, porém, é não consumar completamente a tensão que constrói. O início da narrativa pode ser mais provocador do que seu desenvolvimento, que coloca um pé atrás na ousadia. O sexo, inicialmente apresentado como centro da discussão, é uma janela para questões mais profundas (e isso talvez seja até mais interessante do que explorar o sexo em si, ainda que quebre parte da expectativa do primeiro ato).

Ainda assim, é interessante a forma respeitosa como a experimentação sexual e a não-monogamia são retratadas. Apesar do constrangimento que os personagens passam em algumas cenas, não há tabus nem moralismo, apenas uma comédia curiosa e mente aberta. E mesmo o casal aparentemente livre e divertido enfrenta suas próprias inseguranças.

Outro destaque vai para a trilha sonora. Devonté Hynes, conhecido pelo projeto Blood Orange, assina sua sexta composição para o cinema, e as canções conversam com cada mudança de atmosfera, ampliando os sentimentos dos personagens.

O Convite pode dialogar com o público adulto, e soar especialmente interessante para quem estiver enfrentando crises de meia-idade e casamentos à beira da falência. Mas o longa também é um convite — em todos os sentidos do título — para o espectador de qualquer idade repensar a maneira de se relacionar com o outro e, também, consigo mesmo.

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O Convite estreia oficialmente nos cinemas brasileiros no dia 9 de julho, mas já tem sessões antecipadas a partir desta quinta, 2. 

Rolling Stone Brasil
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