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Por que ainda tem glitter do carnaval de 2025 nas areias do Rio? Pesquisadora explica

Estudo da Unirio mostra que o glitter do Carnaval de 2025 ainda persiste na areia da Praia do Flamengo, com risco de acúmulo

24 jan 2026 - 04h58
(atualizado às 07h06)
Resumo
Mesmo oito meses após o carnaval de 2025, microplásticos, especialmente do glitter, continuam poluindo praias do Rio de Janeiro, evidenciando os impactos ambientais de grandes eventos e a necessidade de medidas para reduzir o uso de materiais descartáveis e não essenciais.
Bloco Cordão da Bola Preta no centro do Rio de Janeiro
Bloco Cordão da Bola Preta no centro do Rio de Janeiro
Foto: JULIO CESAR/ AGNEWS

Mesmo 10 meses após o carnaval de 2025, microplásticos provenientes do glitter continuam presentes na Praia do Flamengo, na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. É o que aponta um estudo da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), publicado em dezembro, que mostrou a persistência desses materiais na areia muito tempo depois da folia.

Para avaliar os impactos ambientais do evento, os pesquisadores monitoraram a área em quatro fases distintas: três dias antes do carnaval, durante os quatro dias de festa, nos três dias seguintes e oito meses depois.

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A escolha da Praia do Flamengo levou em conta sua relevância ecológica e logística. Por ser de fácil acesso, a praia recebe inúmeros blocos carnavalescos, alguns reunindo mais de 100 mil foliões, o que permitiu à equipe testar a hipótese de que grandes eventos aumentam a contaminação local por microplásticos.

Aumento expressivo durante a folia

A pesquisadora Tatiane Cabrini, coautora do estudo, explicou que a contaminação por microplásticos cresceu de forma acentuada durante o carnaval. “Na nossa categorização, vimos que os fragmentos foram a categoria dominante. Dentro dessa categoria, a gente fez uma classificação do glitter, por ser um material com partículas visualmente fáceis de identificar”, afirmou.

Os microplásticos foram classificados em grânulos (7,5%), fibras (26,2%) e fragmentos (66,3%), sendo que o glitter se destacou entre os fragmentos. Os níveis mais baixos foram registrados antes da festa, e os mais altos logo após o carnaval. Mesmo na etapa final do monitoramento, oito meses depois, a concentração dessas partículas ainda permanecia acima do nível anterior à folia.

Isso ocorre porque as praias arenosas atuam como "sumidouros naturais" de lixo marinho, retendo esse material. O uso recreativo intenso e a gestão inadequada de resíduos ampliam os riscos de contaminação.

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Para a identificação, a equipe utilizou análises visuais por microscopia óptica, que permitem reconhecer partículas compatíveis com glitter a partir de características visuais. A pesquisadora esclareceu, porém, que identificar o tipo de polímero exigiria técnicas químicas, que não foram realizadas por não fazerem parte do objetivo do estudo.

Impactos ambientais e acúmulo de microplásticos

Do ponto de vista da poluição visual, o glitter e outros microplásticos não causam impacto tão perceptível, por serem partículas muito pequenas. “Em termos de poluição visual, os microplásticos são muito pequenos”, disse Tatiane, lembrando que o incômodo maior é causado pelo macro-lixo, como garrafas PET e latinhas, mais fáceis de identificar e remover.

O estudo não avaliou a presença de microplásticos na água nem realizou testes ecotoxicológicos em organismos locais, mas a literatura científica indica riscos importantes. “Com base na literatura científica desse tema, os microplásticos podem ser ingeridos por organismos da macrofauna”, explicou ela, citando moluscos e crustáceos, como o tatuí (Emerita brasiliensis), comuns no litoral carioca. Esses materiais podem se acumular ao longo da cadeia alimentar, chegando a peixes e aves, com maior concentração em predadores de topo. Além disso, fibras podem causar bloqueios no trato digestivo e fragmentos podem perfurar tecidos, provocando efeitos fisiológicos de longo prazo.

A pesquisadora ressaltou que não é possível determinar um período exato para que o glitter desapareça da praia, pois sua persistência depende de fatores como marés, ressaca, chuva, vento e dinâmica do sedimento. “Parte do material pode ser removida ou redistribuída pela energia das ondas, mas outra parte pode ficar retida no sedimento, ser soterrada e depois reaparecer”, explicou.

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Ela também destacou que o glitter pode se acumular ao longo do tempo: “Existe a possibilidade de acumular o glitter de vários momentos distintos no ambiente praial. Este microplástico pode não ter sido removido da praia completamente antes do carnaval de 2026”. Eventos sucessivos funcionam como pulsos anuais de entrada, somando carga ao sistema e aumentando a contaminação local de forma contínua.

Regulação e alternativas sustentáveis

Tatiane reforçou que há uma urgência global na regulamentação de produtos descartáveis e de uso único, especialmente os não essenciais. “Há uma urgência nas discussões de regulamentação legal, em escala global, para limitar ou banir itens específicos de uso único”, afirmou. Segundo a pesquisadora, “o glitter é um exemplo emblemático de microplástico primário, ou seja, um material que já é produzido intencionalmente em tamanho reduzido”. Por se tratar de um plástico não essencial, existem alternativas mais sustentáveis.

Ela ponderou que restrições ou proibições podem ajudar a reduzir a poluição, mas envolvem processos complexos de políticas públicas. “A decisão de uma proibição total, seja no Rio de Janeiro ou no Brasil, envolve a elaboração de políticas públicas e questões de governança, o que exige uma discussão mais profunda com a sociedade”, explicou. Enquanto essas discussões avançam, a orientação para o público é evitar o glitter plástico e optar por alternativas biodegradáveis, à base de mica mineral ou celulose.

Consciência e responsabilidade individual

A postura dos foliões também é determinante para reduzir impactos. “Acho que a postura mais responsável para os foliões, baseado muito na conclusão do nosso trabalho, é reduzir, não utilizar preferencialmente glitter plástico, optar por alternativas ambientalmente mais sustentáveis, biodegradáveis, e reforçar atitudes de descarte adequados”, disse a pesquisadora.

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A especialista destacou ainda como pequenos objetos descartados incorretamente se transformam em microplásticos. “Ao invés de jogar aquele pratinho que você comeu seu churrasquinho ou milho, procurar uma lixeira, porque aquele talher sendo pisoteado por várias pessoas vai virar um fragmento de microplástico que vai entrar no ambiente.”

Para a pesquisadora, eventos de massa funcionam como “pulsos de contaminação nesses ambientes, gerando impactos de curto e longo prazo”. A solução, segundo ela, passa pela união entre cobrança social e mudança de comportamento das empresas. “É uma discussão que a gente precisa trazer à sociedade para que ela entenda a problemática, cobre ações e faça individualmente o que está ao seu alcance”, concluiu.

Fonte: Portal Terra
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