Apenas 10% das pesquisas em ciência e saúde no mundo são destinadas a doenças que afetam mais de 90% da população. O dado, apresentado pela professora Sue Ann Clemens, da Universidade Johns Hopkins (EUA), resume o principal gargalo discutido no painel "Pesquisa: o investimento que transforma o conhecimento em futuro", realizado nesta terça-feira, 4, no Summit Mulheres nas Profissões.
Para transformar conhecimento científico em soluções reais, disseram as participantes, falta ao Brasil um elo mais sólido entre universidades, empresas e poder público. "Precisamos de financiamento contínuo que seja transversal, independentemente do governo que esteja atuando. Precisamos de planejamento estratégico", afirma Clemens, defendendo a criação de fundos multidoadores.
Um dos pontos levantados pela pesquisadora Renata Prôa, referência na intersecção entre inteligência artificial, ciência e arte, foi o alerta contra o uso de tecnologia por modismo. "O que eu vejo, tanto em governo quanto em empresas, é que tentam colocar IA pelo hype, em vez de fazer uma análise de custo-efetividade. Muitas vezes ela é a mais simples possível", diz.
Segundo Prôa, para uma tecnologia funcionar dentro do SUS, por exemplo, ela precisa atender a três critérios:
- resolver um problema real e mensurável de quem está na ponta;
- se integrar aos fluxos de trabalho já existentes, sem ser disruptiva a ponto de travar a adesão;
- ter o custo compensado dentro de um horizonte de tempo viável.
Um dos grandes problemas, de acordo com ela, é que muitos gestores enxergam a inovação como fim, e não um caminho. "O quanto pode diminuir custos e agilizar a eficiência".
Clemens reforça a importância da rapidez dentro desse processo. "A inovação de ontem não é a inovação de amanhã se ela não for implementada. O que a gente quer com tudo isso? O impacto. No meu caso, na saúde pública: salvar vidas, aumentar a qualidade de vida e aumentar os anos de vida. E, se eu não agir rapidamente, aquele feito não for implementado, ele é obsoleto", conta.
A médica Maria Sanali Moura de Oliveira Paiva citou mudanças na estrutura administrativa do Inaep (Instância Nacional de Ética em Pesquisa) que têm acelerado a análise de protocolos pela Anvisa e por comitês de ética, permitindo que o Brasil se insira mais rapidamente em pesquisas clínicas internacionais — o que amplia também a diversidade de voluntários nos estudos.
Outro ponto importante da pesquisa é saber comunicar o seu objetivo. "A pesquisa pode ser brilhante, mas se não conseguirmos explicar, traduzir para o público-alvo sem perder o rigor científico, essa pesquisa não vai ter impacto", disse a médica infectologista Rita Cardona, especialista pela Unifesp.
Para Clemens, a comunicação científica depende de três atores: imprensa, pesquisador e população. "Cada um tem a sua responsabilidade. Da parte da imprensa: fazer mapeamento do profissional qualificado - e isso inclui o equilíbrio de gênero. Da parte do pesquisador: ajustar a linguagem e se fazer entender. E a população tem que entender a qualidade da informação, buscar o conhecimento", detalha.
Prôa complementou destacando a importância da comunicação no aprendizado próprio: "Uma descoberta que não é compreendida não consegue ser complementada. Afinal, muitas vezes é preciso uma equipe multidisciplinar e uma pessoa da outra área vai conseguir fazer perguntas diferentes das que a gente pensa, aumentando nosso entendimento", reflete.
O lugar das mulheres na ciência
O painel também discutiu a sub-representação feminina em posições de liderança científica. Paiva observou que, mesmo quando mulheres fazem "o trabalho pesado" da pesquisa, a assinatura nos artigos científicos costuma ficar com um chefe homem - embora, segundo ela, a maioria dos centros de pesquisa durante a pandemia tenha sido coordenada por mulheres.
Questionadas sobre como chegar a 50% de mulheres em posições de liderança até 2030, as especialistas apontaram diferentes caminhos: desde mentoria entre mulheres, visibilidade para lideranças femininas já estabelecidas, educação desde a infância e infraestrutura pública de apoio. "A gente não consegue mudar isso sem infraestruturas e políticas, especialmente em um País em que o feminicídio cresce proporcionalmente com o empreendedorismo feminino", declara Clemens.