Com 'Muito Prazer', Jorge Furtado testa o que o algoritmo entende sobre o amor

Novo filme do diretor de 'O Homem que Copiava' e 'Saneamento Básico' mistura pornografia, tecnologia e humor para discutir o que ainda escapa às previsões

29 ago 2026 - 05h46
Resumo
Na comédia "Muito Prazer", Jorge Furtado explora o impacto dos algoritmos nas relações humanas e no desejo. A trama acompanha personagens endividados que reabrem um motel falido e gravam clientes às escondidas para vender vídeos a sites adultos. Sem sexo explícito e com classificação de 14 anos para dialogar com jovens sobre solidão e consumo digital, o longa opõe o analógico ao virtual ao retratar figuras à margem inventando formas inusitadas de sobrevivência financeira.

Foi assistindo a filme atrás de filme, sugestão atrás de sugestão, que Jorge Furtado começou a se irritar com os algoritmos. "Comecei a entender que tinha alguém, ou alguma coisa, sugerindo coisas para mim. Por exemplo, se você gostou desse filme, vai gostar desse. Eu dizia que não tem nada a ver uma coisa com a outra", conta o diretor, com seu humor característico, ao Estadão. Da irritação nasceu uma pergunta maior: se um sistema tenta prever o que vamos assistir ou comprar, será que também tentaria prever por quem vamos nos apaixonar? "Como é que isso vai ser em relação aos relacionamentos, ao amor, ao sexo? As pessoas se apaixonam pelos motivos mais imponderáveis. Achei que esse era um bom ponto de partida para uma comédia", diz.

Publicidade

Foi dessa pergunta que veio Muito Prazer, comédia que estreou nos cinemas nesta quinta-feira, 27. No filme, Rubem (Daniel de Oliveira), motorista de aplicativo afundado em dívidas, herda um motel em ruínas — o Pérola — e encontra por lá Grace (Luísa Arraes), ex-funcionária que nunca saiu do lugar mesmo depois que ele fechou as portas. Sem conseguir vender o imóvel e sem outra saída clara, os dois decidem reabri-lo. É quando entra Nalva (Samantha Jones), que entende tudo de internet e os ajuda a ter a ideia que muda o rumo da história: gravar os clientes do motel e vender os vídeos, com identidade protegida, para sites eróticos.

Como em outros filmes de Furtado, os personagens de Muito Prazer estão novamente à margem — do dinheiro, da moral, da ética, da sobrevivência. Também não é a primeira vez que o cineasta acompanha pessoas tentando resolver um aperto financeiro fabricando alguma coisa que não deveria existir.

Décadas antes de Rubem e Grace, o diretor já tinha colocado um jovem falsificando dinheiro para conquistar a mulher amada em O Homem que Copiava, enquanto moradores de uma cidade gaúcha inventaram um monstro para salvar a economia local em Saneamento Básico. Agora, o golpe é outro — vídeos íntimos gravados sem que os clientes saibam —, mas a lógica permanece: gente comum inventando maneiras de sobreviver e, no processo, revelando alguma coisa sobre o país ao redor.

"Demorei para dirigir uma nova comédia, mas senti que era o momento. Cinema diz muito sobre o momento, sobre o que estamos vivendo e observando. Senti que era a hora de voltar a dirigir uma história assim", diz Furtado. O filme também recupera um tipo de humor que o diretor diz procurar como espectador. "Meu gênero preferido de comédia é a comédia triste. Ela te entretém, certamente, mas te transforma também, te faz pensar um pouco em algumas outras coisas. Não é um filme para esquecer", explica.

Publicidade

O motel, enquanto isso, entrou na equação por um motivo quase afetivo. Furtado lembra dos estabelecimentos gaúchos com churrasqueira para os casais que passam o domingo por ali, mas o lugar funciona também como símbolo de uma época que ficou para trás: o esconderijo analógico de antigamente virou, no filme, um espaço tentando sobreviver em um mundo em que o desejo já tem curadoria digital. "São dois ambientes bem distintos no filme: o motel, analógico, e o ambiente digital. Os dois em conflito", explica.

Aliás, apesar do tema, Muito Prazer não tem uma única cena de sexo explícita — escolha que rendeu ao filme a classificação de 14 anos e que Furtado trata como conquista, não limitação. Ele queria que o filme também conversasse com adolescentes, justamente por enxergar no consumo de pornografia um assunto cercado de solidão e vergonha silenciosa. "Muita gente se sente muito solitária e, às vezes, estranha, porque está ali espiando aquela coisa e pensa: só eu faço isso, ninguém mais faz. E não: muita gente faz. São 21 milhões de entradas por dia no Brasil, 600 milhões por mês, só nos dois sites maiores", diz.

A classificação também era importante para levar o assunto às escolas. Furtado conta que uma sessão para professores da rede pública do Rio de Janeiro mostrou a ele que o filme poderia servir como ponto de partida para essa conversa. "Elas adoraram o filme para passar para os alunos, para poder conversar sobre esse tema, trazer esse tema para a conversa, não ficar escondido", conta.

No fundo, ele reconhece, sexo não é engraçado — por isso preferiu filmar a reação dos personagens à cena, e não a cena em si. "Sexo, o sexo mesmo, não é engraçado. Então, não seria uma comédia. Eu queria que a gente olhasse pelos atores vendo a cena, mas não a gente vendo a cena", afirma.

Publicidade

De olho na tecnologia

Essa desconfiança dos algoritmos também aparece na maneira como os atores enxergam o mundo em que seus personagens estão inseridos. Daniel de Oliveira, que já havia trabalhado com Furtado e se diz parte "daquela família" da Casa de Cinema de Porto Alegre, chama atenção para a necessidade de olhar criticamente para uma tecnologia que já molda o consumo de uma geração inteira. "Muitos jovens que já cresceram com isso, com a internet, às vezes nem pensam. A gente é macaco velho, tem uma coisa aí que esse algoritmo está mexendo com a gente, eles ficam induzindo a gente a assistir tal coisa. Tem empresas atrás disso. Então, não pode ficar muito inocente também", diz.

Luísa Arraes leva a discussão para um terreno mais íntimo. Para ela, o problema não está apenas no que os algoritmos nos fazem consumir, mas na possibilidade de começarem a interferir na própria formação dos desejos. "Se antes era questionável se a gente tem desejo mesmo, se existe algum desejo só nosso, hoje é pior ainda. Só se alguém viver sem internet, porque tudo tem um gancho. Os desejos e os sonhos são fabricados", diz.

É justamente esse conflito que aparece em Grace, personagem mais distante do celular e menos presa ao pensamento contemporâneo. Para Luísa, ela é "muito excêntrica, mas, ao mesmo tempo, muito aberta ao novo". "Ela é essa personagem à margem, e isso dá também uma liberdade para ela. Quando falam: 'Você não tem medo? Tudo que bota na internet é para sempre', ela fala: 'Mas isso sou eu, dane-se'. Então, isso dá uma liberdade para ela experimentar as coisas que quer".

Luísa vê justamente nessa distância da lógica digital a singularidade de Grace. "Ela não está tanto no celular, porque precisa ter um tempo para pensar as coisas dela, que são tão diferentes. Ela não é tão viciada no pensamento contemporâneo. Ela vai por outro viés", conta. É uma posição que ajuda a explicar por que Grace parece escapar das previsões que movimentam Muito Prazer: enquanto Rubem, Nalva e os clientes do motel entram em uma engrenagem que tenta transformar desejo em dados, ela permanece, de certa forma, fora do sistema.

Publicidade

Errar sozinho

Muito Prazer também marca a volta de Furtado a um roteiro autoral sem parceria de direção depois de dividir a cadeira com Yasmin Thayná e Ana Luiza Azevedo em Virgínia e Adelaide e Vai Dar Nada, respectivamente. "Esse filme era um texto meu, uma comédia que eu escrevi sozinho, e eu queria ter liberdade de errar sozinho. Quando está sozinho, você tem que ousar", diz.

Há uma ironia nisso: um diretor que partiu da obsessão dos algoritmos em prever o comportamento humano escolheu, para este filme, o caminho oposto — o de não saber exatamente onde ia chegar. E é essa mesma imprevisibilidade que ele parece curioso para encontrar na plateia.

Outra ironia está na relação do próprio Furtado com a tecnologia: apesar da desconfiança que alimenta o filme, ele diz gostar de explorar as ferramentas digitais e acompanha, inclusive, os comentários de seus filmes no Letterboxd. É ali que encontra interpretações que nunca imaginou. Sobre Saneamento Básico, já se deparou com espectadores que juravam que dois personagens eram irmãos, quando, para ele, sempre foram casados. Também descobriu que uma piada gaúcha sobre "vazio" simplesmente não funciona fora do Rio Grande do Sul: no resto do Brasil, o corte de carne é conhecido como fraldinha. "Você vai aprendendo coisas sobre o roteiro também. Então, você descobre muita coisa vendo os comentários e entendendo o que pode ter na internet por aí", diz.

Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se