Situado no Brasil, Bola pra Cima, nova comédia do Prime Video, abusa de clichês xenofóbicos do povo brasileiro. Ainda assim, o longa está longe de ser a primeira produção a levar o País às telas de forma ofensiva e, muitas vezes, ignorante.
Ao longo dos anos, Hollywood já produziu uma série de títulos usando o Brasil como cenário para a TV e para os cinemas, quase sempre com um reducionismo alarmante que, convenhamos, diz mais sobre seus criadores que sobre a cultura nacional.
Das aventuras de James Bond a erros geográficos graves cometidos por uma das maiores animações da TV norte-americana, confira seis produções que retratam pessimamente o Brasil:
Feitiço do Rio (1984)
- Direção: Stanley Donen
- Onde assistir: disponível para venda e aluguel digital na Claro TV+
Feitiço do Rio traz Michael Caine (Tenet) e Joseph Bologna (Forbidden Tango) como dois amigos que vêm ao Rio de Janeiro passar férias com as filhas. O longa de Stanley Donen se tornou precursor dos piores estereótipos brasileiros em Hollywood, retratando o povo como grandes libertinos que festejam nus o dia inteiro, abusam de drogas lícitas e ilícitas e encorajam os protagonistas a seguirem seus desejos carnais mais problemáticos. Não bastasse, o filme também conta com um retrato extremamente jocoso do candomblé, além de fazer escárnio das influências da crença no imaginário nacional.
Os Simpsons - 'Culpe a Lisa' (2002)
- Onde assistir: Disney+
Quinto episódio da 13ª temporada de Os Simpsons, Culpe a Lisa traz a família amarela criada por Matt Groening ao Brasil. Na história, a filha do meio de Homer se corresponde com Ronaldo, um garoto carioca, mas, quando ele não responde por muito tempo, a família vai ao Rio de Janeiro para encontrá-lo. Se o título do capítulo faz referência ao nome original de Feitiço do Rio (Blame It on Rio), o restante do episódio é uma grande reprodução de toda a xenofobia mostrada no longa de Donen. Além da fixação pelo carnaval — que aqui se estende praticamente pelo ano inteiro —, a animação transforma a capital carioca num fosso cheio de ratos (coloridos junto às favelas para atrair turistas). Obviamente, a falta de conhecimento geográfico dos norte-americanos também marca presença, com a família Simpson transitando entre o Rio e a Amazônia como se os dois fossem colados.
A ira dos brasileiros com o episódio foi tanta que a Secretaria do Turismo do Rio chegou a ameaçar a emissora Fox de processo, o que só não aconteceu pelos altos custos para entrar com a ação nos tribunais norte-americanos.
12 anos depois, no entanto, o desenho teve uma leve redenção quando Homer foi selecionado para arbitrar a final da Copa do Mundo de 2014, sediada no Brasil. No episódio, o patriarca Simpson retorna ao Rio de Janeiro e tem uma cena tocante em que diz amar o País.
007 Contra o Foguete da Morte (1979)
- Direção: Lewis Gilbert
- Onde assistir: disponível para venda e aluguel digital na Claro TV+, Apple TV, Prime Video e YouTube
O grande pecado de 007 Contra o Foguete da Morte em seu retrato do Brasil não é necessariamente a forma como mostra o povo brasileiro, mas sim a clara ignorância sobre a vastidão territorial do País. Sim, o James Bond de Roger Moore cruza com mares de mulheres de biquíni e avista alguns blocos de Carnaval, mas é novamente o desconhecimento geográfico que chamou a atenção do público nacional. Assim como em Os Simpsons, o filme parece acreditar que o quinto maior país do mundo em quilómetros quadrados é, na realidade, um pequeno bloco florestal, com 007 e o vilão Jaws (Richard Kiel) começando uma batalha no Bondinho Pão de Açúcar e, repentinamente, indo parar nas Cataratas do Iguaçu. Na realidade, as duas atrações ficam a mais de 1,2 mil km de distância uma da outra.
Turistas (2006)
- Direção: John Stockwell
- Onde assistir: não disponível no streaming nem em plataformas digitais
Terror de John Stockwell estrelado por Josh Duhamel e Olivia Wilde, Turistas foi alvo de polêmicas no Brasil desde seu lançamento. Além de mostrar o País como um berço para a violência, onde estrangeiros são enganados pelo cenário paradisíaco para alimentar o tráfico de órgãos, a produção foi criticada pelo trio de atores brasileiros Marcos Rangel, Diego Santiago e Miguel Costa.
Em postagem no extinto Orkut em 2007, Rangel revelou arrependimento por ter trabalhado em Turistas. Acreditando que o filme lhe traria visibilidade, ele aceitou um salário baixíssimo para trabalhar 12 horas por dia ao longo de três meses na produção. Além disso, seu personagem, Ranan, lhe foi originalmente descrito como um salva-vidas, mas as coisas mudaram quando o contrato foi assinado e ele descobriu que viveria um torturador e assassino, capanga de um médico que sequestra turistas para roubar seus órgãos.
"Reconheço que, por falta de tempo, avaliação, sensibilidade e dinheiro, aceitei o desafio sem poder recuar a uma assinatura na mesa dos americanos, me colocando a risco de processos, caso desistisse da parada. Meu Deus! Só me coube chorar desesperadamente", escreveu o ator após o lançamento do longa nos Estados Unidos.
Velozes e Furiosos 5: Operação Rio (2011)
- Direção: Justin Lin
- Onde assistir: disponível no Globoplay
Por incrível que pareça, Velozes e Furiosos 5: Operação Rio, vindo de uma franquia conhecida por exageros e clichês, é o menos ofensivo entre os live-actions listados neste texto. Afinal, a cultura latina e suburbana está no DNA do universo cinematográfico protagonizado por Vin Diesel. Mesmo assim, o trabalho de Justin Lin não chega sem seus pecados.
O primeiro é o uso da repetida trama de procurados nos EUA que encontram um paraíso nas favelas do Brasil, algo que também apareceu em outra grande franquia com O Incrível Hulk. Com Dom Toretto (Diesel) e companhia foragidos, eles decidem que o Rio de Janeiro seria o lugar perfeito para se esconderem do agente Hobbs (Dwayne "The Rock" Johnson). Quando descobrem um esquema de corrupção envolvendo um político de alto cargo na cidade, eles decidem assaltá-lo com um plano mirabolante. Velozes e Furiosos 5 também demonstra total desconhecimento da infraestrutura nacional, inventando uma ferrovia transnacional de alta velocidade no coração do País.
A paixão da franquia pela latinidade, pelo menos, permite um retrato mais carinhoso do povo brasileiro. Sim, a corrupção e a violência policial estão presentes, mas Velozes e Furiosos 5 ao menos tenta mostrar o carinho e a ternura dos brasileiros, além de deixar de lado qualquer glamourização das favelas para mostrá-las como um sintoma da diferença social que assola o País.