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"Vejo um futuro para mim": o segredo da bailarina de 78 anos que une gerações na arte

A coreógrafa e bailarina celebra 35 anos da montagem de "A Divina Comédia" ao lado de artistas dos 18 aos 90 anos e reflete sobre envelhecimento, desejo e criação

30 jul 2026 - 07h22
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Logo às 5h30 da manhã, Regina Miranda já ocupa o espaço em frente à janela do seu apartamento no Jardim Botânico. Sentir o cheiro da floresta, do vento e do mar faz parte do seu modo de acordar. A bailarina, coreógrafa e pesquisadora utiliza o aparador de casa — projetado com a mesma altura das barras clássicas — para despertar o corpo suavemente.

Conheça a história e os rituais de Regina Miranda, bailarina e coreógrafa de 78 anos que reúne mais de 120 artistas de diferentes gerações
Conheça a história e os rituais de Regina Miranda, bailarina e coreógrafa de 78 anos que reúne mais de 120 artistas de diferentes gerações
Foto: Reprodução Instagram/@regina_miranda_cma / Bons Fluidos

Porém, essa rotina passa longe de uma obrigação burocrática. "Esse é meu ritual diário. E, ao contrário do que possa parecer, faço isso por prazer. Não funciono bem a partir da palavra disciplina, mas muito para tudo com as palavras desejo e prazer", contou em entrevista à revista 'Vogue'.

Aos 78 anos, ela encara mais um marco profissional marcante. Assim, no dia 30 de julho, o Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro recebe a sua nova versão de A Divina Comédia, de Dante Alighieri. O espetáculo imersivo ocupa 16 mil metros quadrados dos jardins com mais de 120 intérpretes, reunindo elencos que variam dos 18 aos 90 anos. A montagem celebra os 35 anos da primeira apresentação e traz de volta artistas que participaram da estreia em 1991.

Bagagem internacional e nova visão sobre o corpo

Formada em balé clássico no Rio de Janeiro, Regina construiu uma carreira internacional sólida. Ela viveu uma temporada marcante em Nova York, estagiou na Joffrey Ballet School, formou-se em análise de movimento pelo Laban-Bartenieff Institute e estudou dança e teatro na prestigiada Juilliard School. Essa fusão de referências orienta seus trabalhos imersivos e provocativos.

A maturidade trouxe transformações profundas na relação da artista com o próprio desempenho físico. Na juventude, os limites eram levados ao extremo, sem espaço para a preservação articular ou muscular. A transição para a criação de coreografias mudou esse olhar:

  • "Dançar é o que você tem a dizer em movimento. E todas as idades têm algo a dizer."

  • "Quando eu era bailarina clássica, tudo era levado ao limite... Isso começou a mudar quando passei a coreografar. De repente, meu instrumento de trabalho deixou de ser apenas o meu corpo. Passei a cuidar do corpo das outras bailarinas e entendi que precisava preservar esse instrumento."

  • "Um corpo mais velho comunica coisas que um corpo jovem ainda não viveu... A presença é uma técnica. A escuta é uma técnica. A quietude também. Tudo isso se aprofunda com a maturidade."

Dessa forma, a inteligência corporal acumulada ao longo das décadas permite manter a potência técnica sem agredir o próprio organismo, garantindo a continuidade do trabalho no palco.

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Quebrando estereótipos sobre a maturidade

Perguntada sobre os elogios comuns que recebe ao atingir os 78 anos, a artista rejeita os padrões estéticos rígidos impostos pela sociedade. Para Regina, a maturidade não deve ser encarada como uma limitação estética ou criativa, mas sim como um campo aberto para o desenvolvimento contínuo. "Primeiro eu sorrio, porque sei que a intenção é boa. Depois respondo: 'Parece, sim.' É assim que uma mulher de 78 anos pode ser", pontuou a coreógrafa ao desmontar visões ultrapassadas sobre a idade.

Na visão da diretora da Cia. Regina Miranda & AtoresBailarinos, o mercado de dança demorou para reconhecer a relevância artística dos corpos maduros por focar excessivamente no rendimento atlético. Contudo, a experiência trazida por décadas de palco enriquece a cena dramática.

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A reinterpretação de A Divina Comédia

Se em 1991 a peça mirava nas representações clássicas do pós-morte, atualmente, a versão atual foca em dilemas contemporâneos. Ou seja, a produção busca explorar como o ser humano lida com desilusões, perdas e aprendizados na vida cotidiana, trazendo artistas idosos interpretando papéis jovens e vice-versa.

  • "Em 1991, ela falava do inferno depois da morte. Agora, me interessa trazer uma versão para falar dos infernos que conhecemos em vida."

  • "Nesta montagem há pessoas de mais de 90 anos interpretando personagens de 20... porque idade não define personagem."

  • "Quando vejo uma artista de mais de 90 anos em cena, também vejo um futuro para mim. A gente não sabe quanto tempo tem. O que importa é o que faz com o tempo que recebeu. Eu estou me planejado para ver a aurora boreal!"

Em suma, a trajetória de Regina Miranda reforça que a criação artística e o entusiasmo em viver não têm prazo de validade. Então ao manter a curiosidade ativa e colocar o corpo em movimento diário, a bailarina demonstra como a paixão pela arte é o principal motor para renovar os desejos a cada amanhecer.

Bons Fluidos
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