Repórter participa da "vendagem", processo de cultivo, colheita e fabricação de vinhos na Suíça
Acordo com o sino tocando, o dia amanhecendo. Ainda enfiado no saco de dormir, vejo pela janela os Alpes cobertos de gelo e logo me dou conta de que não dá para virar do outro lado e espreguiçar mais um pouco. O sino não é o despertador de algum guia de excursão, é o chamado de Monsieur Charly Blanc, proprietário de uma das tradicionais vinícolas do cantão Vaud, da região oeste da Suíça. Vestido com seu inseparável macacão azul de zíper, ele coordena a vendagem, um termo que aqui designa todo o trabalho de cultivo, coleta das uvas e o preparo dos vinhos. É hora de se agasalhar, tomar café e sair para o trabalho.
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Por duas semanas, serei um vendageur, um dos milhares de colhedores de uva contratados nesse período em vários países, geralmente jovens universitários ou "andarilhos" profissionais que percorrem a Europa viajando e trabalhando. O contrato é de 15 dias úteis que vão me render cerca de 650 euros, incluído fartura no café da manhã, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar. Todos regados a vinho, branco e tinto. Se chover, não se trabalha, mas também não ganha.
A vinícola de M. Blanc tem a tradição de três gerações e emprega na época de colheita cerca de 20 pessoas, três porteurs, capazes de carregar cestos com até 80 quilos de uva, e os outros, colhedores. Descubro aos poucos que muitos desses jovens já se conhecem, estiveram aqui outras vezes, sozinhos ou em casais. Fazem desse período de trabalho duro um momento de reencontro e de festa, regado a muito vinho. Alguns formam uma espécie de nômades, daqui vão para estações de esqui, depois vão colher laranjas na Espanha, mais tarde, azeitonas na Itália.
"O trabalho é duro, mas vale a pena. Rever os amigos, produzir e tomar vinho não é nada mal", disse o tcheco Vítézslav Richter, mais conhecido como Víta, 33 anos. Esse é seu quinto ano de colheita de uvas na Suíça. "Aqui o clima é sempre de festa, afinal o vinho é uma festa."
Rótulos nos parrerais
O que para mim eram apenas nomes em rótulos de garrafas, agora está tomando forma em cachos nos parrerais. A pequena e doce Pinot Noire, a Cabernet Sauvignon, a Ombren e até a Chasselas, uma uva produzida apenas na Suíça, agora estão em minhas mãos, recolhidas com meu alicate. O trabalho começa logo cedo e muitas vezes antes do sol aparecer atrás das montanhas, o que torna o contato das mãos descobertas com as folhas úmidas mais gelado do que nunca. E ainda estamos no início do outono.
Trabalhar no inverno, nessas encostas do Alpes, me pareceria impossível. Sentados em caixas plásticas cor de laranja, somos divididos em corredores de parreiras que podem ter até 200 metros, cada um com o seu alicate ou tesoura. O meu corredor é o número 4. O objetivo é colher os cachos com cuidado e depositá-los nos grandes cestos plásticos que em seguida serão recolhidos pelos porteurs, que sobem e descem as encostas até o trator, carregando até 80 quilos. Esse é trabalho mais pesado, por isso os carregadores ganham cerca de 20% mais que os colhedores Monsieur Blanc tem ali 12 hectares com 12 diferentes uvas para serem colhidas.
Em média, colhe-se um hectare por dia em uma jornada de até nove horas. Diferentemente de algumas outras "vendagens", o trabalho é todo manual. Para os menos experientes, como era o meu caso, o alicate pode ser perigoso. Quinze dias, cinco pequenos cortes, algumas gotas de sangue e uma coleção de esparadrapos nos dedos, nada grave.
A melhor safra
O trabalho é duro, mas o clima é de diversão. Conversas nos mais diferentes sotaques do francês, cigarros passados de mão em mão, guerra de uva e até mesmo garrafas não autorizadas circulando de uma parreira a outra. As horas passam depressa. Jornada concluída, voltamos fedendo uva fermentada. Na carroçaria da Ducato cor de vinho de M. Blanc, a animação aumenta, os goles são repartidos generosamente, agora com a autorização do patrão. Brincalhão, Charly, como é chamado, faz algumas manobras radicais ao volante. Ele tem razão para festejar a safra desse ano, foi uma das melhores dos últimos cinco.
De volta ao alojamento, começa a fila para os três chuveiros e o cheiro de uva vai desaparecendo. Alguns preferem deixar a ducha para mais tarde, sob o risco de não encontrar mais água quente. Sentados em mesas de madeira na área externa da casa, todos esperam mais uma oferta de M. Blanc. "Antes do jantar, era tradição que Charly abrisse algumas garrafas, mas isso já não acontece todos os dias", disse Maya Esnault, 28, francesa da cidade de Sete, torcendo por mais um copo. "Em anos anteriores, a adega ficava aberta, era só ir lá pegar, à vontade. De algum tempo para cá foi acabando essa moleza", disse Stephane Drif, 36, mais de 12 de vendagens nas costas.
Segundo diz uma espécie de lenda atribuída aos vendageurs, durante todo o período da colheita deve-se tomar vinho, e somente vinho. Os tempos estão mudando: em alguns dias, sem acesso à adega, ou esgotadas as garrafas, o grupo recolheu moedas de franco suíço e correu para comprar cerveja em Aigle, cidade mais próxima. "Eu também tomo cerveja, mas a bebida dos deuses é o vinho tinto", disse o canadense Jean Philippe Matte, 31, que participa da "vaquinha".
A namorada Sabrina Catelliel, 30, também do Quebec, concorda com sorrisos. Mais quieto e observador,o francês de Lyon, Christophe Palombo, 29, disse que prefere tomar vinho somente durante o dia. "Depois do trabalho prefiro descansar." Com o dinheiro que vai ganhar na colheita, Christophe diz que vai viajar para a América Latina. "Me disseram que dá para pegar carona nos navios que saem do sul da França. Quero ir para a Bolívia e se for o caso, trabalho no barco para pagar a passagem. Prefiro viver assim, viajar trabalhando", disse, sorridente.
Vacas com sino no pescoço
Pelas 20h o sino toca novamente. Mas dessa vez a notícia é boa, chegou a hora do jantar. Em bem menos tempo do que pela manhã, o refeitório se enche. A fila de famintos se forma e as garrafas de vinho tinto são abertas. A comida varia sempre. Vai de simples sopas de legumes e macarrão a receitas típicas de Madame Blanc. Como a Raclette, um prato da região das montanhas suíças feito à base de queijo fundido, acompanhado de batata cozida e legumes em conserva. A fila para se servir parece não terminar nunca.
Depois do jantar a turma está liberada. Uns mais empolgados, e de carro, arriscam um passeio na noite fria da pequena cidade de Aigle. Outros ficam ouvindo música, em torno de mais um copo da adega de Charly. Os mais cansados vão para os quartos, escadarias que parecem longas a esta hora da jornada. Meu dormitório tem dois beliches e uma cama de solteiro. Divido o espaço com o casal canadense e Arthur Simon, experiente de muitas colheitas em várias vinícolas da Europa. Minha cama é a mais bem localizada do quarto, fica na beira da janela com vista para os Alpes. Nada mal.
Depois da longa jornada de trabalho, cortes nos dedos, vinho e muita conversa, chegou a hora de deitar. Da cama, dá para observar os pequenos vilarejos iluminados nas montanhas. Ao fundo escuto o barulho de sinos. Mas esses são suaves, quase embaladores, são os pequenos sinos pendurados nos pescoços das vacas que andam por toda noite, ao redor da casa. Se o dia não amanhecer chovendo, o próximo sino será o de M. Charly Blanc. E tudo começará de novo.
Serviço
Para quem: quer ganhar um pouco de dinheiro, conhecer pessoas e se divertir, desde que não se importe em acordar cedo, passar um pouco de frio e trabalhar duro.
Quando ir: as vendagens em geral começam no mês de agosto na França, mas na Suíça pode ser um pouco mais tarde. Mas o período de colheita da uva fica entre o meio de agosto e fim outubro.
Dicas: leve roupas e agasalhos que depois do trabalho possam ser jogados no lixo. A uva mancha as roupas. O calçado deve resistir ao frio e à terra úmida.
Como participar: na maioria das pequenas vinícolas, os colhedores chegam indicados por colegas que já conhecem o proprietário e que já trabalharam no local antes. Não há agências voltadas para esse tipo de "turismo de trabalho", mas há muitas vinícolas abertas para visitação e degustação nos períodos de colheita.
Como chegar: Para se chegar até Aigle de trem é necessário pegá-lo em Genebra, na Suíça. De lá para Aigle demora menos de uma hora. O preço da passagem varia entre 15 e 25 Euros. De carro, a viagem dura em torno de uma hora e meia. São 110 quilômetros contornando o Lago Léman.