Em 1826, exatos 200 anos atrás, um episódio acidental mudaria para sempre a forma como criamos luz e calor.
O farmacêutico experimental inglês John Walker (1781-1859) misturava substâncias químicas, tentando produzir explosivos, quando um palito coberto com a mistura atingiu inadvertidamente uma pedra em frente à sua lareira, criando uma chama espontânea.
Walker nasceu em meio à Revolução Industrial, na cidade portuária de Stockton-on-Tees, no nordeste da Inglaterra.
O motor a vapor de James Watt (1736-1819), principal impulsionador dos avanços da época, teve seu lançamento comercial em 1776 e a primeira ferrovia pública utilizando locomotivas a vapor chegou a Stockton, no condado de Durnham, em 1825.
Quatro anos depois, a locomotiva Rocket ("Foguete"), do engenheiro George Stephenson (1781-1848), provou que as locomotivas a vapor podiam puxar trens de passageiros a 50 km/h. E, pouco tempo depois, viagens que levavam 12 dias a cavalo já podiam ser realizadas em apenas oito horas.
Mas as pessoas ainda tinham dificuldade para acender o fogo que produzia aquela potência. Elas usavam pedra e aço, ou trabalhavam para manter as brasas permanentemente acesas.
Até que a invenção acidental de Walker revolucionou a produção, aplicação e a portabilidade do fogo.
Walker era cirurgião formado. Mas, desencorajado pela natureza sanguinária dos cenários de operações do início do século 19, ele estudou novamente para ser farmacêutico.
Em 1826, ele passava a maior parte do tempo produzindo medicamentos para seres humanos, cavalos, bois e até galinhas, segundo Alan Middleton, autor do livro A Tale of Hope and Despair: North of England Match Co. West Hartlepool 1932-1954 ("Uma história de esperança e desespero: a North of England Match Co. West Hartlepool 1932-1954", em tradução livre).
Mas, basicamente, Walker também fazia experiências com substâncias químicas.
"Walker era um homem muito gentil e inteligente e, segundo alguns, talvez um aventureiro", segundo Middleton.
"Uma das suas paixões era a química. Ele misturava substâncias para produzir espoletas [os dispositivos que permitem que as armas disparem] para seus amigos agricultores."
"Um dia, ele preparou uma certa mistura e deixou para secar", ele conta.
"Quando secou, ele simplesmente bateu o pedaço de madeira sobre a lareira — e pegou fogo. Foi o momento genial de algo que ninguém no mundo havia feito antes."
"Ele percebeu as possibilidades comerciais daquilo. Aconteceu em algum momento em 1826, não sabemos a data exata, mas a primeira venda ocorreu em abril de 1827."
"Ele os chamou de 'luzes de fricção' e eram vendidos inicialmente às centenas por lata", explica Middleton.
As "luzes de fricção" de Walker eram palitos de madeira chatos e muito finos, com uma extremidade mergulhada em uma pasta feita de clorato de potássio, sulfeto de antimônio, goma arábica e água.
E, ao ser esfregado em um pedaço de lixa dobrado, o palito ardia, criando uma chama.
Walker manteve sua fórmula em segredo, mas nunca a patenteou. Seu produto era oferecido a baixo custo e o inventor conseguia atender à demanda de Stockton.
Mas, segundo o Pharmaceutical Journal, "os fósforos de Walker não eram perfeitos. O revestimento ardente de enxofre, às vezes, caía do palito, com risco de danificar o piso ou as roupas do usuário".
Em 1829, Samuel Jones, de Londres, lançou seus próprios fósforos "Lúcifer", uma cópia exata das Luzes de Fricção de Walker. Eles se tornaram os primeiros a serem produzidos em massa.
E, logo em seguida, outras pessoas começaram a aprimorar a fórmula, segundo conta à BBC o presidente da Sociedade Britânica de Rótulos de Caixas e Cartelas de Fósforos (BML&BS, na sigla em inglês), Derek Judd.
O tamanho e o formato da embalagem em lata também passaram por alterações.
Foi apenas em 1844 que uma versão produzida na Suécia popularizou a caixa de fósforos moderna.
"Esta foi a primeira caixa de fósforos realmente patenteada", segundo Judd.
Em muitas regiões, a fabricação de fósforos se tornou uma indústria doméstica. Eles eram produzidos em casa, fornecendo às famílias uma renda extra um tanto arriscada.
"As mulheres e crianças que moram na região perto da fábrica recebiam por produção [não por salário] para fazer caixas", conta Judd, "até que vieram as máquinas e aquilo se tornou um negócio multimilionário".
Mas uma invenção posterior gerou um sensível declínio da produção de fósforos: o isqueiro.
"O volume real dos negócios diminuiu ao longo dos anos", explica Judd. "Empresas desapareceram".
Ainda assim, os fósforos continuam sendo comuns em todo o mundo. Além de permanecerem como um produto essencial, eles também se tornaram um acessório da moda, segundo Middleton. Embalagens personalizadas e especiais são vendidas por até US$ 250 (cerca de R$ 1,25 mil).
Mas seu inventor permanece sendo um personagem obscuro. Middleton e Judd concordam que John Walker, passados 200 anos da sua invenção, merece ser mais reconhecido.
"Walker foi um personagem histórico que não desejava acompanhar sua invenção", segundo Judd. "Se tivesse feito, poderia ter ficado mais conhecido."
Felizmente, os moradores de Stockton têm a mesma sensação.
Muitos deles esperam que as comemorações do 200° aniversário da invenção (que começam no dia do nascimento de Walker, 29 de maio) finalmente tragam ao extraordinário inventor local o crédito que ele merece.
"Esperamos que, ao longo dos eventos programados para este ano e para o próximo, mais pessoas passem a conhecer seu papel no desenvolvimento dos fósforos comuns que todos nós usamos hoje em dia", afirma a presidente do conselho local, Lisa Evans.
"A invenção do palito de fricção possibilitou a criação de chamas instantaneamente, com pouco esforço. E a popularização dos fósforos tornou as tarefas domésticas e industriais muito mais fáceis e rápidas."
"A chama que ele criou continua a inspirar as pessoas até hoje", conclui Evans.