Após anos de desmonte e censura, cinema brasileiro volta ao cenário internacional

Cinema brasileiro vive retomada histórica, impulsionada pelo sucesso internacional e popular de O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui nos últimos anos

4 mar 2026 - 15h15

Em entrevista ao site The Hollywood Reporter, nomes centrais da retomada do audiovisual brasileiro nos últimos anos detalharam como o sucesso de O Agente Secreto se transformou em símbolo de uma virada histórica para o setor.

Como produtora apostou em 'O Agente Secreto' e colocou o cinema nacional nos holofotes mundiais (Kevin Winter/Getty Images)
Como produtora apostou em 'O Agente Secreto' e colocou o cinema nacional nos holofotes mundiais (Kevin Winter/Getty Images)
Foto: Rolling Stone Brasil

À frente da distribuidora Vitrine Filmes, Silvia Cruz relembrou o ceticismo inicial do mercado quando começou a negociar o longa de Kleber Mendonça Filho (Bacurau) com os exibidores. Mesmo estrelado por Wagner Moura (Praia do Futuro), um dos atores mais conhecidos do país, o projeto parecia arriscado: narrativa não linear, 161 minutos de duração e forte teor político.

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"Eles perguntavam se eu tinha certeza", contou Cruz à publicação. A dúvida era puramente comercial: haveria público para um drama denso sobre os anos 1970? A resposta foi dada nas bilheterias. Com cerca de 2,45 milhões de ingressos vendidos no Brasil, o filme permaneceu por 16 semanas entre os cinco mais vistos do país.

A trajetória começou no Festival de Cannes de 2025, onde O Agente Secreto venceu quatro prêmios, incluindo Melhor Direção e Melhor Ator, e culminou em quatro indicações ao Oscar, entre elas a de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional. Foi o segundo ano consecutivo em que um filme brasileiro disputou simultaneamente as categorias — feito que já havia ocorrido com Ainda Estou Aqui, de Walter Salles (Central do Brasil).

Cinema e política caminham juntos

Na entrevista, os profissionais destacaram que o atual momento do cinema brasileiro está diretamente ligado ao contexto político. Durante o governo de Jair Bolsonaro, políticas culturais foram desmontadas e mecanismos de fomento sofreram paralisações.

Salles afirmou que Ainda Estou Aqui dificilmente teria sido realizado naquele período. A retomada veio com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, que reestruturou instrumentos de incentivo e financiamento ao setor. "O mercado que levamos duas décadas para construir foi fechado em quatro anos — e agora estamos recuperando", afirmou o produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features, ao site.

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Kleber Mendonça Filho reforçou que o momento atual representa uma retomada estrutural. "Voltamos a um lugar de onde nunca deveríamos ter saído: o de receber recursos públicos para a expressão artística e para a distribuição de obras feitas por artistas brasileiros", declarou.

Para o ator Wagner Moura, indicado ao Oscar 2026 e vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator em Drama, a discussão ultrapassa governos. "Está na Constituição que o Estado deve garantir cultura ao povo", declarou. "É um direito constitucional."

De nicho a fenômeno

Cruz argumenta que a distribuição do cinema brasileiro tem se mostrado especialmente desafiadora, já que muitos exibidores passaram a concentrar cada vez mais sua programação em filmes americanos e comédias populares. "Existe esse intermediário, que é a sala de cinema — eles precisam acreditar para colocar o seu filme em cartaz", afirma.

Teixeira complementa: "O problema do cinema brasileiro por muitos anos é que ele virou quase um gênero — no Brasil, temos terror, temos ação e temos 'cinema brasileiro'." Os filmes nacionais passaram a ser tratados como um nicho.

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Ainda assim, a participação do cinema brasileiro na bilheteria nacional triplicou em relação a 2023. Após as indicações ao Oscar, O Agente Secreto saltou do nono para o terceiro lugar no ranking semanal de público no país. Mais do que números, os envolvidos destacam o impacto simbólico.

Moura relatou a emoção de ver o público brasileiro se reconhecer nas telas. "Isso cria identidade e autoestima", afirmou. "Quando vejo brasileiros demonstrando orgulho, se vestindo como Dona Sebastiana no filme, no mais puro estilo do Carnaval brasileiro, eu acho simplesmente lindo pra caralho. Isso me faz pensar: 'Quer saber? Dane-se. Eu vou continuar lutando por isso.'"

Nova onda e temor de retrocessos

A publicação também ouviu o diretor de fotografia Adolpho Veloso, indicado ao Oscar por seu trabalho em Sonhos de Trem, que apontou o momento atual como comparável ao impacto que Cidade de Deus (2002) teve em sua geração. Segundo ele, o reconhecimento internacional pode mudar as coisas.

"Espero que tudo o que está acontecendo agora — com o reconhecimento internacional — volte os olhos para o Brasil de uma forma que traga mais investimento", acrescentou. "Podemos reduzir muito do preconceito que existe dentro do próprio Brasil, informar mais as pessoas sobre o quanto é importante produzir cultura e produzir arte — e o quanto isso é benéfico para a imagem de um país, além de quanto investimento pode atrair de todas as maneiras possíveis."

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Produtores e realizadores, no entanto, mantêm cautela. O medo comum é que uma nova mudança política reverta esses avanços rápidos e significativos. "

Precisamos continuar existindo, precisamos continuar produzindo bons filmes, precisamos produzir de tudo

", afirma

Gabriel Domingues

, indicado ao Oscar pela Direção de Elenco de

O Agente Secreto

. De acordo com

Teixeira

, o setor ainda depende de incentivos fiscais e políticas públicas consistentes. "

Não matem isso

", resumiu.

Fonte: THR

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Rolling Stone Brasil
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