Referência da crítica de cinema no Brasil, Luiz Zanin Oricchio lança a obra "Cinema em Palavras" na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O livro compila 210 resenhas publicadas em 35 anos de atuação no Estadão, servindo como documento histórico da sétima arte nacional e estrangeira. Conhecido pelo estilo direto e honesto, que já lhe rendeu até ameaças de morte, o jornalista celebra clássicos, destaca a força da produção brasileira e alerta para os impactos da IA na indústria cinematográfica.
Luiz Zanin se define como um "devoto" de Graciliano Ramos. Em seus textos, sempre buscou a simplicidade, mas, a exemplo do autor de Vidas Secas, sabe que uma prosa sem excessos não é sinônimo de falta de complexidade.
Referência da crítica cinematográfica no Brasil, o jornalista e psicanalista publicou cerca de 4 mil avaliações de filmes ao longo de 35 anos de atividades no Estadão. Agora, reúne alguns desses textos em seu novo livro, Cinema em Palavras, com lançamento nesta quarta-feira, 21, dentro da programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
A obra propõe ao leitor um mergulho ao longo de 210 escritos que hoje podem ser lidos como documentos históricos. Não foram refeitos ou embelezados. No máximo, o autor mexeu "numa ou outra vírgula teimosa, num erro factual vexatório ou alguma insidiosa falha de concordância". Fora isso, são reproduzidos sem alterações.
O cardápio é variado. O cinema brasileiro tem maior destaque, passando pelo Cinema Novo até chegar aos recentes Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. No plano internacional, há espaço para Fellini, Kurosawa, Kubrick, entre outros.
O que é a crítica de cinema?
Mas, afinal, o que é a crítica de cinema? "Alguns dizem que a crítica é a arte de amar. Outros afirmam que é a forma de você prolongar, através do texto, o prazer do espectador pelo filme", diz Zanin. "Ao meu ver, ela tem a missão, meio impossível, de traduzir em palavras a experiência cinematográfica."
"Sou um crítico de corte jornalístico. A principal característica que isso implica é que, em geral, trabalho com a novidade, com filmes que estão sendo lançados. Me proponho a fazer um texto sedutor para que os leitores do jornal se interessem pelo filme sobre o qual estou escrevendo", afirma ele, que foi o primeiro presidente da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e autor de outros livros sobre o tema, como A Arte da Crítica, Fome de Bola - Futebol e Cinema no Brasil e Cinema de Novo - Um Balanço Crítico da Retomada.
O jornalista selecionou os textos do novo trabalho de acordo com seu gosto e segundo a importância dos filmes, contemplando diferentes décadas e mostrando a evolução da sétima arte dentro e fora do País. Ele traça um paralelo entre Terra em Transe, de Glauber Rocha, seu filme brasileiro favorito de todos os tempos, e O Agente Secreto, o qual já assistiu três vezes e pretende rever.
'O Brasil é um abismo do qual nascem grandes obras'
Para o crítico, o Brasil "é um abismo do qual nascem grandes obras", capazes de oferecer respostas estéticas a momentos de crise profunda. Ele vê no clássico de Glauber Rocha uma tentativa de traduzir as contradições políticas e culturais do País após o golpe militar de 1964. Já o filme de Kleber Mendonça Filho indicado ao Oscar, segundo ele, expressa a perplexidade diante do retorno de forças conservadoras que muitos julgavam superadas.
"O cinema brasileiro vive um momento de muita riqueza e muita produção, mas acho que nenhum outro cineasta conseguiu traduzir com tanta precisão o momento de transe vivido pelo Brasil como o Kleber Mendonça em O Agente Secreto", avalia.
No âmbito estrangeiro, elenca Oito e Meio, de Fellini, como seu predileto, sem esquecer da importância de Cidadão Kane, de Orson Welles, do qual "todo o melhor cinema moderno é seu devedor".
"São clássicos. E o clássico é aquele que nunca deixa de transmitir suas mensagens, está sempre atual. As gerações vão passando, e as novas gerações sempre têm uma nova leitura a respeito deles", comenta.
Por outro lado, acredita que o crítico tem o dever de ser honesto, mesmo quando precisa avaliar produções que o desagradam. "Se acho que o filme não tem qualidade, não tem novidade, é repetitivo, malfeito ou apelativo, tenho que escrever isso", admite.
O escritor lembra, por exemplo, de uma crítica negativa sobre uma das versões da franquia Transformers, na qual questionou se a produção, de tão ruim, poderia ser considerada cinema. "Os filmes de grande apelo popular têm fã-clubes que não gostam que você fale mal deles. Nesse caso, recebi muitos ataques no meu blog e até ameaça de morte! Eu falar mal de um filme às vezes pode soar, para algumas pessoas, como uma ofensa pessoal", conta.
Zanin afirma ter um gosto eclético, mas não esconde a aversão ao cinema ostensivamente industrial, concebido para provocar reações calculadas no espectador, e externa preocupações para o futuro.
"Existem filmes feitos para agradar o público, para fazer você chorar ou rir nos momentos certos. E com a chegada da inteligência artificial há a possibilidade de fazer isso perfeitamente, de um modo muito fácil. Acho que este será o grande desafio do cinema nos próximos anos", finaliza.
Cinema em Palavras - 35 Anos de Crítica no Estadão
- Autor: Luiz Zanin Oricchio
- Editora: Letramento (434 págs.; R$ 119)
- Lançamento em SP: 21/10, às 17h, no Solar Fábio Prado (Av. Brig. Faria Lima, 2705 - Jardim Paulistano)