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Sobrediagnóstico: por que detectar o câncer nem sempre significa salvar vidas

Os exames de rastreamento modernos podem transformar em pacientes pessoas que, na verdade, nunca precisariam de tratamento

9 abr 2026 - 18h14
(atualizado em 14/4/2026 às 16h56)
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Está cada vez mais claro que antiga lógica do rastreio do câncer – encontrá-lo, removê-lo – já não é suficiente por si só e que, para alguns pacientes, aprender a conviver com um câncer monitorado pode ser mais seguro do que tentar eliminá-lo completamente. Pixel-Shot/Shutterstock.com
Está cada vez mais claro que antiga lógica do rastreio do câncer – encontrá-lo, removê-lo – já não é suficiente por si só e que, para alguns pacientes, aprender a conviver com um câncer monitorado pode ser mais seguro do que tentar eliminá-lo completamente. Pixel-Shot/Shutterstock.com
Foto: The Conversation

Quando médicos sul-coreanos lançaram um programa nacional de rastreio de câncer de tireoide, o número de diagnósticos aumentou 15 vezes. Mas a taxa de mortalidade por câncer de tireoide no país permaneceu inalterada. O número de pacientes diagnosticados era maior do que o de vidas salvas.

Esta é uma ilustração clara de um problema que está silenciosamente remodelando a forma como os médicos encaram o câncer: o sobrediagnóstico. Não o diagnóstico incorreto, mas a detecção precisa de tumores que, na realidade, não prejudicariam o paciente.

Os exames modernos de rastreamento do câncer são celebrados justamente como uma das grandes conquistas da medicina. Detectar o câncer precocemente salva vidas. Mas, à medida que a tecnologia se torna cada vez mais sensível, será que, por vezes, estamos causando mais mal do que bem?

Melhor detecção

O câncer não surge de uma única célula rebelde que aciona um interruptor. Ele se desenvolve em múltiplas etapas, e muitos aglomerados de células anormais nunca completam esse processo.

Algumas permanecem silenciosas no corpo por décadas. Apenas uma pequena fração chega a representar risco de vida. O problema é que, uma vez detectada e diagnosticada como câncer, uma anormalidade deflagra uma reação em cadeia - ansiedade, tratamento agressivo, efeitos colaterais graves - para uma condição que talvez nunca venha a causar qualquer problema ao paciente.

Vinte anos atrás, muitas dessas anomalias seriam impossíveis de detectar. Hoje, exames de imagem de última geração e testes de detecção altamente sensíveis conseguem identificar pequenos aglomerados de células anormais, alterações genéticas sutis e os menores tumores. À medida que essa tecnologia avança, a fronteira entre um câncer perigoso e uma peculiaridade biológica inofensiva torna-se cada vez mais tênue.

Isso levanta uma questão incômoda sobre o crescimento das taxas de câncer, particularmente o aumento bem documentado de diagnósticos entre pessoas com menos de 50 anos. Será que isso representa uma mudança biológica genuína - os cânceres se tornando mais agressivos e surgindo mais cedo na vida - ou é em parte um reflexo do fato de que os adultos mais jovens de hoje estão sendo submetidos a exames de rastreamento, tomografias e monitoramento muito mais intensivos do que as gerações anteriores?

O câncer de tireoide é o exemplo mais forte. Na Coreia do Sul, em 2011, esse aumento de 15 vezes no número de diagnósticos resultou quase inteiramente da triagem, e não de um aumento real da doença. Pesquisadores e órgãos clínicos revisaram suas diretrizes em 2013, abandonando a triagem de lesões de crescimento lento e priorizando o monitoramento em vez da cirurgia imediata.

O câncer de tireoide é um dos tipos de câncer mais diagnosticados em excesso. fizkes/Shutterstock.com
O câncer de tireoide é um dos tipos de câncer mais diagnosticados em excesso. fizkes/Shutterstock.com
Foto: The Conversation

O câncer de próstata conta uma história semelhante. A introdução do teste de antígeno prostático específico (PSA) resultou em um grande aumento nos diagnósticos, mas as taxas de mortalidade permaneceram estáveis - sugerindo que muitos homens estavam sendo tratados para cânceres que crescem tão lentamente que nunca se tornariam fatais.

As consequências foram graves. A cirurgia deixou muitos homens incontinentes ou impotentes, sem qualquer melhoria na sobrevivência. As diretrizes atuais recomendam a vigilância ativa para muitos tumores da próstata.

Para esses dois tipos de câncer, incluindo o de cólon, as evidências apontam cada vez mais na mesma direção: a "observação vigilante" costuma ser mais segura do que a intervenção imediata. Cirurgia, radioterapia e quimioterapia acarretam riscos significativos e efeitos colaterais a longo prazo. Expor um paciente a esses riscos por um tumor que nunca representou uma ameaça à sua vida é difícil de justificar.

Nada disso significa que a detecção precoce deva ser abandonada. Para cânceres de rápida progressão - como o de pâncreas, pulmão e alguns tipos de câncer de mama -, detectar a doença precocemente continua sendo crucial. O desafio é aprender a distinguir entre os cânceres que exigem ação urgente e aqueles que podem ser monitorados com segurança. Isso requer não apenas tecnologia mais avançada, mas também um julgamento mais apurado sobre quando utilizá-la.

Equidade e transparência

A transição para uma abordagem de rastreio baseada no risco também levanta questões complexas sobre equidade e transparência. Quem é rastreado, com que frequência e com base em que critérios? Essas decisões acarretam consequências reais e merecem um debate público mais aberto do que o que ocorre atualmente.

O que está ficando cada vez mais claro, no entanto, é que a antiga lógica do rastreio do câncer - encontrá-lo, removê-lo - já não é suficiente por si só. O sobrediagnóstico é um dano real, mesmo que seja menos visível do que um diagnóstico perdido. Para alguns pacientes, aprender a conviver com um câncer monitorado pode ser mais seguro do que tentar eliminá-lo completamente.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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