Há um olhar de admiração estampado no semblante das pessoas que observam, com esforço, as pequenas gravuras de Rembrandt (1606-1669) que acabam de desembarcar em São Paulo pela mostra Rembrandt - O Mestre da Luz e da Sombra. "Fico impressionada com o nível de detalhe, as expressões nos rostos das figuras", diz a assistente jurídica Sandra Coelho, encantada com o "privilégio" de ver de perto 69 artes originais do pintor holandês do século 17, um dos maiores nomes da arte europeia.
A exposição já passou por Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Vitória, onde foi vista por mais de 235 mil pessoas, e fica até setembro na capital paulista. Situada no complexo Caixa Cultural, na Praça da Sé, atraiu mais de dois mil visitantes no fim de semana de estreia - a abertura foi em 29 de julho.
Estima-se que o autor tenha deixado cerca de 300 gravuras. Algumas delas já foram mostradas no País em 2002. Este conjunto de 69 unidades, contudo, está sendo apresentado aqui pela primeira vez.
Trata-se de uma coleção privada, pertencente a um único dono, mas que desde 2018 está emprestada a uma rede de museus públicos da Itália, sendo administrada pela The Art Co, empresa especializada na gestão de artes famosas. No ano passado, o curador do projeto, o italiano Luca Baroni, disse ao Estadão que trazer as obras para o Brasil só foi possível graças ao envolvimento de patrocinadores, por causa dos altos custos da operação.
Nestas gravuras, Rembrandt usou principalmente a técnica água-forte, que consiste em desenhar, com traçado mais livre, sobre uma placa metálica coberta de tinta, que depois é exposta ao ácido para criar as linhas desejadas. Assim ele se distinguiu pela maneira como explorou o contraste da luz e da sombra na arte. O método também servia como espaço de experimentação para telas maiores. Ele se notabilizou por quadros como A Ronda Noturna (1642) e Tempestade no Mar da Galileia (1633).
Como é a mostra de Rembrandt
A exibição é dividida em três núcleos temáticos: o pessoal, o divino e o humano. O primeiro, relacionado à sua vida íntima, reúne representações de sua mãe e o famoso Autorretrato com Saskia (1636), onde Rembrandt, de chapéu, aparece ao lado de sua mulher Saskia van Uylenburgh, oriunda de uma família de alto poder aquisitivo e que morreu tragicamente com cerca de 30 anos. A morte dela foi um golpe emocional e financeiro para o artista, que logo entraria em falência e teria seu ateliê e itens leiloados.
A segunda parte concentra-se nas imagens do Velho Testamento. Ressurreição de Lázaro (1632), O Apedrejamento de Santo Estêvão (1635, A Crucificação (1635) e A Decapitação de João Batista (1640) são alguns dos destaques. Cada nova observação revela detalhes antes despercebidos. Em A Descida da Cruz (1635), por exemplo, é possível detectar o próprio Rembrandt contemplando, aos pés da cruz, com alguma incredulidade, o corpo de Jesus Cristo.
Já na terceira seção, há desenhos de figuras diversas, dos pobres aos ricos. Algumas artes foram encomendadas por personalidades como Jan Uytenbogaert, cobrador-chefe de impostos da Holanda, e Lieven Willems Coppenol, mestre da caligrafia, enquanto outras retratam anônimos, como O Persa (1632) e O Jogador de Cartas (1641).
"Entendemos que algumas dessas obras eram também uma forma de denunciar a situação social e política do momento. Os artistas não tinham o hábito de fazer isso e ele, muito sutilmente, fazia quando tinha a oportunidade", explica Suellen Rosa, coordenadora de mediação da exposição.
Suellen destaca, também, o enorme cuidado que existe para preservar as peças. Elas chegaram emolduradas ao Brasil e exigem um protocolo rigoroso de temperatura e iluminação. "São tesouros de 400 anos", ela diz, indicando que as luzes são cuidadosamente posicionadas para proteger os desenhos e, ao mesmo tempo, tornar a experiência do público satisfatória, sem que existam reflexos indesejáveis.
Em algumas estampas, é possível identificar a assinatura de Rembrandt, um indício de que ele já compreendia, à época, o potencial comercial de seu trabalho.
Aos visitantes são oferecidas lupas para melhor visualização das gravuras, embora alguns prefiram usar o celular, não para sacar fotografias, e sim para utilizar o zoom e apreciar detalhes que escapam a olho nu. A mostra também dispõe de audioguia, conteúdos em braile e vídeos explicativos em Libras.
Por fim, há uma ala tecnológica, feita com ajuda de inteligência artificial, na esteira das atrações imersivas sobre pintores famosos já montadas no País - Van Gogh, Da Vinci, Monet, entre outros. O público pode ver as gravuras ganharem movimentos em enormes projeções, além de um holograma em 3D mostrando o envelhecimento de Rembrandt à frente do cavalete.
"A proposta da sala imersiva é justamente evidenciar detalhes e permitir que o público descubra toda a riqueza e genialidade das obras", conta Marcelo Lages, diretor artístico da exposição. "Rembrandt nos ensina a observar o mundo ao nosso redor e a refletir sobre o legado que deixaremos para as próximas gerações", finaliza.
Rembrandt - O Mestre da Luz e da Sombra
- Onde: Caixa Cultural São Paulo (Praça da Sé, 111 - Centro)
- Período: 29 de julho a 27 de setembro de 2026
- Horário: terça a domingo, das 9h às 18h
- Ingressos: Entrada gratuita