Criminosos em São Paulo usaram inteligência artificial para clonar a voz de gerentes bancários e aplicar golpes, mas foram presos; delegado alerta para maior investimento em segurança nos bancos.
Imagine receber uma ligação do seu gerente do banco, com quem você já falou antes, para tratar de um problema na sua conta bancária. Depois de passar todos os seus dados, você descobre uma movimentação suspeita na conta, e percebe que, na verdade, você estava falando com um golpista que usava inteligência artificial para se passar pelo gerente. Essa é uma tática que já é utilizada pelo crime e que já foi identificada pela DCCiber, a divisão de crimes cibernéticos da Polícia Civil de São Paulo.
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Segundo o delegado e divisionário Paulo Barbosa, o crime começava quando os criminosos usavam um número mascarado, como se fosse o real número da agência do banco onde o cliente tinha conta.
"É uma transformação da voz humana em um pacote de dados digital. Então, em vez de você usar a linha telefônica tradicionais, o VoIP consegue transformar a voz humana em um pacote de dados e a pessoa faz a ligação", explica o delegado. "Isso é um meio legítimo. Só que os criminosos conseguem praticar um golpe chamado aqui tecnicamente como spoofing, que na verdade é a falsificação da identidade do número de origem", completa.
Ao atender, a vítima esperava falar com seu gerente do banco. “Através de inteligência artificial, eles conseguiram clonar a voz do gerente. E aí, eles falavam: ‘Olha, você está com um problema na sua conta, uma tentativa de invasão. A invasão não foi feita, mas eu, de forma preventiva, resolvi te ligar’”, explica o delegado.
A falsa invasão era comunicada aos clientes do banco e o suposto gerente pedia uma atualização de segurança dos dados, para prevenir um furto. Um link para atualização dos dados era enviado à vítima que, ao preencher as informações, fornecia os próprios dados aos golpistas.
O link era disfarçado como se fosse a interface do banco, de forma digital. “A vítima coloca a senha e acabou. O golpe está feito”, afirma Barbosa.
Bancos precisam de mais segurança
O delegado chama atenção para o quanto os golpes se tornaram mais sofisticados nos últimos tempos, e diz que, nesse caso, a DCCiber teve sucesso em identificar e prender a quadrilha, mas cobra os bancos por mais investimento na segurança.
“Com relação aos bancos, a gente espera que eles invistam maciçamente no sistema antifraude, no sistema de abertura de conta corrente, para que eles sejam mais rigorosos”, aponta.
O delegado diz que, antigamente, caso alguém passasse um cheque sem fundo, por exemplo, ficaria cinco anos sem poder ter cheques e nem conta em outro banco. “Hoje, é muito normal um criminoso ter conta em 15 bancos”, diz. Dessa forma, é comum que a conta usada para o crime seja fechada, mas o mesmo dono continue operando com outras contas em outras instituições financeiras.
“Então, o banco, claro que é de forma involuntária, não é de uma forma proposital, mas ele acaba oferecendo ferramentas também para o criminoso”, afirma o delegado.
Para se proteger desse tipo de golpe, Paulo Barbosa orienta que a população não se deixe influenciar pela atmosfera de urgência que o golpista tenta criar. "A partir do momento que a pessoa atende a ligação, sente alguma familiaridade na voz, ela começa a abrir a porta para o crime. A gente recomenda desligar a ligação e o cliente ligar para o número oficial do banco".
“Não deixar se influenciar pela atmosfera que o crime cria, usando engenharia social. Porque o crime fala em dinheiro, usa o medo, usa a urgência, usa a vantagem para criar uma atmosfera diferente da realidade e te induzir a um comportamento”, pontua.