Amazônia: o Peru que faz alucinar, em mochilão de 40 mil km
A região fica a 781 km de Lima, capital do Peru [...]
Este conteúdo faz parte do projeto América do Sol, outras imagens da América do Sul, um registro clicado e escrito de um mochilão, entre a Patagônia e a Amazônia brasileira, em busca do destinos sul-americanos menos conhecidos do público brasileiro, como a Amazônia peruana.
Por quase nove meses, André Lima e o jornalista Eduardo Vessoni estiveram em 84 cidades de 9 países do continente.
Nesta etapa da viagem, passamos por Yarinacocha, um dos sete distritos da província de Coronel Portillo, no departamento de Ucayali, no Peru, uma região com mais de 100 mil km² de pura Amazônia que fica encostada ao Acre, no Brasil.
Amazônia peruana
Quem chega em Pucallpa, uma das portas de entrada para a selva do Peru, a 781 km de Lima, tem a impressão de que desembarcou no lugar errado. O trânsito alucinado de moto-táxis e o mercado informal nas ruas nada lembram o principal atrativo da região: a Amazônia.
O experiente José, nosso próximo anfitrião, é aprendiz de xamã e foi o responsável pelo nosso desvio de rota, no Peru.
Já sobre território amazônico, em Yarinacocha, esse velho de olhar profundo e voz quase silenciosa aproximou-se de nós e jogou sobre nossos colos a proposta: passar alguns dias em Santa Clara.
Naquela comunidade de origem shipibo conibo isolada pela densidade amazônica, às margens do rio Ucayali, um afluente do rio Amazonas, a semana seguinte foi de intensos testes para os sentidos.
A manhã chega discreta, em tons azulados, e vai deixando Santa Cruz em variações alaranjadas. Enquanto as águas calmas da lagoa Yarinacocha ditam o ritmo na selva, o sol vai disfarçando as cabanas feitas com shapaja e yarina. A noite escura chega apressada.
A trilha sonora vem dos pássaros do turno noturno que combina o tom com as risadas ingênuas das crianças em volta da vela acesa sobre a mesa.
É dia de ritual xamânico com José, David e os poucos estrangeiros que se atrevem a chegar tão longe. A tenda já está preparada, coberta com tela branca para proteger o local das más energias. No chão, cachimbo, cigarros e folhas de manjericão.
A garrafa com Ayahuasca, um aliado para abrir a porta de visão que facilita os trabalhos do xamã, repousa imóvel diante de seus olhos concentrados.
Em Santa Clara, esse remédio natural é misturado com uma planta local chamada chacuruna. Dos 54 litros de água utilizada para sua elaboração, saem apenas 2 litros do produto concentrado, o que garante efeitos alucinógenos que chegam a durar até o dia seguinte ao ritual.
Os visitantes já estão deitados sobre colchões finos e, a essa hora, as crianças já devem ter apagado as velas.
O xamã dá o primeiro trago e, em seguida, repassa o alucinógeno. Os minutos seguintes são de silêncio até que David resga a noite com seu canto forte que excita a floresta.
O corpo, imóvel, testemunha imagens que a Amazônia desconhece. E a viagem da alma é longa, pessoal e intransferível.
Quando o efeito sobre a alma ensaia dar trégua para o corpo cansado, o xamã entoa um novo canto e toda a viagem tem seu roteiro renovado.
E assim, de visões paisagísticas alucinantes e experiências interiores, conhecemos o lado mais alucinante do país.