Iemanjá é uma das divindades mais conhecidas das religiões de matriz africana no Brasil, especialmente no Candomblé e na Umbanda. Ligada às águas salgadas, essa orixá está associada ao mar, à maternidade e à proteção. Assim, a data de 2 de fevereiro tem ampla celebração em várias cidades brasileiras. A data marca um momento de homenagens, oferendas e rituais que atraem tanto praticantes das religiões afro-brasileiras quanto pessoas de outras crenças. Portanto, forma um cenário de grande diversidade religiosa.
A presença de Iemanjá no cotidiano brasileiro vai além dos terreiros e das festas públicas. Afinal, sua imagem aparece em músicas, obras de arte, enredos de escolas de samba, produções audiovisuais e até em elementos da cultura popular. Entre eles, quadros em casas e comércios. Dessa forma, essa difusão contribui para que a figura da orixá tenha reconhecimento mesmo por quem não conhece profundamente suas origens africanas ou o significado religioso de seus rituais.
Quem é Iemanjá nas tradições africanas e afro-brasileiras?
Iemanjá tem origem nas religiões tradicionais iorubás, da região que hoje corresponde a partes da Nigéria e de países vizinhos, na África Ocidental. Nessa cosmologia, ela é uma divindade ligada às águas e à maternidade, vista como mãe de muitos orixás. Com o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, seus cultos foram trazidos para as Américas. Assim, no continente passaram por processos de adaptação, resistência e recriação, dando origem a diferentes expressões religiosas.
No Brasil, a orixá Iemanjá costuma ser associada ao mar, embora em algumas tradições de origem africana ela estivesse associação original a rios. Nos terreiros, seu culto se dá com cantos, danças e oferendas específicas. Mas sempre dentro de um conjunto de regras religiosas que variam conforme a nação de Candomblé (como Ketu, Jeje ou Angola) ou a vertente de Umbanda. Ademais, elementos como tecidos azuis e brancos, colares de contas, flores e perfumes costumam aparecer nos rituais, de forma organizada e conduzida por lideranças religiosas.
Por que o dia de Iemanjá é tão importante no Brasil?
No calendário religioso brasileiro, o dia de Iemanjá ganhou forte destaque. Em especial, em cidades litorâneas como Salvador, Rio de Janeiro e diversas capitais do Sul e Sudeste. Em muitos locais, as homenagens se concentram em 2 de fevereiro, data em que são realizadas grandes procissões, entregas de presentes ao mar e celebrações que misturam devoção, música e comércio local. Essas festas movimentam não apenas os terreiros, mas também o turismo, a economia e a vida cultural das cidades.
A importância de Iemanjá está ligada, em parte, ao papel do mar na história do Brasil, associado tanto às rotas de comércio quanto às trajetórias forçadas de milhões de africanos escravizados. Para muitos praticantes, o ato de oferecer flores, perfumes ou alimentos ao mar representa uma forma de respeito, agradecimento e pedido de proteção. Além disso, as festas dedicadas à orixá funcionam como espaço de afirmação das religiões de matriz africana, que ainda convivem com estigmas e episódios de intolerância religiosa.
Entre os principais elementos que ajudam a entender a força do dia de Iemanjá no país, destacam-se:
- Dimensão religiosa: momento central no calendário de muitos terreiros, com rituais preparados ao longo de semanas.
- Dimensão cultural: presença marcante na música popular, no samba-enredo, na literatura e nas artes visuais.
- Dimensão social: encontros de diferentes camadas sociais e grupos religiosos em torno da mesma figura simbólica.
- Dimensão econômica: impacto no comércio de flores, velas, alimentos, artesanato e serviços ligados às festas públicas.
Qual é a relação entre Iemanjá e uma santa da Igreja Católica?
Durante o período colonial e imperial, pessoas escravizadas e seus descendentes foram pressionadas a adotar práticas católicas. Para preservar seus cultos, muitos passaram a associar orixás a santos católicos, em um processo conhecido como sincretismo religioso. No caso de Iemanjá, a "versão" correspondente no imaginário popular brasileiro é, em muitos lugares, Nossa Senhora dos Navegantes ou, em alguns contextos, Nossa Senhora da Conceição. Essa associação não significa que as figuras sejam iguais, mas indica uma aproximação simbólica construída ao longo da história.
O vínculo com Nossa Senhora dos Navegantes se apoia na relação com o mar e com a ideia de proteção às embarcações e aos que vivem do trabalho nas águas. Já a aproximação com Nossa Senhora da Conceição está ligada ao papel de mãe e figura feminina de cuidado e acolhimento. Em cidades como Porto Alegre e outras regiões do Sul, por exemplo, a festa de Nossa Senhora dos Navegantes também ocorre em 2 de fevereiro, o que reforça a sobreposição de datas e de devoções.
Esse sincretismo pode ser observado em práticas como:
- Procissões marítimas em honra a Nossa Senhora dos Navegantes, frequentadas também por devotos de Iemanjá.
- Altares domésticos que misturam imagens da Virgem Maria com representações da orixá das águas.
- Uso de cânticos e rezas católicas em eventos populares realizados no mesmo dia das oferendas a Iemanjá.
Como a representatividade de Iemanjá aparece na sociedade brasileira?
A representatividade de Iemanjá no Brasil se manifesta em diferentes camadas. Na esfera religiosa, ela simboliza a força das tradições de matriz africana e o reconhecimento da ancestralidade negra. Na cultura, sua imagem inspira escolas de samba, blocos de carnaval, canções de artistas de variados estilos e obras de artistas plásticos que exploram o tema do mar, da maternidade e da resistência.
Em um contexto de debates sobre racismo e liberdade religiosa, Iemanjá também se torna um símbolo de identidade e de afirmação das comunidades de terreiro. A cada 2 de fevereiro, a presença de milhares de pessoas nas praias para homenagear a orixá evidencia a continuidade e a renovação dessas tradições, mesmo diante de mudanças sociais, urbanas e tecnológicas. Esse movimento ajuda a manter viva a memória das matrizes africanas que compõem a formação histórica e cultural do país.
Dessa forma, a figura de Iemanjá se articula entre passado e presente, unindo referências africanas, práticas afro-brasileiras e aproximações com o catolicismo, por meio do sincretismo com Nossa Senhora dos Navegantes e Nossa Senhora da Conceição. A data de 2 de fevereiro, nesse cenário, funciona como um ponto de encontro entre fé, cultura e história, reunindo diferentes grupos em torno das águas e de seus significados simbólicos.