Flávio Bolsonaro se reaproxima da Faria Lima após caso Vorcaro, mas enfrenta resistências

Resiliência nas pesquisas impulsiona reaproximação com empresários, que ainda cobram detalhes do plano econômico e mantêm reservas sobre riscos institucionais de um eventual governo

24 set 2026 - 05h42
Resumo
Flávio Bolsonaro se reaproxima da Faria Lima após superar desgastes do caso Vorcaro e se consolidar como o principal rival de Lula nas pesquisas. O mercado financeiro adota uma postura pragmática diante de sua viabilidade eleitoral, embora mantenha ceticismo sobre seu domínio da pauta econômica e receios de tensões institucionais. Para conter as resistências, a campanha intensifica encontros com empresários, reforça o papel de Daniella Marques e busca sinalizar moderação e ajuste fiscal.

Flávio Bolsonaro (PL) voltou a encontrar espaço de interlocução entre empresários e investidores da Faria Lima depois de um período de afastamento e desconfiança em relação à sua candidatura. A reaproximação ocorre num momento em que o presidenciável demonstra resiliência nas pesquisas e se consolida como o principal nome da oposição com condições de derrotar Luiz Inácio Lula da Silva (PT), embora sua agenda econômica ainda seja recebida com ceticismo e um eventual governo desperte receios sobre instabilidade institucional.

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O desgaste se aprofundou com a divulgação de áudios em que Flávio pediu a Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, a liberação de recursos para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

Desgaste entre o candidato e empresários se aprofundou com a divulgação de áudios de Flávio para Vorcaro, mas posição nas pesquisas incentiva reaproximação
Desgaste entre o candidato e empresários se aprofundou com a divulgação de áudios de Flávio para Vorcaro, mas posição nas pesquisas incentiva reaproximação
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

Interlocutores ouvidos pelo Estadão relatam que o episódio ampliou a desconfiança em relação ao senador e alimentou a expectativa de que sua candidatura pudesse perder força, abrindo espaço para nomes como Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e, mais recentemente, Augusto Cury (Avante). A resistência a Flávio, porém, já vinha de antes, quando Tarcísio de Freitas (Republicanos) era visto por parte da Faria Lima como uma alternativa mais palatável e competitiva a Lula.

A aposta no enfraquecimento de Flávio não se confirmou. O senador atravessou o desgaste sem desidratar nas pesquisas e continua competitivo contra o petista. No levantamento mais recente do Datafolha, os dois aparecem em empate técnico num eventual segundo turno. Ao mesmo tempo, a campanha ampliou a presença de Daniella Marques, braço direito da coordenação econômica, em reuniões e debates com empresários para tentar reduzir as dúvidas sobre o programa do candidato.

A própria campanha passou a tratar o episódio como um desgaste superado. Investidores que estiveram com Flávio nos últimos meses relatam que, quando questionado sobre novos desdobramentos de Dark Horse, o presidenciável tem classificado o assunto como "página virada" e demonstrado confiança de que não surgirão novas revelações capazes de atingir sua candidatura. Entre interlocutores do mercado, a sobrevivência política ao episódio reduziu a expectativa de que outro nome da oposição pudesse ocupar seu espaço.

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Os sinais da mudança de temperatura ficaram mais visíveis no fim de agosto. Na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Flávio foi aplaudido de pé e, ao fim da apresentação, enfrentou uma fila de convidados interessados em tirar fotos. Três empresários que acompanharam o encontro disseram ao Estadão que a percepção é de que o senador se tornou o único nome da oposição com condições reais de derrotar Lula e conduzir uma política econômica mais alinhada ao mercado.

No mesmo dia, em outro evento reservado, participantes relataram ambiente semelhante, com maior disposição para ouvir um candidato que, semanas antes, era tratado com mais desconfiança, embora ainda considerassem "genéricas" as propostas apresentadas por Flávio.

É justamente sobre esse ponto que a campanha tem buscado avançar. Na Fiesp, Flávio falou em responsabilidade fiscal, redução de despesas e queda dos juros de longo prazo. Em conversas posteriores com empresários, mencionou ajustes nas contas públicas equivalente a até 2% do Produto Interno Bruto (PIB) e a revisão do atual arcabouço fiscal, conjunto de regras que limita o crescimento dos gastos do governo e estabelece metas para as contas públicas.

A maior abertura ao candidato, contudo, ainda está longe de significar entusiasmo. Empresários e outros interlocutores do mercado descrevem uma aproximação mais pragmática do que fruto de uma adesão efetiva. Segundo integrantes desse grupo ouvidos pelo Estadão, o ambiente está distante da euforia que marcou os encontros da Faria Lima com Jair Bolsonaro em 2018, quando Paulo Guedes funcionava como principal fiador econômico da candidatura.

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Um dos exemplos desse clima mais contido ocorreu em um jantar no apartamento de Marcelo Kayath, ex-presidente do Credit Suisse no Brasil. Flávio foi ouvido por executivos como José Galló, ex-CEO da Renner, Fabio Carvalho, CEO da Abril, e Pedro Parente, ex-presidente da Petrobras, mas deixou dúvidas sobre seu domínio da agenda econômica. Duas pessoas presentes disseram reservadamente que Daniella Marques assumiu boa parte das explicações sobre as medidas estudadas pela campanha.

Nos encontros fechados, o senador também tem procurado apresentar uma face mais moderada de sua candidatura. Diante de empresários, afirmou que pretende pacificar as relações entre Supremo Tribunal Federal, Congresso Nacional e Executivo caso seja eleito. A sinalização busca responder a uma das principais resistências ainda presentes nesse grupo: o receio de que um eventual governo Flávio volte a tensionar a relação entre os Poderes numa tentativa de anistiar Jair Bolsonaro e os condenados pelos atos de 8 de Janeiro.

O discurso contrasta com a comunicação eleitoral da campanha, comandada por Duda Lima e voltada ao público mais amplo, na qual Flávio busca emular símbolos, bandeiras e elementos da comunicação de Jair Bolsonaro. Entre eles está o confronto com o Judiciário, mantido como instrumento de mobilização de sua base.

Na campanha, porém, a leitura é de avanço. Interlocutores de Flávio consideram a disposição de banqueiros e empresários para voltar a sentar à mesa com o candidato uma sinalização importante. A avaliação interna é que o mercado não decide uma eleição, mas a reabertura desses canais indica que o senador recuperou espaço em um setor que chegou a apostar em seu enfraquecimento.

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Nas próximas semanas, até o primeiro turno, a campanha pretende intensificar esse tipo de encontro para ampliar a interlocução com empresários e reduzir as resistências que ainda cercam a candidatura.

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