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'As personagens de 'A Quinta Portuguesa' são profundas e misteriosas', revela Maria de Medeiros

Atriz falou à Rolling Stone Brasil sobre o processo de atuação em A Quinta Portuguesa e a parceria com Manolo Solo, ator que faleceu este ano

26 ago 2026 - 15h01
Resumo
Com direção de Avelina Prat, o filme A Quinta Portuguesa estreia no Brasil trazendo uma trama sobre identidade, perda e recomeço. Estrelado por Maria de Medeiros e pelo falecido Manolo Solo, o longa aposta em silêncios e no ritmo contemplativo. Em entrevista, Medeiros destacou o mistério das personagens e a visão de que a identidade é mutável, além de exaltar a parceria com Solo e o caráter reflexivo da coprodução luso-espanhola diante da velocidade do cinema atual.

A Quinta Portuguesa chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (27) pela Kajá Filmes trazendo uma história sobre identidade, pertencimento e a possibilidade de reconstruir a própria vida. Dirigido e escrito pela espanhola Avelina Prat (Tão Perto, Tão Distante), o longa acompanha Fernando (Manolo Solo, Fechar Os Olhos), um professor de Geografia devastado pelo desaparecimento da esposa que decide assumir a identidade de outro homem e trabalhar como jardineiro em uma quinta portuguesa.

'As personagens de 'A Quinta Portuguesa' são profundas e misteriosas', revela Maria de Medeiros (Divulgação)
'As personagens de 'A Quinta Portuguesa' são profundas e misteriosas', revela Maria de Medeiros (Divulgação)
Foto: Rolling Stone Brasil

É nesse lugar, marcado pelo silêncio, pela contemplação e por personagens que carregam seus próprios mistérios, que Fernando encontra Amália, personagem de Maria de Medeiros (Pulp Fiction). Dona da quinta, ela oferece ao protagonista um espaço de liberdade e, aos poucos, estabelece com ele uma relação construída mais por gestos e silêncios do que por grandes declarações. Rolling Stone Brasil conversou exclusivamente com a atriz, confira o papo a seguir:

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O que chamou atenção no roteiro?

Para Medeiros, há justamente uma recusa em explicar tudo foi um dos elementos que mais a atraíram no roteiro. "Eu achei que era muito bem escrito", conta a atriz. "Uma das coisas que eu gostei particularmente é que as personagens são profundas. E são misteriosas também. Não se desvendam facilmente."

Em um momento em que, segundo ela, as narrativas tendem a ser cada vez mais literais, A Quinta Portuguesa preserva uma zona de desconhecimento para seus personagens. "Se respeita muito a margem de segredo de cada personagem", afirma. Para Medeiros, essa abordagem se aproxima da própria experiência humana, já que ninguém pode ser reduzido a uma única explicação ou definição.

Uma identidade em constante transformação

A questão central do filme — o que determina quem somos? — também encontra eco direto na visão pessoal da atriz. Para ela, identidade não é algo definitivo. "A minha resposta pessoal [para a pergunta do filme] é que a identidade não é uma coisa fixa. Não é uma coisa parada, identificada de uma vez por todas. A nossa identidade é mutante", explica. "A identidade é justamente a descoberta, a abertura ao mundo."

Essa visão, porém, não significa ignorar o passado. Maria reconhece que a memória e as perdas também participam da construção de quem somos. "A identidade está em mutação, mas também se constitui com a memória que é muito importante com tudo o que vem atrás", diz. "A melancolia é uma fonte de criatividade também. E também somos constituídos de tudo o que perdemos, de alguma forma, das pessoas que perdemos, das relações que perdemos."

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Outro aspecto que chamou a atenção de Medeiros foi a maneira como Avelina Prat constrói os relacionamentos. "É muito bonito esse espaço de não dito no filme", afirma. "As personagens serem capazes de compartilhar silêncio que às vezes é o mais difícil entre duas pessoas. Não é falar, é estar calado."

Para a atriz, esse princípio também influencia o próprio trabalho de interpretação. "Eu não gosto de ser determinista até ao fim na construção de uma personagem, porque realmente a personagem também se constrói em relação aos outros atores, às outras personagens, ao que acontece", explica.

A parceira com Manolo Solo durante as filmagens

Essa abertura no processo de interpretação ganhou um significado ainda mais especial na parceria com Manolo Solo. A Quinta Portuguesa foi uma das últimas atuações do ator, que morreu em julho deste ano. Medeiros revela que a conversa com Rolling Stone Brasil foi sua primeira entrevista desde a morte do colega e admite que ainda não conseguiu rever o filme depois da perda.

A relação entre os dois também foi marcada pela troca de idiomas. Medeiros fala espanhol com naturalidade, enquanto Solo precisou se dedicar ao português para o papel. Segundo ela, acompanhar esse esforço foi uma experiência particularmente emocionante. "Eu acho muito comovente quando se vê uma pessoa estrangeira fazer o esforço de falar a nossa língua. É uma prova de afeto muito grande", afirma.

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A atriz acredita que a conexão entre os dois personagens nasceu justamente durante esse processo. "Houve alguma coisa que apareceu aí que não foi pré-determinada, mas que tem a ver com o fato de sermos capazes de compartilhar silêncios, de nos ouvirmos um ao outro", conta.

Uma atriz entre línguas e culturas

A própria trajetória de Maria de Medeiros ajuda a explicar sua identificação com uma história construída entre diferentes países. Portuguesa, criada na Áustria e educada em francês, a atriz fala seis idiomas e construiu uma carreira atravessada por diferentes culturas.

Em A Quinta Portuguesa, essa mistura aparece também na própria produção. "Realmente este filme foi uma verdadeira coprodução", afirma a atriz. "Os atores eram tanto da Espanha como de Portugal. A equipe era completamente misturada entre portugueses e espanhóis."

A atriz também acredita que cada idioma carrega um "modus operandi". "Cada língua transporta com ela uma certa visão do mundo e uma certa atitude em relação ao mundo", explica. "Só o mudar de língua já nos faz mudar um bocadinho de personalidade."

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Curiosamente, segundo ela, atuar em sua própria língua pode ser mais difícil justamente pela carga emocional que ela carrega. "É nela que tudo tem mais peso", afirma, citando a influência do sotaque, da escolha das palavras e do peso afetivo que elas possuem.

"O filme oferece ao espectador um oxigênio"

Outro elemento que Medeiros destaca é o ritmo contemplativo de A Quinta Portuguesa. Em contraste com a velocidade de boa parte do cinema contemporâneo, o longa aposta em silêncios, pequenos gestos e informações reveladas gradualmente. Para ela, a recepção do longa na Espanha mostrou que havia público interessado justamente nesse tipo de experiência. "O filme oferece ao espectador um oxigênio."

Para a atriz, a experiência de interpretar Amália também passa por aquilo que ela carrega de sua própria trajetória. "Nela eu pude colocar realmente o passado de muitas viagens", conta. Mas não acredita que seja possível medir racionalmente tudo aquilo que um ator oferece e recebe de uma personagem.

"O que colocamos nosso numa personagem e o que levamos dela é uma coisa que muitas vezes se situa ao nível do inconsciente", afirma. "Há uma dimensão milagrosa sempre que acontece quando nos deixamos habitar por uma personagem."

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Agora, com a chegada de A Quinta Portuguesa aos cinemas brasileiros, Maria de Medeiros espera que o público encontre no filme justamente esse espaço de reflexão que ela valoriza. A atriz diz estar "super feliz" com a estreia no país, a homenagem ao colega Manolo e lamenta apenas não poder estar presente para acompanhá-la de perto.

Rolling Stone Brasil
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