'Vida, nada me deves': Lucia Helena Galvão fala sobre a importância de fechar a conta em paz
Filósofa explica que transformar a dor em aprendizado é importante para aceitar e não permanecer preso às experiências que já passaram
Nem sempre é possível evitar a dor. Para a filósofa Lucia Helena Galvão, porém, é possível decidir o que fazer com ela. Em uma reflexão sobre traumas, passado e amadurecimento, a professora defende que encontrar sentido nas experiências difíceis é o caminho para "fechar as contas com a vida" e seguir em frente sem carregar pesos desnecessários.
O que significa "fechar as contas" com a vida?
Helena aponta um trauma pode ser entendido como uma experiência da qual ainda não se conseguiu aprender algo importante. Ela explica que, sob a perspectiva da filosofia, o sofrimento permanece vivo justamente porque a pessoa ainda não conseguiu dar um significado ao que aconteceu.
"Para filosofia, um trauma é como se fosse um fato no qual você pendurou uma etiqueta dizendo: 'Eu não aceito aprender com isso'", esclarece em um vídeo publicado nas redes sociais.
Na visão da especialista, portanto, revisitar essas experiências não significa reviver a dor, mas reconhecer que, apesar do sofrimento, elas também contribuíram para a construção da própria identidade. Além disso, quando alguém consegue enxergar os ensinamentos deixados por uma situação difícil, a sensação de injustiça diminui. Dessa forma, o passado deixa de funcionar como uma conta pendente que insiste em cobrar atenção.
"Ela me cobrou tal quantidade de dor, mas ela me ensinou tal quantidade de ensinamentos. Perto do que ela me ensinou, foi um preço justo. Eu fecho essa conta", detalha a filósofa.
Reflexão de Lucia Helena Galvão
Segundo ela, ninguém se torna quem é apenas pelos momentos felizes. As dificuldades também ajudam a desenvolver força, maturidade e novos olhares sobre a vida. Por isso, aponta que aceitar o próprio percurso é uma ainda forma de liberdade. Em vez de alimentar o ressentimento, a proposta é reconhecer que cada experiência teve um papel na formação pessoal.
"Eu sou o que sou graças a todas as dores pelas quais eu passei. Se faltasse alguma dessas coisas, eu não seria o que eu sou hoje", relembra.
Para ilustrar esse acerto de contas com a vida, Lucia Helena ainda cita um poema do escritor mexicano Amado Nervo, cuja mensagem resume o exercício de aceitar o passado sem permanecer preso a ele: "Vida, nada me deves; vida, estamos em paz."
Para Galvão, o verso representa o momento em que alguém reconhece que a vida exigiu muito, mas também ofereceu aprendizados valiosos. Ao fazer esse balanço, torna-se possível seguir adiante sem carregar pendências emocionais. "Fecho as minhas contas. Eu sou o que sou graças a todas as dores pelas quais eu passei. Então, está bem pago, está certo. Acertamos as nossas contas e assim podemos prosseguir, senão ficaremos eternamente com pontas soltas que vão nos prender no passado", conclui.
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