Por Tem Que Ver*
Após uma excelente campanha nas Eliminatórias da Conmebol, quando ficou atrás apenas da Argentina na classificação final, o Equador chega embalado à sua quinta participação em Copas do Mundo da FIFA. Essa empolgação não é à toa, já que a jovem seleção equatoriana, em sua maior parte atuando em clubes europeus, talvez seja a melhor geração do país em toda a sua história futebolística.
O argentino Sebastián Beccacece será o responsável por conduzir La Tri, como é conhecida a seleção equatoriana, durante a Copa 2026, oportunidade em que tentará avançar ao menos até às oitavas-de-final, superando a participação de maior êxito do Equador em 2006, na Alemanha.
O cinema equatoriano, apesar de sua longa história, passa longe de ter um protagonismo no cenário latino-americano. No entanto, isso não significa dizer que o país seja terra árida para a sétima arte, desprovida de filmes de qualidade e/ou que possuam relevância histórica. Um bom exemplo dessa riqueza é El Tesoro de Atahualpa, dirigido por Augusto San Miguel, em 1924, considerando o primeiro longa-metragem feito no Equador. Em 1931, o italiano Carlos Crespi dirigiu o importante documentário Los Invisibles Shuaras del Alto Amazonas. Na década de 1960, o cinema local foi promovido por intelectuais, incluindo Ulises Estrella, diretor da Cinemateca Nacional; nesse período, proliferaram as coproduções mexicano-equatorianas.
Dos anos 1980 até a atualidade, o Equador tem vivenciado um renascimento de sua produção cinematográfica, com obras cada vez mais reconhecidos em festivais por todo o mundo. Desse contexto é que emerge o longa-metragem escolhido para representar o país na Copa do Mundo de Cinema, um verdadeiro clássico sul-americano de 1999: Ratas, Ratones, Rateros, do diretor Sebastián Cordero. Indicado na Espanha ao Prêmio Goya de Melhor Filme do Ano, esse drama policial acompanha a vida de Salvador (Marco Bustos), um jovem ladrãozinho de Quito, depois que ele é visitado por seu primo Ángel (Carlos Valencia), um ex-presidiário com uma recompensa por sua cabeça.
A degradação moral e material das personagens de Ratas, Ratones, Rateros reflete diretamente a falência institucional do Estado equatoriano. Ademais, a violência gráfica e psicológica da obra funciona como um subproduto inevitável de um tecido social em rápida decomposição, potencializado, à época de seu lançamento, pela pior crise econômica vivida da história do país, que culminou no colapso do sistema bancário e na subsequente dolarização da economia nacional. Antes do filme, a produção cinematográfica no Equador era praticamente bissexta, frequentemente atada a narrativas históricas, folclóricas ou de viés nacionalista literário. Sebastían Cordero introduz o conceito de realismo sucio, herdeiro dos genes do Neorrealismo Italiano e do caráter mais cru do cinema marginal produzido na América Latina.
*Texto originalmente publicado no portal Tem Que Ver Cinema