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Síndrome do Não Arrotar: causas, sintomas e tratamento

A disfunção cricofaríngea retrógrada impede a eliminação do ar pela boca e pode provocar estufamento, desconforto no peito e excesso de gases

4 nov 2026 - 18h51
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Resumo
A síndrome do não arrotar, clinicamente chamada de disfunção cricofaríngea retrógrada (R-CPD), ocorre quando o músculo cricofaríngeo não relaxa para liberar o ar esofágico. Pouco conhecida e frequentemente subdiagnosticada, a condição provoca inchaço, dor torácica, ruídos na garganta e flatulência excessiva. O diagnóstico baseia-se na avaliação clínica dos sintomas e o tratamento mais recorrente é a aplicação de toxina botulínica no músculo afetado, o que permite restaurar o arroto.

Arrotar é algo tão natural que dificilmente alguém pensa sobre o assunto. Mas, para algumas pessoas, simplesmente não é possível. A incapacidade de arrotar, principalmente quando vem acompanhada de estufamento, pressão ou desconforto no peito, ruídos de borbulhamento na garganta e excesso de gases, pode estar relacionada a uma condição chamada disfunção cricofaríngea retrógrada (R-CPD), conhecida popularmente como síndrome do não arrotar.

Veja o que acontece com quem não consegue arrotar
Veja o que acontece com quem não consegue arrotar
Foto: Shutterstock / Saúde em Dia

Ainda pouco reconhecida, a condição pode fazer com que pacientes convivam durante anos com sintomas sem saber a causa. Por isso, identificar os sinais e buscar uma avaliação especializada é importante para investigar o problema.

O que é a síndrome do não arrotar?

Descrita de forma sistemática na literatura médica a partir de 2019, a R-CPD está relacionada ao funcionamento do músculo cricofaríngeo, localizado na região do esfíncter esofágico superior.

Em condições normais, esse mecanismo permite a eliminação do ar acumulado no esôfago por meio do arroto. Na R-CPD, esse relaxamento não ocorre adequadamente para permitir a saída do ar pela boca, o que pode levar ao acúmulo de gases e ao surgimento de diferentes sintomas.

"O que chama a atenção na R-CPD é que a pessoa não consegue arrotar e, muitas vezes, considera isso simplesmente uma característica do próprio corpo. Quando essa incapacidade vem acompanhada de estufamento, ruídos de borbulhamento, excesso de gases ou desconforto no peito, é importante considerar que pode existir uma alteração relacionada ao músculo cricofaríngeo", explica o otorrinolaringologista e laringologista Dr. Guilherme Catani, médico do Hospital de Clínicas da UFPR e professor adjunto de Otorrinolaringologia da Universidade Federal do Paraná.

Quais são os sintomas da disfunção cricofaríngea retrógrada?

A incapacidade de arrotar é o principal sinal da condição. No entanto, outros desconfortos podem aparecer e afetar a qualidade de vida.

Entre as manifestações mais relatadas estão:

  • Estufamento e distensão abdominal;

  • Dor ou pressão no peito;

  • Ruídos de borbulhamento na garganta;

  • Excesso de gases intestinais;

  • Desconforto relacionado ao acúmulo de ar.

Uma revisão sistemática publicada em 2024, com 13 estudos e 472 pacientes, identificou a incapacidade de arrotar em 99,8% dos casos analisados. Dor ou distensão abdominal e/ou torácica apareceram em 95,4%, ruídos de borbulhamento em 84,9% e flatulência excessiva em 75,9%. O estudo também mostrou que a maior parte dos diagnósticos foi estabelecida pela avaliação dos sintomas.

Outra revisão sistemática, publicada em 2025 e com 17 estudos e 826 pacientes, encontrou resultados semelhantes e reforçou que a condição ainda é provavelmente subdiagnosticada. Nesse levantamento, além da incapacidade de arrotar, distensão abdominal foi relatada em 95,7% dos casos, dor no peito em 86%, ruídos de borbulhamento em 80,2% e flatulência excessiva em 80,2%.

O estudo apontou ainda que 55,5% dos pacientes apresentavam início dos sintomas na infância e que havia histórico familiar em 28% dos casos.

Por que a síndrome pode demorar para ser identificada?

Como arrotar é uma função involuntária do organismo, algumas pessoas podem passar anos sem perceber que a incapacidade de eliminar o ar pela boca está relacionada a uma condição de saúde.

Além disso, sintomas como gases, estufamento e desconforto abdominal podem ser atribuídos a problemas digestivos comuns. Essa associação pode dificultar o reconhecimento da R-CPD.

"A história clínica é muito importante porque, em muitos casos, o paciente consegue reconhecer que nunca arrotou ou que não consegue liberar o ar pela boca, mas não relaciona isso aos outros sintomas. É justamente essa associação que pode levantar a suspeita de R-CPD e indicar a necessidade de uma avaliação especializada", afirma Catani.

Como é feito o diagnóstico?

Apesar do crescimento do conhecimento sobre a síndrome, ainda não existe um teste diagnóstico único considerado padrão-ouro universalmente estabelecido.

A avaliação é predominantemente clínica e considera o histórico do paciente, a incapacidade de arrotar e os sintomas associados. Exames como a manometria esofágica de alta resolução podem contribuir para a investigação em casos selecionados.

Por isso, quem apresenta esses sinais deve procurar avaliação médica. O profissional poderá analisar o quadro e verificar se os sintomas são compatíveis com a disfunção cricofaríngea retrógrada ou se podem ter outra origem.

Qual é o tratamento para a síndrome do não arrotar?

O tratamento que mais aparece na literatura atual é a aplicação de toxina botulínica no músculo cricofaríngeo. O objetivo é promover o relaxamento da musculatura e permitir a eliminação do ar por meio do arroto.

A indicação depende da avaliação individual e da confirmação de que o quadro é compatível com a R-CPD.

"É importante deixar claro que não estamos falando simplesmente de aplicar toxina botulínica em qualquer pessoa que diga não conseguir arrotar. A avaliação precisa considerar o conjunto de sintomas e excluir outras possibilidades. Quando o quadro é compatível com R-CPD, a toxina botulínica pode ser uma opção terapêutica porque atua justamente no músculo que precisa relaxar para que o ar seja eliminado", explica o especialista.

Quando procurar ajuda médica?

Ainda não há uma estimativa populacional definitiva sobre quantas pessoas apresentam R-CPD. Mesmo assim, a condição merece atenção, especialmente quando a incapacidade de arrotar vem acompanhada de desconfortos frequentes.

"Quando uma pessoa percebe que nunca conseguiu arrotar e convive há anos com esses sintomas, vale investigar. O fato de o problema ser pouco conhecido não significa que o desconforto precise ser considerado normal ou simplesmente atribuído ao excesso de gases", conclui Catani.

Reconhecer a relação entre a dificuldade de arrotar e os outros sintomas pode ser o primeiro passo para buscar um diagnóstico. A avaliação especializada ajuda a identificar a causa do desconforto e a definir a conduta mais adequada para cada paciente.

Saúde em Dia
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