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Superdotação não é garantia de sucesso: por que ainda precisamos discutir isso?

Superdotação não significa ser bom em tudo. Entenda por que altas habilidades não garantem sucesso e o que pode fazer a diferença.

18 out 2026 - 18h00
(atualizado às 18h02)
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Resumo
A superdotação não assegura sucesso autônomo nem imunidade a desafios emocionais e sociais. Embora o Brasil tenha avançado com a Lei nº 15.436 e o aumento de registros no Censo Escolar, a identificação é apenas o passo inicial. O atendimento especializado não constitui privilégio, mas um direito pedagógico essencial que exige formação docente, apoio socioemocional e equidade no acesso para evitar a invisibilidade de talentos em contextos vulneráveis, garantindo o desenvolvimento pleno do aluno.

Durante muito tempo, aprendemos a associar superdotação a uma espécie de vantagem natural. Imaginamos crianças que aprendem antes das outras, tiram notas excelentes e encontram poucas dificuldades na escola. Mas essa imagem, além de incompleta, pode esconder necessidades importantes.

Superdotação não significa ser bom em tudo
Superdotação não significa ser bom em tudo
Foto: SaúdeLab / SaúdeLAB

Ter altas habilidades ou superdotação não significa ser bom em tudo, aprender sem esforço ou estar preparado emocionalmente para qualquer desafio.

Uma criança pode apresentar capacidades muito desenvolvidas em determinada área e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades de socialização, frustração, adaptação ou pertencimento.

O problema começa quando confundimos potencial com autonomia.

Se acreditamos que uma criança superdotada consegue se desenvolver sozinha, deixamos de oferecer justamente os estímulos e apoios de que ela precisa.

Identificar é apenas o começo

Em junho de 2026, o Brasil instituiu a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação, por meio da Lei nº 15.436.

A legislação representa um avanço ao estabelecer diretrizes para identificação, atendimento educacional especializado e desenvolvimento integral desses estudantes.

Mas uma lei, por mais importante que seja, não transforma automaticamente a realidade das escolas.

O Censo Escolar 2025 registrou 56.238 matrículas de estudantes com altas habilidades ou superdotação, um crescimento de aproximadamente 27% em relação a 2024.

O aumento dos registros é relevante, mas também nos convida a perguntar quantas crianças ainda passam pela escola sem que suas habilidades sejam reconhecidas.

E há outra pergunta igualmente importante: o que acontece depois da identificação?

Não basta reconhecer que uma criança aprende de maneira diferente. É preciso compreender suas necessidades, oferecer oportunidades de aprofundamento, flexibilizar estratégias pedagógicas quando necessário e considerar também seu desenvolvimento emocional e social.

A superdotação não se manifesta de uma única maneira.

Há crianças com desempenho acadêmico excepcional, outras com criatividade elevada, interesses específicos ou habilidades que nem sempre aparecem nas avaliações tradicionais.

Também precisamos olhar com atenção para meninas que podem esconder suas capacidades para se sentirem aceitas, estudantes que apresentam simultaneamente autismo ou TDAH e crianças cujas oportunidades são limitadas pelas condições sociais e econômicas.

O direito de desenvolver o próprio potencial

Um dos equívocos mais persistentes é acreditar que oferecer atendimento especializado a estudantes superdotados representa um privilégio.

Na verdade, estamos falando de garantir condições adequadas de aprendizagem, assim como fazemos com qualquer estudante que apresenta necessidades educacionais específicas.

Isso envolve formação de professores, enriquecimento curricular, possibilidades de aceleração escolar, acompanhamento individualizado e diálogo entre escola, família e profissionais especializados.

Envolve também reconhecer que inteligência elevada não elimina sentimentos de inadequação, insegurança ou sofrimento emocional.

Embora a superdotação não signifique, por si só, maior risco de transtornos mentais, algumas crianças podem enfrentar desafios relacionados ao perfeccionismo, às expectativas externas e à dificuldade de encontrar ambientes em que se sintam compreendidas.

Outro aspecto que merece atenção é o acesso.

Quando oportunidades de identificação e desenvolvimento ficam restritas a famílias com mais recursos, corremos o risco de deixar talentos invisíveis simplesmente porque nasceram em contextos com menos possibilidades.

É por isso que a discussão sobre superdotação precisa ultrapassar os limites dos consultórios e das salas de aula. Ela envolve educação, saúde, cultura, políticas públicas e direitos sociais.

Essas questões estarão no centro do I Congresso de Superdotação do Estado do Rio de Janeiro, que idealizei e que será realizado em 7 de novembro, reunindo profissionais de diferentes áreas para discutir identificação, dupla excepcionalidade, desenvolvimento emocional, inclusão e práticas de apoio fundamentadas em evidências.

Mais do que discutir o quanto uma criança é capaz de aprender, precisamos perguntar se estamos oferecendo condições para que ela desenvolva suas habilidades sem abrir mão de seu bem-estar, de suas relações e de sua infância.

Reconhecer a superdotação é importante. Mas garantir que essas crianças tenham oportunidades reais de desenvolvimento é o compromisso que ainda precisamos assumir como sociedade.

Leitura Recomendada: Superdotação em meninas: quando esconder a inteligência se torna uma forma de pertencer

Fonte: SaúdeLAB
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