Os filmes sobre tubarões estão tão esgotados de possibilidades que já não basta mais uma única ameaça. Agora, é preciso duplicá-la. Isso vai desde o humor plástico dos tubarões no furacão de Sharknado, passando pela luta solitária de Blake Lively em Águas Rasas, até chegar a Águas Mortais, longa-metragem que estreia nesta quinta-feira, 23, e que mostra um ataque de tubarões contra os passageiros de um voo acidentado.
Dirigido pelo finlandês Renny Harlin, mestre da ação e diretor de filmes como Do Fundo do Mar e Duro de Matar 2, o longa-metragem não tem qualquer complexidade em sua história. Um voo de Los Angeles para a China foge do previsto quando uma bateria externa explode no bagageiro. O piloto (Ben Kingsley) e o copiloto (Aaron Eckhart) tentam salvar o que dá, mas obviamente o avião cai no mar — um mar, aliás, infestado de tubarões ferozes.
Águas Mortais se divide, assim, em dois momentos bem distintos. No começo, é um filme de tragédia com a cara dos anos 1990. A sensação é que Stallone apareceria ali a qualquer momento para salvar o dia. Toda a sequência da queda do avião é surpreendentemente bem dirigida e é difícil não sentir um frio na barriga ao pensar nessa possibilidade na vida real. Méritos de Harlin, que parece ter se dedicado ao máximo para dar esse ar realista a uma sequência que poderia facilmente descambar para o fantasioso.
Destaque também para o bom desempenho da dupla Kingsley (Gandhi) e Eckhart (Batman: O Cavaleiro das Trevas). Ainda que cause certo estranhamento ver os dois em um filme assim, ambos controlam bem as atuações e ajudam a elevar a primeira metade do longa.
Os tubarões de sempre
O problema surge, porém, quando a trama do avião se esgota. A partir daí, o filme se torna unicamente uma história de sobrevivência contra tubarões, sem qualquer novidade. São pessoas à deriva no mar, agarradas aos restos do avião, tentando escapar de mordidas mortais. Torna-se, assim, mais um título que segue o caminho de Desespero Profundo, longa de 2024 que também mostra um grupo de pessoas preso no fundo do mar e ameaçado por tubarões.
Depois do bom começo, Águas Mortais vira mais do mesmo. É repetitivo, é batido, é vazio. Parece outro filme em termos de ritmo, direção e energia. Até os efeitos especiais, tão bem aproveitados na queda do avião, passam a lembrar uma produção B sem investimento. Os tubarões são visivelmente digitais e a ameaça à vida dos personagens, que deveria soar urgente, simplesmente se dissipa. Vira um filme sem rumo e o clima dos anos 1990, antes impregnado na história, passa a aparecer da pior maneira possível, com saídas fáceis, roteiro preguiçoso e efeitos ruins.
Ainda assim, vale notar que Harlin acertou em algo raro: depois de uma sequência de fracassos em filmes de catástrofe nos últimos anos, o diretor aponta um caminho do que pode funcionar — menos tubarões, claro, e também menos fim do mundo e menos desastres colossais. O cinema de catástrofe precisa de mais drama humano e tramas menos desgastadas. Tivesse ele percebido isso a tempo, talvez Águas Mortais pudesse ser uma das surpresas de 2026. Do jeito que ficou, serve ao menos como uma viagem no tempo para o cinema feito nos anos 1990.