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Sophie Deram explica como o paladar pode mudar e ampliar escolhas alimentares

Experiências, memórias e formas de preparo influenciam nossas preferências alimentares

4 nov 2026 - 19h31
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Resumo
Segundo a nutricionista e neurocientista Sophie Deram, o paladar não é definitivo e pode mudar ao longo da vida, pois é moldado por fatores biológicos, memórias e experiências. Em vez de impor dietas rígidas ou a obrigação de comer o que desagrada, a especialista sugere testar novos preparos, texturas e contextos com curiosidade e sem pressão. Essa postura flexível permite ressignificar ingredientes rejeitados no passado e construir uma relação muito mais prazerosa e variada com a alimentação.

Nutricionista e neurocientista do comportamento alimentar, Sophie Deram explica como nossas experiências com a comida influenciam preferências e podem abrir espaço para novas descobertas ao longo da vida

Entenda a mudança de paladar ao longo da vida
Entenda a mudança de paladar ao longo da vida
Foto: Shutterstock / Alto Astral

"Eu não gosto de legumes", "Não como peixe de jeito nenhum", "Meu paladar não aceita comida saudável", "Não consigo tomar café sem açúcar/sem adoçante" (a boa notícia é que a pessoa não precisa tirar o açúcar ou o adoçante; pode reduzir).

Quem nunca ouviu ou pronunciou uma dessas frases? Muitas vezes, falamos sobre nossas preferências alimentares como se fossem características imutáveis, tão pessoais quanto a cor dos olhos ou o timbre da voz. Mas será que o paladar é mesmo tão definitivo?

O paladar pode mudar ao longo da vida

Para a nutricionista e neurocientista do comportamento alimentar Sophie Deram, não necessariamente. O gosto que desenvolvemos pelos alimentos é resultado de uma combinação de fatores biológicos, experiências, memórias e associações construídas ao longo da vida. Isso significa que aquilo de que gostamos hoje não precisa determinar, para sempre, nossas escolhas à mesa.

"A gente aprende a gostar de muitas coisas ao longo da vida, e com a comida não é diferente. O paladar não é uma sentença definitiva. Um alimento que hoje não nos agrada pode ganhar outro significado quando experimentamos uma preparação diferente, uma nova textura ou até quando estamos vivendo outra experiência ao redor da mesa", explica Sophie.

Experimentar novos sabores não deve ser uma obrigação

Essa possibilidade, porém, não deve ser confundida com a pressão de insistir em alimentos de que não gostamos. A relação com a comida também é construída a partir das sensações que uma experiência provoca.

Quando comer se transforma em uma tarefa a cumprir, uma regra a seguir ou uma prova de disciplina, o prazer pode dar lugar à resistência.

A mudança pode começar de maneira muito mais simples: experimentando um ingrediente conhecido de outro jeito, descobrindo uma combinação de sabores ou permitindo-se provar algo novo sem a expectativa de gostar imediatamente. Às vezes, não é o alimento em si que precisa mudar, mas a maneira como ele chega ao prato.

"Não precisamos transformar cada refeição em um teste para descobrir se já aprendemos a gostar de determinado alimento. Podemos ter curiosidade, experimentar sem pressão e respeitar nosso próprio tempo. Se não gostamos de uma preparação, isso não significa que precisamos desistir daquele ingrediente para sempre. E também não significa que somos obrigados a gostar dele", afirma a neurocientista.

Como as experiências influenciam nossas preferências alimentares?

A ideia ganha importância quando pensamos nos hábitos alimentares a longo prazo. Em vez de organizar a alimentação a partir de listas rígidas de alimentos permitidos e proibidos, olhar para as próprias preferências com mais abertura pode ampliar as possibilidades à mesa.

Não se trata de buscar uma alimentação perfeita ou de gostar de tudo, mas de não limitar as escolhas a partir de experiências isoladas.

O contexto também importa. Um legume cozido demais pode provocar uma experiência completamente diferente daquele preparado no forno, com ervas e temperos. Um ingrediente experimentado na infância, em uma situação desagradável, pode ser reencontrado na vida adulta em outras circunstâncias. A memória alimentar existe, mas não precisa determinar todas as experiências futuras.

"Nossa relação com a comida não é estática. Mudamos, descobrimos novos sabores e passamos a apreciar coisas que antes não faziam parte das nossas preferências. A alimentação pode acompanhar essas mudanças. O importante é não transformar o cuidado com a saúde em uma obrigação de gostar de tudo, mas permitir que a curiosidade e o prazer também façam parte desse processo", explica a especialista.

É possível aprender a gostar de um alimento?

Talvez, então, a próxima vez que alguém disser "eu não gosto disso", valha deixar uma pequena margem para a descoberta.

Não para convencer ninguém a comer o que não quer, mas para lembrar que nossas preferências podem mudar e que essa possibilidade também faz parte de uma relação mais flexível e prazerosa com a comida. "O próximo alimento de que você vai gostar pode ser justamente aquele que hoje você acha que não gosta", finaliza Sophie.

Alto Astral
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