Barretão: Da amizade com Glauber Rocha surgiu um convite ousado. O resultado foi uma revolução

O produtor Luiz Carlos Barreto começou como diretor de fotografia, foi dono de uma produtora e entendeu que seria preciso meter a mão na massa da política quando o vento mudou e o cinema brasileiro foi jogado às traças. Ele teve participação fundamental na fase da Retomada

22 jul 2026 - 12h54
(atualizado às 13h06)

Morreu hoje, aos 98 anos, Luiz Carlos Barreto, o mais conhecido produtor de cinema no Brasil, cuja carreira se estende dos tempos precursores do Cinema Novo à fase da Retomada, chegando aos nossos dias. Barretão, como o chamavam amigos e desafetos, marca toda uma época do nosso cinema.

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O diretor Luiz Carlos Barreto
O diretor Luiz Carlos Barreto
Foto: Junior Aragão/ Divulgação / Estadão

Nascido em 1928, em Sobral, no Ceará, veio jovem para o Rio de Janeiro, onde conseguiu emprego como fotógrafo da revista O Cruzeiro, de enorme circulação na época. Tinha alma de repórter. O acaso o levou ao cinema, quando conheceu Glauber Rocha, que vinha de dirigir seu primeiro longa, Barravento (1962).

Da amizade surgiu o convite ousado. Glauber o convenceu a fazer a fotografia de Vidas Secas, projeto de Nelson Pereira dos Santos de adaptação da obra de Graciliano Ramos. Em vão Barreto tentou convencer Glauber de que era fotógrafo de revista, não de cinema, e que as duas coisas são diferentes. Glauber sabia ser insistente, e Barreto aceitou a tarefa. O resultado foi uma revolução.

Luiz Carlos Barreto, aos 90 anos.
Foto: Fabio Motta/Estadão / Estadão

Barreto tirou os filtros das câmeras e decidiu, em parceria com Nelson, registrar a luz crua do sertão, aquela mesma sugerida pela prosa seca de Graciliano ao descrever a saga de uma família de retirantes em meio à seca e ao sol escaldante. Barreto (e Nelson) sabiam que era uma filmagem de risco. Tinham medo de que os laboratórios da época não conseguissem revelar negativos impressos sob condições tão ásperas. Conseguiram, e o resultado foi uma obra-prima do cinema brasileiro, conhecida em todo o mundo a partir de sua exibição em Cannes.

Barreto faz a direção de fotografia de vários outros clássicos, entre eles Terra em Transe, tida como a obra-prima de Glauber Rocha. Dirigiu, com Eduardo Escorel, um documentário sobre o maior jogador de todos os tempos, Isto é Pelé.

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Sua produtora, a L.C. Barreto, fundada em 1963, ajudou a tornar realidade títulos marcantes como Garrincha Alegria do Povo (1963), de Joaquim Pedro de Andrade, A Hora e Vez de Augusto Matraga (1965), de Roberto Santos, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969), de Glauber Rocha, e Brasil Ano 2000 (1969), de Walter Lima Jr.

Durante a época da Embrafilme, entre outras produções, conta a de Dona Flor e seus Dois Maridos, dirigida por seu filho, Bruno Barreto, e que fez nada menos de 11 milhões de espectadores, cifra que o manteve, durante muitos anos, como o filme brasileiro mais visto de todos os tempos. Era uma nova fase do cinema brasileiro, com uma adaptação caprichada de um dos clássicos de Jorge Amado, porém dirigida não a uma elite intelectual, mas ao grande público. Nomes como José Wilker e Sônia Braga atingiram o ápice da fama nessa época.

Esse trabalho de produtor convivia com a intervenção constante na política do cinema. Tanto nos tempos de vacas gordas como o da Embrafilme, quanto no miserê após o breve governo Collor, que desmonta todo o arcabouço montado para sustentar o cinema brasileiro, Barreto atua como protagonista na defesa do cinema brasileiro. "Meu partido é esse, o PCB, o Partido do Cinema Brasileiro", costumava dizer.

Mais do que nunca, Barreto entendeu que seria preciso meter a mão na massa da política quando o vento mudou e o cinema brasileiro foi jogado às traças. Era comum vê-lo em Brasília fazendo lobby para que o moribundo cinema brasileiro pós-Collor renascesse através de uma legislação favorável.

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Teve participação fundamental do que logo foi chamado de Retomada do cinema brasileiro. Surgiram a Lei do Audiovisual e iniciativas de incentivo em toda parte do território nacional. E, dessa forma, o cinema nacional pôde voltar. Foi um processo coletivo, sem dúvida, mas que muito deve à iniciativa de Luiz Carlos Barreto.

Durante a Retomada, produziu filmes importantes como O que é isso, Companheiro, baseado na obra de Fernando Gabeira e dirigido por Bruno Barreto, e O Quatrilho, ambientado na imigração italiana do Sul do País, tirado do romance de José Clemente Pozenato e dirigido por Fábio Barreto. Nessa época de reafirmação do cinema brasileiro, O Quatrilho disputou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1995.

Luiz Carlos era casado havia 70 anos com a também produtora Lucy Barreto. O casal teve dois filhos e uma filha, todos dedicados ao cinema: Bruno, Fábio e Paula. Coube a Paula a sucessão no comando da produtora. Bruno continua fazendo seus filmes. A família foi marcada pela tragédia sofrida por Fábio. Por ocasião do lançamento do seu filme Lula, o Filho do Brasil (2009), o diretor sofreu um acidente de automóvel que o deixou dez anos em coma. Quem convivia com o casal nesse período, sentia a tristeza, mas nunca deixaram de esperar que um dia o filho iria "acordar". Fábio morreu em 2019.

Nesse mesmo ano, Barreto participou de audiência pública contra o decreto do então presidente Jair Bolsonaro, que alterava a estrutura do Conselho Superior de Cinema. Em 2022, quando a L.C. Barreto produzia o inédito Deus Ainda É Brasileiro, de Cacá Diegues, Barreto, aos 94 anos, participava de reuniões para a recriação do Ministério da Cultura, extinto no governo anterior, e recriado sob Lula. Foi um lutador.

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