Presente em cem países, entidade promove intercâmbio cultural, educação e parcerias em todo o mundo - mesmo em meio a circunstâncias políticas desafiadoras.Fundado em 1951, o Instituto Goethe trabalhou, ao longo de seus 75 anos de existência, para representar de maneira positiva a Alemanha no exterior e promover a língua e a cultura alemãs para pessoas em todo o mundo.
No Brasil, o centro cultural oficial da Alemanha está presente desde 1975, quando foi aberta a primeira unidade no país, no Rio de Janeiro. Hoje, há unidades também em Porto Alegre, Salvador e São Paulo.
A instituição, batizada em homenagem a um dos maiores escritores da literatura alemã, nasceu numa época em que a Alemanha precisava reconquistar a confiança internacional após a Segunda Guerra Mundial e os crimes do regime nazista.
Inicialmente sob o nome "Associação Goethe para a Formação Continuada de Professores de Alemão no Exterior", a entidade convidava professores estrangeiros para aprender o idioma na Alemanha.
No entanto, o foco logo mudou para o ensino no exterior. O primeiro Instituto Goethe foi inaugurado em Atenas em 1952. Dez anos depois, eram 54 filiais internacionais, além das 17 unidades na Alemanha.
Atualmente, o Instituto Goethe possui uma rede global com quase 4,4 mil funcionários em 154 instituições em 100 países. Cerca de um milhão de pessoas fazem o exame oficial de proficiência em alemão a cada ano em suas sedes ou instituições parceiras.
Da música clássica alemã ao jazz
Crucial para seu sucesso desde o início foi a credibilidade do instituto como uma associação independente. Embora receba dois terços de seu financiamento do orçamento do Ministério do Exterior, a programação é desenvolvida de forma independente - e se adaptou ao espírito da época e ao clima político ao longo das décadas.
Rapidamente ficou claro que o instituto não se limitaria ao idioma. A divulgação cultural e informativa visava ajudar a transmitir uma imagem ampla da Alemanha. "Também ficou muito claro que o objetivo não era promover a chamada cultura alemã para o mundo", diz a presidente do Instituto Goethe, Gesche Joost. "Mas sim, ao contrário, refletir juntos: como recomeçamos, e também, como queremos, todos juntos, construir a sociedade e o futuro?"
Nos seus primeiros anos, os programas culturais eram conscientemente voltados para os clássicos alemães. O período nazista não tinha diminuído o renome internacional de nomes como Schiller, Bach e Beethoven. Depois, na década de 1960, o jazz alemão se tornou um dos produtos de exportação de maior sucesso do instituto. O músico e compositor Klaus Doldinger, por exemplo, realizou numerosas turnês pelo mundo com a sua banda. Os vencedores do Prêmio Nobel de Literatura Günter Grass, Heinrich Böll e Herta Müller também viajaram a serviço do Instituto Goethe ao longo das décadas.
Com o espírito revolucionário da geração de 1968, do movimento hippie e dos protestos estudantis, o perfil do Instituto Goethe se transformou ainda mais e passou a incorporar abordagens cada vez mais críticas sobre questões sociais, por exemplo, incluindo em sua programação uma revisão crítica do nazismo.
Política cultural como parte da política externa
À época, a República Federal da Alemanha (antiga Alemanha Ocidental), passava por um processo de redefinição sob o comando do chanceler federal social-democrata Willy Brandt. Em 1970, o sociólogo Ralf Dahrendorf, então secretário de Estado parlamentar do Ministério do Exterior, anunciou que a política cultural se tornaria o "terceiro pilar da política externa" alemã.
Para Dahrendorf, contudo, não se tratava apenas de uma valorização da cultura, mas de uma nova forma de pensá-la. "O que damos só tem valor na medida de nossa disposição de receber", explicou. "A abertura ao outro é, portanto, um princípio da nossa política cultural externa".
Com isso, o Goethe Institut deixou de lado a exportação cultural e passou a priorizar o diálogo, a cooperação e a aprendizagem mútua. Essa abordagem continua a moldar até hoje o trabalho da instituição.
A cultura no fogo cruzado
Durante a divisão da Alemanha, o Leste e o Oeste competiam - especialmente no período da Guerra Fria - por alianças políticas no exterior, particularmente na área da política cultural externa.
Na década de 1970, a imprensa da Alemanha Oriental chegou a espalhar rumores de que os Institutos Goethe seriam centros de espionagem. Após a queda da Cortina de Ferro em 1989, o Goethe abriu diversas novas unidades no Leste Europeu e nos antigos países do bloco oriental, inclusive na Rússia.
No contexto da guerra de agressão russa contra a Ucrânia, o Ministério do Exterior da Rússia ordenou uma drástica redução de pessoal na unidade de Moscou, mas o trabalho continua. O mesmo ocorre na Ucrânia, onde a filial de Kiev permaneceu aberta de forma ininterrupta desde o início da guerra. Ali, o instituto oferece um conceito híbrido flexível para seus cursos de alemão: em caso de alerta de ataque aéreo, as aulas presenciais são transferidas para um abrigo. Além disso, há diversos formatos digitais e híbridos aos quais os participantes podem recorrer quando necessário.
"Tenho a impressão de que o trabalho em situação de crise se tornou a norma em muitas regiões", diz Joost. "Seja porque a democracia está sendo enfraquecida, porque os colegas trabalham sob condições de censura ou porque estão sob a ameaça de conflitos armados."
Em muitos institutos Goethe, a tão mencionada "virada de época", ou Zeitenwende — termo utilizado pelo ex-chanceler Olaf Scholz para descrever a transformação das políticas externa e de segurança da Alemanha após a invasão russa da Ucrânia — já se concretizou há muito tempo.
"Reconhecemos que, em regiões de crise, somos parceiros importantes da sociedade civil. Ao mesmo tempo, precisamos agir com sensibilidade e diplomacia para não sermos expulsos do país", diz Joost.
Em tempos em que a liberdade cultural e de expressão, a ciência e a educação estão cada vez mais sob pressão, o Instituto Goethe pretende continuar oferecendo espaços para o diálogo nos quais o debate aberto, a reflexão crítica e o intercâmbio cultural sejam possíveis. Atualmente, isso também ficou mais difícil em muitos países devido à posição alemã em relação ao conflito no Oriente Médio.
Alguns parceiros no mundo árabe suspenderam sua cooperação, enquanto em outros lugares os eventos dos institutos sofrem boicotes. "Nesses casos, nossa tarefa é explicar a posição alemã e o histórico por trás dela, mas também destacar os debates em torno dessa questão na Alemanha", explica Gesche Joost. "Ao mesmo tempo, também levamos de volta à Alemanha as críticas vindas de muitos países."
Nos últimos anos, o trabalho do Instituto Goethe tem sido prejudicado por cortes significativos no financiamento federal, o que leovu ao fechamento de algumas unidades. Ao mesmo tempo, a integração do número crescente de trabalhadores estrangeiros qualificados coloca a Alemanha diante de novos desafios.
Joost considera que o instituto desempenha um papel crucial nesse contexto. "Percebemos que muitos trabalhadores estrangeiros qualificados veem uma perspectiva de futuro na Alemanha. No entanto, a chegada ao país nem sempre é fácil", explica. "Para apoiar esse processo, contamos com nossos consultores de acolhimento, que estão disponíveis para responder a perguntas sobre como viver e trabalhar na Alemanha e para oferecer orientação, principalmente no início. Essa é uma importante contribuição que o instituto pode dar à Alemanha."
O Instituto Goethe celebra seu aniversário - comemorado em 9 de agosto - sob o lema "Nós no mundo", com parceiros em todo o globo. A programação na Alemanha inclui concertos, apresentações, mostras de cinema e mesas-redondas.