'Nunca pensei em me ver na tela de cinema', diz Zico sobre novo documentário

Ídolo relembra bastidores despretensiosos de filmagem iniciada sem ambição de cinema

4 mai 2026 - 12h11

Existe uma cena imaginária que o diretor João Wainer carrega na cabeça desde que começou a montar o documentário sobre Zico. Nela, um samurai morre no final do século 18 e renasce décadas depois em Quintino, bairro do subúrbio carioca, com uma missão específica: aprender futebol para levá-lo ao Japão. "Não botei isso no filme porque é uma maluquice da minha cabeça", admite Wainer, rindo, ao Estadão. "Mas me ajudou a entender esse cara."

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A teoria não está no filme, mas o espírito dela está em cada escolha de Zico, o Samurai de Quintino, em cartaz nos cinemas brasileiros. Dirigido por Wainer, o documentário quer convencer o espectador de que Zico é um dos maiores jogadores da história — sem que ninguém precise dizer isso em nenhum momento na tela.

Um acervo que ninguém sabia que existia

O ponto de partida do filme foi uma surpresa até para a equipe de produção. Quando chegaram à casa de Zico pela primeira vez, encontraram um acervo pessoal de proporções inesperadas: caixas com fitas VHS, filmes Super-8, troféus, medalhas, camisas — entre elas a do Mundial de 1981 —, um caderno com anotações detalhadas de gols ao longo da carreira, câmeras e objetos acumulados ao longo de décadas. Tudo guardado, catalogado e organizado principalmente por Sandra, mulher de Zico, que Wainer descreve como "fundamental na história em vários aspectos".

Zico no Japão durante gravação de documentário
Zico no Japão durante gravação de documentário
Foto: Pedro Curi/Divulgação / Estadão

"Eles não tinham a menor ideia do que existia dentro daquilo", conta o próprio Zico, ao Estadão, sobre a reação da equipe ao material. "Falei: levam tudo e vocês veem e façam o que quiserem."

A produção contratou museólogos para catalogar cada peça. A sala que aparece no filme — um ambiente de lounge onde Zico recebe amigos como Júnior, Carpegiani, Parreira e Ronaldo Fenômeno — foi montada especialmente para as filmagens, mas tudo que está nela é do acervo pessoal do jogador. "A gente deixou armadilhas em cada mesa", explica Wainer. "Eu sabia que se o Carpegiani visse aquela camisa, ele ia falar sobre aquilo. A gente foi criando situações para que a narrativa fosse mais fluida."

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A imagem que você nunca viu do Zico nos anos 1980

Se o acervo pessoal já era uma surpresa, o tratamento dado às imagens de arquivo é o que mais chama atenção na experiência de ver o filme numa sala de cinema. A produção usou tecnologia de upscale para transformar o material em SD da Globo — aquela imagem padrão granulada dos anos 1980 e 90 — em 4K. O resultado é desconcertante: você vê Zico batendo falta no Maracanã como se a câmera tivesse sido posicionada lá semana passada.

"A gente consegue ver o material da Globo de um jeito que acho que ele não foi visto ainda numa tela grande", diz Wainer.

Mas a grande sacada técnica do filme pode ser o som. Quando o designer de som Edu, da AmpliMix, foi trabalhar com o áudio das imagens de arquivo, encontrou o sinal em mono — sem muito o que aproveitar. A solução foi convocar a torcida da Raça Rubro-Negra para um estúdio e regravar os instrumentos e cantos da época em canais separados, permitindo que o som fosse distribuído pelo cinema de forma imersiva. O bumbo vem de um lado, o grito de outro, a cuíca de outro. "Eu que não sou flamenguista me vi emocionado, empolgado", diz o diretor.

Zico não sabia que estava fazendo um filme de cinema

As primeiras conversas sobre o projeto aconteceram há seis anos. Veio a pandemia, contratos venceram, recomeçaram. Quando as filmagens finalmente começaram, em 2023 — ano em que Zico completou 70 anos —, ninguém na frente da câmera estava pensando em tela grande.

"Nunca pensei em me ver na tela de cinema", conta Zico. "A gente estava filmando ali, se divertindo, curtindo. Se você botar na cabeça que vai aparecer em algum lugar, pira. Então essa acho que foi a grande diferença."

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O resultado é visível: as conversas na sala com o acervo parecem exatamente o que são — amigos revisitando uma história juntos. Ninguém está dando depoimento formal para a posteridade. Estão batendo papo.

Para Wainer, essa era exatamente a intenção. "A gente quis tirar as 'cabeças falantes', coisa da qual cada vez mais fugido", diz, se referindo à técnica de entrevistas com a pessoa falando pra câmera. "A conclusão de que o Zico é foda tem que ser do espectador. Não de alguém dizendo que ele é incrível", diz.

Zico no documentário 'Zico, Samurai de Quintino'
Foto: Peter Wrede/Globo Filmes/Divulgação / Estadão

Narrativa não linear e o pênalti de 1986

O filme abre mão da cronologia quando necessário — e Wainer é bastante direto sobre o motivo. Num documentário convencional sobre uma carreira vitoriosa, o pênalti perdido na Copa de 1986 seria um episódio entre outros. Aqui, ele é tratado como um ponto baixo dramático, seguido deliberadamente pela chegada ao Japão como uma virada narrativa. Não porque foi assim que aconteceu no tempo, mas porque o arco emocional pede isso.

"É muito mais importante o flow do que ficar respeitando a cronologia e fazendo um filme muito didático", diz o diretor. "A gente tem que provocar a conclusão do espectador, não entregar o que ele quer."

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É nessa passagem — a do Japão — que a teoria do samurai ganha mais sentido mesmo sem ser verbalizada. Zico foi para o Urawas Red Diamonds (ex-Sumitomo) em 1991, quando a J-League ainda nem existia, para jogar num campo que o próprio Wainer descreve como "zoado". Mas o jogador estava feliz. "Lá ninguém atrasa, todo mundo pensa no coletivo primeiro", diz o diretor. "Por pior que fosse a estrutura, ele estava num lugar onde as pessoas respeitam o que ele respeita."

Por que não tem mais cinema de futebol no Brasil?

Com um filme que funciona tão bem na telona, difícil não pensar como o futebol não aparece mais no cinema, seja na ficção ou documentário. Zico tem uma resposta direta para isso, e ela extrapola o futebol. "Eu lamento muito pelo Brasil, por essa falta de memória", diz. "O Brasil é campeão do mundo de vôlei, de basquete, natação, judô. Tantos brasileiros maravilhosos. Mas hoje o pessoal quer polêmica, quer confusão."

Para o jogador, a consequência é concreta: gerações inteiras sem acesso visual à história do esporte brasileiro. "Você vai ter que consultar em livro situações que poderiam ser evolução do futebol. Você não tem. Ninguém divulga nada", diz o ídolo.

Wainer não discorda, mas vê o problema também no formato. O documentário esportivo brasileiro tendeu ao documental simples, uma linguagem mais próxima da reportagem jornalística de TV do que do cinema. "O documentário moderno precisa ter antagonista, protagonista, ponto baixo. Você tem que criar algo que vá, de alguma forma, além", diz.

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