Vapes não são inofensivos: os impactos ocultos no pulmão, coração e cérebro
O uso de dispositivos eletrônicos de fumar, conhecidos como vapes ou cigarros eletrônicos, deixou de ser um hábito de nicho e passou a fazer parte do cotidiano de adolescentes e adultos em diferentes cidades brasileiras. Porém, ele está longe de ser inofensivo. Veja impactos ocultos no pulmão, coração e cérebro.
O uso de dispositivos eletrônicos de fumar, conhecidos como vapes ou cigarros eletrônicos, deixou de ser um hábito de nicho e passou a fazer parte do cotidiano de adolescentes e adultos em diferentes cidades brasileiras. A aparência tecnológica, os sabores adocicados e a ausência de fumaça visível de combustão criaram a ideia de que o vapor seria uma alternativa mais "leve" ao cigarro comum. No entanto, estudos publicados em revistas médicas internacionais apontam efeitos sistêmicos relevantes. Eles atingem pulmões, coração, sistema imunológico e o desenvolvimento cerebral, sobretudo em pessoas mais jovens.
Ao contrário do que muitos acreditam, o vapor inalado não é apenas "água". Afinal, a cada tragada, o organismo entra em contato com um aerossol composto por nicotina, solventes químicos, aromatizantes e partículas ultrafinas. Além disso, em diversos produtos, metais pesados liberados do próprio dispositivo. Esse conjunto de substâncias circula pelo corpo, alcança diferentes órgãos e pode desencadear processos inflamatórios, alterações vasculares e dependência. Ou seja, a percepção de menor odor e ausência de cinzas não se traduz, segundo especialistas, em menor impacto à saúde.
O que é EVALI e como o vape atinge os alvéolos pulmonares?
Os alvéolos pulmonares são pequenas "bolsas de ar" onde ocorre a troca de oxigênio e gás carbônico com o sangue. Esses microssacos dependem de uma superfície delicada e limpa para funcionar adequadamente. Assim, quando o usuário inala o aerossol do cigarro eletrônico, partículas químicas chegam diretamente a essas estruturas, podendo irritar o tecido e desencadear uma inflamação intensa. Entre 2019 e 2024, serviços de saúde em diversos países registraram casos de uma condição chamada EVALI (lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico ou vaping). Ela se caracteriza por falta de ar, tosse, dor no peito e, em situações graves, necessidade de internação em unidade de terapia intensiva.
Na EVALI, exames de imagem costumam mostrar áreas dos pulmões "opacificadas", indicando inflamação e acúmulo de líquido. Embora muitos casos iniciais estivessem relacionados a líquidos contendo derivados de cannabis e aditivos como vitamina E acetato, relatos mais recentes sugerem que a exposição frequente a diferentes soluções de vape também pode agredir o tecido pulmonar. Afinal, o processo inflamatório danifica os alvéolos, prejudica a oxigenação do sangue e, em alguns pacientes, deixa cicatrizes permanentes. Portanto, essa agressão repetida aumenta o risco de infecções respiratórias e pode contribuir para doenças pulmonares crônicas ao longo dos anos.
Vapes e inflamação: como o sistema imunológico reage?
O sistema imunológico funciona como uma rede de vigilância que identifica agentes estranhos e tenta neutralizá-los. Ao entrar em contato com o aerossol dos vapes, as células de defesa presentes nas vias aéreas e nos alvéolos são estimuladas de forma contínua. Estudos recentes mostram que o vapor pode alterar o comportamento de macrófagos e neutrófilos, que são células encarregadas de "limpar" partículas e microrganismos. Assim, em vez de apenas proteger, essa ativação constante pode provocar uma inflamação de baixo grau nas vias respiratórias.
Essa inflamação persistente torna o ambiente pulmonar mais vulnerável a vírus e bactérias. Assim, isso pode favorecer quadros de bronquite, pneumonias e piora de doenças respiratórias pré-existentes, como asma. Além disso, marcadores inflamatórios medidos no sangue de usuários de cigarro eletrônico tendem a estar mais elevados em comparação a não fumantes, sugerindo que a resposta imune extrapola os pulmões e afeta todo o organismo. Esse estado inflamatório sistêmico é um dos fatores associados a maior risco cardiovascular e metabólico.
Quais são os efeitos da nicotina e dos metais pesados no coração?
A nicotina continua sendo o principal componente responsável pela dependência em muitos vapes, inclusive em versões descartáveis com concentrações elevadas. Ao ser absorvida pelos pulmões, ela alcança rapidamente o cérebro e também o sistema cardiovascular. A substância aumenta a frequência cardíaca, eleva a pressão arterial e estimula a liberação de hormônios como a adrenalina. Esse conjunto de efeitos gera maior demanda de oxigênio pelo coração e pode favorecer arritmias e alterações na circulação, especialmente em pessoas com fatores de risco como hipertensão, diabetes ou histórico familiar de doença cardíaca.
Além da nicotina, análises de líquidos e dispositivos identificaram a presença de metais pesados, como níquel, chumbo e cádmio, liberados pelas resistências aquecidas. Essas partículas metálicas, quando inaladas repetidamente, entram na corrente sanguínea e podem se acumular em tecidos ao longo do tempo. A exposição crônica a metais está associada a dano às células que revestem os vasos sanguíneos, favorecendo o endurecimento das artérias (aterosclerose) e aumentando a probabilidade de eventos como infarto e acidente vascular cerebral. Em jovens, esses processos ainda estão em fase inicial, mas o uso prolongado durante anos tende a antecipar problemas cardiovasculares que, em geral, surgiriam mais tardiamente.
Efeito do vape no cérebro em desenvolvimento de adolescentes
O cérebro de crianças, adolescentes e jovens adultos passa por intenso processo de maturação até aproximadamente os 25 anos. A nicotina interfere na comunicação entre neurônios, modulando sistemas relacionados à atenção, memória, controle de impulsos e regulação de humor. Quando uma pessoa em idade escolar consome nicotina com frequência por meio de vapes, o sistema nervoso passa a se adaptar à presença constante da substância, o que favorece o desenvolvimento de dependência mais rápida e mais intensa em comparação à fase adulta.
Pesquisas apontam que o uso regular de cigarro eletrônico em adolescentes está ligado a maior risco de dificuldades de concentração, alterações de sono e maior propensão a experimentar outros produtos de tabaco e drogas. A nicotina também influencia circuitos cerebrais ligados à recompensa, reforçando o comportamento de buscar a próxima tragada para aliviar sintomas de abstinência, como irritabilidade e inquietação. Em paralelo, a falsa percepção de que o vapor é "inofensivo" reduz a barreira psicológica que antes existia em relação ao cigarro tradicional, ampliando o número de jovens em contato com substâncias psicoativas.
O vapor é realmente mais seguro que o cigarro tradicional?
O cigarro convencional envolve combustão de tabaco e geração de milhares de substâncias tóxicas, muitas delas cancerígenas. O vape substitui a queima por aquecimento de líquidos, o que de fato reduz a emissão de compostos típicos da fumaça. No entanto, isso não significa que o dispositivo eletrônico seja seguro ou neutro. Estudos comparativos indicam que, embora algumas toxinas apareçam em menor quantidade nos aerossóis de vapes, surgem outras substâncias químicas próprias desse método de aquecimento, além de solventes, aromatizantes e metais que também podem causar danos.
Para o organismo, a principal questão não é apenas "qual produto é pior", mas sim que ambos expõem pulmões, coração e cérebro a agentes nocivos. Em muitos casos, o uso dual - combinação de cigarro tradicional e eletrônico - acaba aumentando a carga tóxica total. A ideia de que o vapor é "apenas água" não encontra respaldo em análises laboratoriais nem em dados clínicos recentes. A mensagem que se consolida em relatórios de saúde pública até 2026 é que cigarros eletrônicos não devem ser banalizados como opção livre de risco, sobretudo entre pessoas que nunca fumaram.
Táticas práticas para combater o vício em vapes
O abandono do cigarro eletrônico costuma envolver desafios físicos e comportamentais, mas diferentes estratégias podem aumentar as chances de sucesso. Uma combinação de apoio profissional, mudanças de rotina e suporte social tem se mostrado útil em programas de cessação.
- Acompanhamento em saúde: consulta com médico ou profissional especializado em tabagismo permite avaliar o grau de dependência, indicar tratamentos com reposição de nicotina, quando apropriado, ou outras medicações aprovadas, além de monitorar sintomas respiratórios e cardiovasculares.
- Apoio psicológico: sessões com psicólogo ou terapeuta ajudam a identificar gatilhos de uso, como estresse, tédio ou ambientes sociais, e a desenvolver estratégias para lidar com essas situações sem recorrer ao vape.
- Reorganização de hábitos: substituir o momento da tragada por atividades curtas e específicas, como caminhar, beber água, mastigar algo saudável ou praticar exercícios de respiração, pode reduzir a fissura.
- Rede de suporte: informar amigos, familiares ou colegas de trabalho sobre a decisão de parar costuma diminuir a oferta de dispositivos e aumentar o incentivo para manter a meta.
Em alguns casos, ferramentas digitais também podem auxiliar. Aplicativos de acompanhamento registram o tempo sem uso, estimam ganhos para a saúde e orientam sobre como atravessar períodos críticos de abstinência. Para adolescentes, a participação da família e da escola, com informação clara e baseada em evidências, tem papel relevante tanto na prevenção quanto no apoio à interrupção do uso.
A discussão sobre vapes vem mudando à medida que novas pesquisas são divulgadas. Os dispositivos eletrônicos de fumar não se limitam a produzir uma nuvem inofensiva; eles interferem na respiração, na circulação, na imunidade e no cérebro em desenvolvimento. Em um cenário em que o marketing muitas vezes destaca apenas a praticidade e os sabores, a divulgação de dados objetivos ajuda a população a entender que a ausência de fumaça visível não significa ausência de risco, e que existem caminhos concretos para reduzir e abandonar esse tipo de exposição.
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