Após o sucesso de "Marte Um", o diretor Gabriel Martins e a atriz Rejane Faria retomam a parceria em "Vicentina Pede Desculpas". Centrado no luto de uma mãe pela perda do filho, o longa destaca uma atuação profunda de Rejane, que carrega a narrativa. Viabilizado em parceria com a Netflix, o projeto estreia mundialmente no Festival de Toronto e passará por San Sebastián. A produção chega a cinemas selecionados em 5 de novembro e estreia na plataforma de streaming no dia 20 de novembro.
Às vésperas da estreia internacional de Vicentina Pede Desculpas no Festival de Toronto, a Rolling Stone Brasil conversou com Gabriel Martins (Marte Um) e Rejane Faria (Temporada) sobre a trajetória do filme, o reencontro da dupla depois de Marte Um, o processo de construção da protagonista e os desafios de levar às telas uma história atravessada pelo luto.
Na conversa, diretor e atriz também relembraram a longa gestação do projeto e falaram sobre a expectativa diante da repercussão internacional da produção. Confira a seguir:
O processo de gestação de Vicentina Pede Desculpas
Quando Gabriel Martins começou a desenvolver a história de Vicentina Pede Desculpas, ainda antes de realizar Marte Um, o projeto fazia parte de um núcleo criativo criado dentro da produtora Filmes de Plástico para desenvolver diferentes filmes.
O longa foi amadurecendo entre editais, oportunidades e tentativas de viabilização até que o sucesso de Marte Um ajudou a abrir as portas para que finalmente saísse do papel — agora em parceria com a Netflix.
"Marte Um aconteceu e conseguiu, com toda a sua repercussão, abrir várias portas que fizeram o Vicentina ser possível de acontecer. Então é um projeto bem velhinho, mas muito atual, muito vivo", explica o diretor.
No centro da história está Vicentina, interpretada por Rejane Faria, uma mulher que atravessa o luto após a morte do filho e precisa lidar com as consequências dessa perda. Se em Marte Um a atriz fazia parte de uma narrativa construída ao redor de uma família, em Vicentina Pede Desculpas ela praticamente carrega o filme inteiro no rosto. Para Gabriel, era justamente essa diferença que tornava Rejane a escolha ideal.
Quando a ideia surgiu, Rejane ainda estava distante da idade imaginada para Vicentina e, inicialmente, sequer seria a protagonista. Com o passar dos anos, porém, a parceria entre atriz e diretor se fortaleceu — dentro e fora dos sets — até que o papel passou a fazer sentido para ela.
"A gente foi se conhecendo mais, ficando mais próximo, mais amigo", conta Gabriel. "Acho que a Vicentina vem como um desafio de pensar um projeto que, de tudo que eu já escrevi, que a Rejane fez parte, tem uma distância maior em termos de construção."
Para o diretor, depois da experiência compartilhada em Marte Um, também era importante encontrar um novo caminho para os dois. "Cada coisa demanda um certo frescor para a gente não ficar se repetindo", afirma.
"A maneira que eu gosto de trabalhar é certamente a da Rejane também. A Rejane também é muito criadora. Então não tem muito essa relação de uma pessoa fazer e a outra executar. É meio junto. Eu sinto que cada projeto vira uma coisa junto."
A diferença é que, desta vez, essa parceria se concentra quase inteiramente em Rejane. "Como não era um filme de grupo, como era Marte Um, o filme é a Rejane mesmo. Quase o filme inteiro, praticamente, no rosto dela", resume Gabriel.
A construção da protagonista
Para a atriz Rejane Faria, a distância entre sua própria experiência e a de Vicentina foi um dos aspectos mais instigantes do trabalho. "Quando você está fazendo algo que você já viveu, mesmo que modifique, é muito diferente. Então eu estava fazendo situações que eu não passei e uma idade que eu não passei, uma vida nova chegando", explica a atriz.
O processo começou antes mesmo das filmagens, com a equipe pensando em diferentes características para Vicentina. Para Rejane, cada uma delas servia como uma nova pista para compreender a mulher que estava construindo. "Cada vez que chegava uma característica para ela, uma coisa para ela, ia me dando também elementos para eu ir tentando construir a alma dessa mulher. Então foi um trabalho bem minucioso", lembra.
A atriz também encontrou referências em pessoas próximas. Depois de compreender a caracterização da personagem, passou a observar indivíduos do próprio convívio que poderiam ajudá-la a encontrar novos caminhos para Vicentina.
Mas havia outro elemento fundamental nesse processo: a confiança em Gabriel. "É muito inspirador você fazer algo que você não sabe onde vai chegar. Esse é o grande lance do ator, construir coisas e caminhos", diz. "Eu me jogo, porque eu tenho muita confiança na direção do Gabriel."
O resultado, segundo ela, veio depois de um processo intenso. "É muito difícil, é denso, é muito tempo de trabalho, é cansativo, mas é gratificante demais."
Trajetória internacional
A trajetória de Vicentina Pede Desculpas ganhou uma dimensão ainda maior antes mesmo de chegar ao público brasileiro. O longa foi selecionado para a 51ª edição do Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF), onde faz sua première internacional na seção Plataforma em 12 de setembro, e também integra a programação do Festival de San Sebastián, na Espanha.
Para Gabriel, chegar a esse momento representa principalmente a possibilidade de finalmente ver um trabalho desenvolvido durante tantos anos encontrar seu público. "A gente nunca sabe os caminhos das coisas", afirma. "As decisões que passam por festivais, um filme entrar ou não entrar, às vezes são uma questão muito subjetiva e muito do timing do momento."
Por isso, a seleção representa uma conquista que não é tratada como consequência automática da qualidade do filme. "Dá um alívio poder ter tido tanto trabalho e ver que a coisa vai nascer de um tamanho que a gente entende que merece. Porque poderia não acontecer isso e não seria um demérito ao nosso trabalho, ao filme."
Rejane compartilha dessa sensação, mas coloca o percurso em uma perspectiva ainda maior: "A gente sabe o que é fazer cinema nesse país, é sempre muito enigmático o que vem pela frente", afirma. "Quando você vê que um roteiro foi aprovado, que você tem um dinheiro para fazer, que você conseguiu filmar, montar, finalizar, e esse filme chega no festival... Então a gente vai realmente agradecendo muito."
Para ela, o reconhecimento internacional não apaga a dimensão coletiva do caminho percorrido até ali. "A gente fez a nossa parte, mas nem sempre quando você faz a sua parte as coisas acontecem", resume.
Agora, com Vicentina Pede Desculpas prestes a ser apresentado ao público internacional e com uma trajetória que inclui festivais importantes, o desejo é deixar que o filme encontre seu próprio caminho. "É torcer para essa caminhada ser longa e a gente chegar onde tiver que chegar com a melhor e maior dignidade possível e agradando ao público desse mundão que está por aí", afirma Rejane.
Quando estreia Vicentina Pede Desculpas?
Vicentina Pede Desculpas estreia em cinemas selecionados em 5 de novembro, e chega à Netflix em 20 de novembro.
Além de Rejane Faria, o elenco conta ainda com Flávio Bauraqui, Giovanna Heliodoro, Giovanni Venturini, Grace Passô, Karine Teles, Maíra Azevedo, Renato Novaes e Thalma de Freitas no elenco principal. Gabriel Martins assina a direção, o roteiro e a história original.