Energias renováveis elevam resistência a crises do petróleo

11 mar 2026 - 11h20

Enquanto países como os EUA reforçam sua dependência dos combustíveis fósseis, exemplos de Uruguai e Dinamarca mostram que investir em energias renováveis diminui vulnerabilidade a choques energéticos globais.Países que geram mais energia a partir de fontes eólicas, solares e outras renováveis estão mais protegidos contra choques energéticos globais, dizem especialistas, à medida que o conflito no Oriente Médio abala os mercados globais.

Pelo Estreito de Ormuz passam cerca de 20% do petróleo e gás usados no mundo
Pelo Estreito de Ormuz passam cerca de 20% do petróleo e gás usados no mundo
Foto: DW / Deutsche Welle

A guerra se intensificou desde que os Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã, em 28 de fevereiro. Infraestruturas críticas na região foram atacadas, e o risco de ataques iranianos praticamente paralisou o Estreito de Ormuz, via crucial que é usada para transportar cerca de 20% do petróleo e gás usados no mundo.

Publicidade

Com a interrupção fica mais difícil para que o combustível chegue a países que dependem dele para gerar eletricidade, aquecer residências, abastecer a indústria e operar o transporte. A consequente escassez de oferta está elevando preços de produtos em todo o mundo.

"A energia é a força vital das nossas sociedades e das nossas indústrias", ressalta Antony Froggatt, especialista em aviação, transporte marítimo e energia da ONG Transport & Environment, sediada em Bruxelas. "E ainda somos altamente dependentes de combustíveis fósseis."

O mundo ainda obtém cerca de 80% de sua energia primária de combustíveis fósseis, a principal fonte de emissões de gases de efeito estufa que impulsionam as mudanças climáticas. Em seu segundo mandato, o presidente dos EUA, Donald Trump, intensificou a dependência dos combustíveis fósseis , revogando regulamentações de energia verde e climáticas da era de Joe Biden que visavam reduzir as emissões.

Vulnerabilidade

Publicidade

"Essa dependência torna as economias e as sociedades vulneráveis a choques geopolíticos", frisa Rana Adib, secretária-executiva do think tank Rede de Políticas de Energia Renovável para o Século 21 (REN21), sediado em Paris.

Países com uma maior participação de energias renováveis produzidas localmente na sua matriz energética são menos vulneráveis a esses choques.

É verdade que tecnologias de energia verde, como turbinas eólicas, painéis solares e baterias - e as terras raras necessárias para sua fabricação - possuem cadeias de suprimentos globais, que também podem ser afetadas por tensões geopolíticas e interrupções comerciais, ma a energia de fontes renováveis normalmente é produzida dentro das fronteiras nacionais.

"Depois que essas tecnologias chegam aos países, o combustível que passa a ser usado é o sol ou o vento locais", explica Adib. "E essa é uma das razões pelas quais a energia renovável, como solução para a produção de energia, é muito mais resiliente a choques globais."

Uruguai aposta em energia limpa

Após a crise financeira de 2008, a preocupação com a dependência das importações de petróleo e gás foi o que levou o Uruguai a apostar tudo em energias renováveis.

Publicidade

Duas décadas atrás, o pequeno país sul-americano, com uma população de 3,5 milhões de habitantes, embarcou num plano para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis de sua matriz elétrica, expandindo rapidamente os parques eólicos.

Hoje, mais de 90% da eletricidade do país provém de fontes renováveis - principalmente eólica, solar, hidrelétrica e biocombustíveis. Essa parcela já chegou a 98% em alguns anos particularmente chuvosos e ventosos.

"O que nos mostra que uma rede elétrica 100% renovável é totalmente possível", diz Adib, acrescentando que o Uruguai conseguiu isso sem as enormes quantidades de armazenamento necessárias para os dias sem sol e sem vento.

Adib sublinha que a transição para energia verde ajudou a limitar a exposição do Uruguai às altas repentinas dos preços da energia. Durante a crise energética ligada à guerra na Ucrânia, os preços da energia no Uruguai permaneceram estáveis. "Isso é extremamente importante, porque assim a inflação não atinge esse país da mesma forma que um país que tem alta dependência da importação de combustíveis fósseis."

Publicidade

Adib diz que o investimento em energias renováveis criou 50 mil empregos e permitiu ao país economizar 500 milhões de dólares (R$ 2,6 bilhões) por ano em custos de importação de energia.

Ainda assim, o Uruguai, como a maioria dos países, continua dependente de combustíveis fósseis para abastecer o transporte, operar seu setor industrial e aquecer residências. O país está em processo de eletrificação do transporte público e descarbonização da indústria, mas a eliminação completa da energia fóssil pode levar décadas.

Dinamarca investiu cedo em renováveis

Outro país que reduziu significativamente a dependência de combustíveis fósseis é a Dinamarca. A crise do petróleo na década de 1970 atingiu duramente o pequeno país escandinavo, levando-o a iniciar precocemente o desenvolvimento de energias renováveis.

Hoje, mais de 80% da eletricidade da Dinamarca é fornecida por energia verde, sendo que a energia eólica representa quase 60% desse total, seguida pelo biogás. O país, com 6 milhões de habitantes, reduziu pela metade suas emissões de gases de efeito estufa desde 1990 e almeja ter um sistema elétrico livre de combustíveis fósseis até 2030.

Publicidade

Seus sistemas de aquecimento urbano, aos quais mais de 65% das residências estão conectadas, praticamente eliminaram o carvão e têm previsão de depender 100% de biometano renovável até 2030.

Froggatt afirma que a predominância de energias renováveis na rede elétrica mantém os preços baixos, citando um estudo do FMI que mostra que cada aumento de 1% na quantidade de energias renováveis se traduz, em média, em uma queda de 0,6% no preço da eletricidade no mercado atacadista. "E isso em circunstâncias normais. Obviamente, quando os preços do gás liquefeito estão muito inflacionados, a vantagem econômica das energias renováveis aumenta ainda mais", acrescenta.

Mas ele ressalta que os consumidores só estarão protegidos do aumento dos preços do petróleo e do gás quando setores como transportes e aquecimento estiverem totalmente eletrificados, por exemplo, com veículos elétricos e bombas de calor.

Crise atual pode impulsionar renováveis

Os altos preços dos combustíveis fósseis e a vulnerabilidade dessas commodities a gargalos de abastecimento devem tornar a energia limpa mais competitiva e financeiramente atraente, além de pressionar os governos a encontrarem soluções alternativas, afirmam analistas.

Publicidade

"A crise atual demonstra, mais uma vez, que precisamos entrar na era das energias renováveis e deixar para trás a era dos combustíveis fósseis" se quisermos sociedades e economias mais resilientes, afirma Adib.

Mas acelerar o uso de energias renováveis para garantir um fornecimento de energia mais estável exigirá investimentos maciços e mudanças sistêmicas. Embora as fontes de energia limpa sejam hoje muito mais baratas do que os combustíveis fósseis, o petróleo e o gás são altamente subsidiados.

Froggatt afirma que essa transição não influi apenas na desaceleração das mudanças climáticas, mas também na segurança energética. "Essas duas coisas andam juntas. Se há um lado positivo no que está acontecendo agora, é que a energia, a forma como obtemos nossa energia e a acessibilidade da energia voltam a ocupar um lugar de destaque na agenda política", diz Froggatt.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
TAGS
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se