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Teoria do apego: por que ela virou febre nas redes sociais e o que revela sobre seus relacionamentos

A teoria do apego, agora, está em toda parte. Mas o que ela diz como podemos empregá-la para melhorar os nossos relacionamentos?

28 jul 2026 - 17h44
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Lizzy conta que costumava considerar sua dificuldade com relacionamentos como algo 'totalmente insolúvel'
Lizzy conta que costumava considerar sua dificuldade com relacionamentos como algo 'totalmente insolúvel'
Foto: Arquivo pessoal/Lizzy Smith / BBC News Brasil

Para Lizzy, os relacionamentos sempre pareciam terminar da mesma forma. "Eu tinha um segundo ou terceiro encontro e encontrava algo de errado com eles."

Quando as coisas pareciam ficar sérias, a conexão que ela buscava, de repente, parecia desconfortável e até ameaçadora. E ela se afastava.

Lizzy passou anos sem conseguir explicar a razão, até conhecer a teoria do apego. E a descrição do chamado estilo evitativo-assustado (um dos quatro estilos de apego) pareceu surpreendentemente familiar.

A pessoa com estilo evitativo-assustado deseja a proximidade, mas receia que as pessoas da sua vida, em algum momento, irão rejeitá-lo ou abandoná-lo.

"Foi como encontrar a peça que faltava no quebra-cabeça que eu tentava solucionar há anos", conta Lizzy.

Ela não é a única. A teoria do apego explodiu em sucesso.

No TikTok, vídeos marcados com #AttachmentTheory ("Teoria do apego", em inglês) acumulam milhões de visualizações.

E, na cultura popular, a teoria do apego é usada para explicar de tudo, como o relacionamento dos personagens Marianne e Connell na série de TV e no livro Pessoas Normais (Ed. Cia. das Letras, 2019), ou a letra da música Rein Me In, de Sam Fender e Olivia Dean, recordista das paradas de sucesso britânicas.

"Na primeira vez que ouvi, comecei a chorar", conta Lizzy.

Para ela, a canção deu voz aos dois lados do apego evitativo: o medo que pode fazer o amor se tornar insuportável e a confusão sentida pelo parceiro que ficou para trás.

Quais são os quatro estilos de apego?

Desenvolvida nos anos 1950 pelo psiquiatra britânico John Bowlby (1907-1990), a teoria do apego indica que os laços que formamos com os nossos primeiros cuidadores formam nossas expectativas de relacionamento.

Se o apoio estiver permanentemente disponível, você provavelmente considerará que as outras pessoas são confiáveis.

Mas, se o cuidado for imprevisível ou emocionalmente distante, você poderá desenvolver estratégias para se proteger de decepções ou sofrimento.

Existem quatro estilos de apego: ansioso, evitativo, evitativo-assustado e seguro. Basicamente, eles são definidos desta forma:

  • O apego ansioso é frequentemente associado ao receio de rejeição ou abandono. Pessoas com este estilo de apego podem buscar reafirmação frequente das pessoas próximas e enfrentar problemas de baixa autoestima. Elas podem ficar muito atentas a alterações do comportamento das outras pessoas;
  • Pessoas com estilo de apego evitativo priorizam sua independência e acham difícil se abrir emocionalmente ou confiar nas pessoas. Subconscientemente, elas podem considerar a intimidade como uma ameaça à sua autonomia e se afastar quando os relacionamentos se tornam emocionalmente próximos demais;
  • Aqueles com apego evitativo-assustado desejam relacionamentos próximos, mas costumam ter dificuldade para se sentir seguros. Eles podem buscar conexão em um momento e se afastar no segundo seguinte;
  • Alguém que é seguro fica confortável com a proximidade e a independência nos relacionamentos. Elas geralmente conseguem confiar nos demais, comunicar suas necessidades e buscar apoio quando necessário.

Pesquisas indicam que as pessoas seguras tendem a se dar melhor não apenas em relacionamentos amorosos, mas em toda a vida.

Elas gerenciam o estresse de forma mais eficiente, lidam melhor com os reveses, como rejeição ou perda, e são melhores colegas e chefes no ambiente de trabalho.

O que começou como uma forma de compreender os relacionamentos influencia cada vez mais o comportamento das pessoas.

Nas redes sociais, os estilos de apego são empregados para repensar amizades, compreender as tensões familiares ou eliminar possíveis parceiros.

Coaches de relacionamento prometem revelar os sinais ocultos da indisponibilidade emocional em um parceiro ou como curar o apego ansioso.

Os equívocos da teoria do apego

O professor de psicologia Pascal Vrticka, da Universidade de Essex, no Reino Unido, estudou o apego por cerca de duas décadas.

Ele afirma que a teoria oferece "uma das melhores explicações" para as diferentes formas em que as pessoas buscam apoio e conexão com os demais.

Vrticka fica feliz em ver a teoria do apego chegar a um público maior, mas ele receia que ela possa ser interpretada de forma "desatualizada, mal informada e, no pior dos casos, prejudicial".

"Acho que um dos problemas é que as pessoas generalizam demais a teoria e a empregam em contextos onde ela talvez não seja a melhor forma de explicar o nosso comportamento", explica ele.

Para Vrticka, parte da questão está relacionada à evolução dos conceitos iniciais da teoria do apego desde o seu desenvolvimento, nos anos 1950.

Ele afirma que um dos maiores equívocos é acreditar que os estilos de apego são fixos. Estudos demonstraram que eles podem apresentar um grau de estabilidade ao longo do tempo, mas Vrticka afirma que é possível alterá-los.

"A boa notícia é que há evidências que demonstram que o apego seguro é o mais estável. Ou seja, quando você se torna seguro, a sua tendência é permanecer assim."

Sam Fender e Olivia Dean recebem o Prêmio BRIT de canção do ano por Rein Me In, considerado o 'hino dos evitativos'
Sam Fender e Olivia Dean recebem o Prêmio BRIT de canção do ano por Rein Me In, considerado o 'hino dos evitativos'
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Vrticka afirma que o apego, muitas vezes, é remodelado durante períodos de transição, particularmente durante a adolescência, quando os jovens começam a formar relacionamentos próximos fora da família.

Eventos posteriores da vida, como o início de um novo relacionamento, um rompimento ou o luto, também podem exercer influência.

Mas Vrticka explica que as mudanças são graduais e que, provavelmente, será necessário apoio profissional para pessoas com padrões de apego mais enraizados.

Esta peculiaridade, segundo Lizzy, se perde com frequência nas discussões sobre a teoria do apego. Ela afirma que algumas pessoas podem "rapidamente presumir o pior" e reduzir os demais a rótulos.

Mas, ao mesmo tempo em que pede maior empatia com as pessoas com estilo de apego inseguro, Lizzy reconhece a importância da autoconsciência.

"Para mim, sei que minhas tendências evitativas são tóxicas e seria injusto se eu namorasse alguém no momento", explica ela.

Mas, para Lizzy, isso não significa que as pessoas com apego inseguro sejam incapazes de manter relacionamentos saudáveis.

"Cabe a você reconhecer isso e trabalhar a mudança."

Como se tornar seguro?

Poucas pessoas detêm papel de maior influência para trazer o apego ao público do que Amir Levine.

Ele e Rachel Heller são os autores do livro Apegados: um guia prático e agradável para estabelecer relacionamentos românticos recompensadores (Ed. Novo Conceito, 2013). A obra já vendeu milhões de cópias em todo o mundo, desde o lançamento da sua versão original em inglês, em 2010.

Mas, no seu último livro, Levine deixa de tentar identificar os estilos de apego para apresentar uma nova questão: como nos tornarmos seguros?

Ele defende que parte da resposta está no que ele chama de interações menores e aparentemente insignificantes (SIMIs, na sigla em inglês).

Uma mensagem de texto de um amigo perguntando sobre o seu fim de semana, por exemplo. Ou o sorriso de um estranho.

"O cérebro monitora as pequenas interações todo o tempo", explica Levine. "É disso que trata o apego. É um sistema de monitoramento em busca de segurança."

Para Levine, estas interações formam gradualmente o que o cérebro espera dos relacionamentos.

Experiências positivas aumentam as evidências de que é possível confiar nas pessoas e nos ajudam a caminhar rumo ao que chamamos de "modo seguro".

Depois de ajudar milhões de pessoas a identificar seu estilo de apego, Amir Levine agora se dedica a estudar como alterar esses padrões
Depois de ajudar milhões de pessoas a identificar seu estilo de apego, Amir Levine agora se dedica a estudar como alterar esses padrões
Foto: Shira H. Weiss / BBC News Brasil

Mas, da mesma forma, a demora em uma resposta ou um amigo que deixar de cumprir o planejado pode gerar reações sutis de estresse no sistema nervoso.

É importante observar que Levine afirma ser possível ter diferentes estilos de apego com diferentes pessoas.

Por isso, ele incentiva as pessoas a identificar os relacionamentos nas suas vidas que já as fazem se sentir seguras e compreendidas, usando essas relações "como veículo para se tornarem mais seguras como um todo".

Esta noção de que é possível construir a segurança por meio dos relacionamentos atuais reflete uma mudança maior, que deixa de considerar o apego simplesmente como o resultado das nossas experiências da infância.

Para alguns, a descoberta da teoria do apego pode envolver o reexame dos relacionamentos familiares, o que pode acabar gerando ressentimentos.

Mas Levine afirma que "não é apenas questão de onde você começou, mas do que acontece posteriormente".

"Se esta forma de pensar ajuda você a se compreender e seguir adiante, ela é útil", explica ele. "Mas, se ela fizer você se sentir paralisado ou abalado, ela não é correta, pois as pessoas realmente podem mudar."

Levine também defende que os apegos inseguros podem ser pontos fortes.

Ele afirma que as pessoas ansiosas, muitas vezes, ficam muito atentas aos relacionamentos, identificando mudanças sutis de humor, tom e comportamento que outras pessoas não percebem. Já as pessoas evitativas podem ser totalmente independentes e se dar bem sob pressão.

Vrticka concorda que os estilos de apego não devem ser considerados bons ou ruins. Mas ele destaca que eles "trazem certos riscos e dificuldades" que, segundo ele, não devem ser desconsiderados.

E ambos concordam que a teoria do apego é mais útil quando ajuda as pessoas a compreender os padrões, não a definir a si próprias.

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