Um jovem procurador assume um cargo numa cidadezinha soviética em 1937. Descobre que seu antecessor foi preso e torturado. Tenta investigar. As escadas não levam a lugar nenhum, os elevadores não param, a burocracia vira labirinto. O que parece passado distante é, na verdade, espelho do agora — e o cineasta ucraniano Sergei Loznitsa sabe disso. Dois Procuradores, em cartaz nos cinemas, mergulha no Grande Expurgo stalinista com os olhos firmemente plantados no presente.
Vencedora do Prix François Chalais em Cannes, prêmio que celebra filmes comprometidos com a verdade jornalística, e exibida em festivais como Toronto, Nova York e Sydney, a produção marca o retorno de Loznitsa à ficção com uma obra que mistura Kafka e Dostoiévski para dissecar os mecanismos do poder autoritário.
A trama acompanha Kornev (Aleksandr Kuznetsov), o procurador que se vê perdido em um sistema onde a desconfiança contamina cada gesto. Aleksandr Filippenko, ator russo que interpreta o procurador preso e também o Capitão Kopeikin, não tem dúvidas sobre o tema central. "São as forças obscuras e destrutivas do poder que devoram tudo em seu caminho. Trata-se de um sistema originado na KGB (agência de inteligência da União Soviética), cujos oficiais foram os 'mentores' dos atuais ocupantes do Kremlin. O diretor aponta um espelho para a KGB/FSB (sucessora da KGB), mostrando que não estamos diante do passado, mas de um presente vivo", diz ele, em entrevista ao Estadão.
Filippenko, que tem em sua própria família vítimas fuziladas e sobreviventes do gulag, traz uma camada de autenticidade dolorosa ao filme. Sua preparação não foi apenas técnica, mas visceral: anos de apoio ao Memorial (organização russa de direitos humanos dissolvida pelo governo Putin), trabalho com o Centro Sakharov e leituras de Alexander Soljenítsin (1918-2008), Nikolai Demidov (1884-1953) e outros escritores que documentaram o horror soviético. "Isso nem chega a ser um diálogo: é uma declaração direta sobre o estado atual do poder na Rússia", afirma.
Confira, abaixo, a entrevista com Filippenko, feita por e-mail. As perguntas foram enviadas em inglês, respondidas em russo e traduzidas por um tradutor profissional.
O filme articula uma reflexão histórica e política sobre o período soviético mas, ao mesmo tempo, trata de um forte drama moral vivido por seus personagens. Na sua opinião, qual é o tema central que move o filme?
Para mim, o tema central são as forças obscuras e destrutivas do poder que devoram tudo em seu caminho. Trata-se de um sistema originado na KGB, cujos oficiais foram os "mentores", heróis e anciãos dos atuais ocupantes do Kremlin. É justamente com os herdeiros desse sistema que hoje os Estados Unidos e a Europa tentam negociar a paz na Ucrânia. O diretor parece apontar um espelho de aumento para a KGB/FSB e o Kremlin, mostrando que não estamos diante do passado, mas de um presente vivo. E, ao mesmo tempo, é importante lembrar: nunca houve um Tribunal de Nuremberg (que julgou criminosos nazistas) para essas estruturas e para seus crimes. Esse mal insensato continua se reproduzindo de geração em geração.
No filme, o senhor interpreta dois personagens com funções e posições muito diferentes dentro do sistema retratado. Como foi o processo de construção dessas duas interpretações distintas e de que maneira elas dialogam entre si no contexto histórico e político do filme?
O primeiro personagem é um idealista. Um homem que acreditava genuinamente na possibilidade de construir um "novo mundo" e que, por fim, se depara com sua própria criação em toda a sua crueldade. Nada se constrói sobre derramamento de sangue — só se pode ser esmagado pelo próprio poder que se apoiou. O segundo é o herói de (Nikolai) Gogol, o Capitão Kopeikin. E aqui surge um ponto histórico importante: na Rússia, tudo pode mudar em um dia — regimes, slogans, símbolos — e, no entanto, nada muda por séculos. Essas duas imagens parecem dialogar através do tempo: uma fé ingênua no sistema e a sua brutalidade eterna.
Considerando o contexto histórico do Grande Expurgo de 1937, como foi o processo de preparação para o seu papel? Foi realizada alguma pesquisa específica sobre as vítimas da repressão soviética ou sobre o funcionamento da NKVD para conferir autenticidade à interpretação?
Para mim, este não é um tema abstrato. Na minha família há pessoas que foram fuziladas e outras que passaram pelo gulag. Desde o início da existência do Memorial (organização russa de direitos humanos), apoiei a organização, participei de atos com eles e trabalhei com o Centro Sakharov, com o Museu da História do Gulag; apresentei-me no antigo campo Perm-36 — ainda antes de o poder atual se apropriar dele e transformá-lo, na prática, em um museu da KGB. Tenho no meu histórico inúmeras iniciativas beneficentes de diferentes organizações dedicadas ao estudo da memória histórica. Durante muitos anos, encenei um monólogo baseado na obra de Soljenítsin e fui amigo de Natalya Dmitrievna Soljenítsina (viúva do escritor). Durante a fase de preparação para o papel, reli Demidov, a série 'Cartas dos Campos' do Museu do Gulag, Yuri Dombrovsky (1909-1978), Lidiya Chukovskaya (1907-1996) e muitos outros. Então, pode-se dizer que não foi "preparação para um papel" no sentido estrito, pois faz parte da minha vida e da minha experiência pessoal.
Em termos de colaboração com o elenco, como foi trabalhar com Aleksandr Kuznetsov, que interpreta o jovem procurador? Essa interação ajudou a reforçar a atmosfera de paranoia e o impacto da narrativa?
Trabalhar com Aleksandr Kuznetsov foi uma grande alegria. Ele é uma combinação rara de empenho, disciplina interior e atenção aos detalhes. Estava sempre perfeitamente preparado, mas ao mesmo tempo aberto ao diálogo, fazia perguntas, e era justamente nesse diálogo com o diretor que as cenas nasciam. Uma alegria à parte (ainda que não no set, mas fora dele) foram os encontros com meu amigo Anatôli Bieli. Trata-se de um ator extraordinário, que ainda tem muito a dizer e a oferecer ao teatro e ao cinema mundial.
O filme pode ser lido como um diálogo com o presente, sobretudo na maneira como ele revela os mecanismos institucionais do poder. O senhor concorda com essa leitura? E que tipo de reflexão sobre o mundo de hoje esse filme pode provocar no espectador?
Concordo plenamente. Isso nem chega a ser um diálogo: é uma declaração direta sobre o estado atual do poder na Rússia. Olhem para aqueles que estão hoje nas prisões. Lembrem-se da brilhante poeta e diretora Zhenya Berkovich, presa por causa de um espetáculo. Do jovem cinegrafista Serguei Karelin, preso por ter segurado uma câmera e filmado a realidade em um lugar onde o Estado não gostaria que ela fosse filmada. Das sentenças absurdas, proferidas à revelia, contra o excelente diretor Ivan Vyrypaev, contra o escritor extraordinário Boris Akunin… A lista poderia continuar por muito tempo. Há uma frase notável do escritor de Odessa Mikhail Zhvanetski (1934-2020): "o poder soviético não se enganava quanto aos talentos: eles ou prosperavam, ou eram presos". Eu a reformularia assim: "o poder russo não se engana quanto aos talentos — eles ou são expulsos do país, ou estão na prisão".
Considerando o debate cada vez mais ambíguo sobre o legado de Stalin na Rússia, qual é o papel de uma obra como esta na construção da memória histórica?
O mais importante é alcançar um julgamento verdadeiro sobre o sistema. Um novo Nuremberg é necessário não apenas para os crimes do Terror Vermelho (campanha de repressão feita pelos bolcheviques após a chegada ao poder) e do Grande Terror (expurgo promovido na era Stalin), mas para toda a máquina repressiva soviética. Os atuais herdeiros da KGB reescrevem a história de forma metódica. Por isso, a nossa tarefa é não permitir que ela seja esquecida. Não permitir que os nomes das vítimas sejam apagados, nem que desapareça a memória de como as acusações eram fabricadas e de como destinos humanos eram destruídos.
Gostaria de perguntar sobre a recepção que o senhor tem observado ao filme. Como avalia a recepção internacional? E, mesmo sem exibição oficial na Rússia, como o senhor gostaria que o filme fosse recebido pelo público russo hoje?
O que poderia ser mais incrível do que uma estreia no Festival de Cannes? É uma alegria e um motivo de orgulho! E, ainda assim, é fundamental que esse filme seja visto também na Rússia. Sim, trata-se de um cinema autoral, especial, mas falar sobre as repressões é necessário, de novo e de novo. O fenômeno da "terceira geração" é bem estudado no contexto do Holocausto: muitas vezes, as próprias vítimas se calam, e a elaboração só chega aos netos ou até aos bisnetos. Na Rússia, esse processo de elaboração não teve tempo de acontecer. Os netos dos reprimidos de então voltam a ser reprimidos agora. É importante falar. Lembrar. Contar sobre os crimes. Fazer com que os nomes das vítimas e o absurdo das acusações não desapareçam da memória. E isso diz respeito não apenas à Rússia. Falar em voz alta, chamar as coisas pelo seu nome — é a nossa chance de continuarmos existindo como humanidade.