RED-S: O perigo da falta de energia para corredores
Cansaço persistente, queda de performance e lesões recorrentes podem indicar que o corpo não está recebendo energia suficiente para treinar e funcionar bem.
A Deficiência Energética Relativa no Esporte (RED-S) afeta atletas profissionais e amadores quando a ingestão calórica não supre o gasto dos treinos e as funções vitais do corpo. O desequilíbrio prejudica a imunidade, a saúde óssea e hormonal, causando fadiga, queda de rendimento, lesões e alterações menstruais ou na libido. A prevenção e o tratamento exigem alinhamento individualizado entre volume de treino, descanso adequado e nutrição balanceada com apoio profissional.
A corrida tem conquistado cada vez mais praticantes no Brasil. Com o aumento do número de treinos e da busca por melhores tempos, porém, também cresce a necessidade de olhar para um ponto que vai além da planilha: será que o corpo está recebendo energia suficiente para sustentar essa rotina?
Quando o gasto energético do exercício supera de forma persistente a energia fornecida pela alimentação, pode surgir a Deficiência Energética Relativa no Esporte, conhecida pela sigla RED-S, do inglês Relative Energy Deficiency in Sport. A condição pode afetar a performance, a recuperação muscular, a imunidade, os hormônios e a saúde óssea.
O que é RED-S?
A RED-S acontece quando há baixa disponibilidade energética. Na prática, isso significa que a energia consumida não é suficiente para cobrir o gasto dos treinos e, ao mesmo tempo, manter adequadamente as funções básicas do organismo.
O problema não depende apenas de uma dieta muito restritiva. Ele também pode aparecer quando o corredor aumenta de maneira significativa o volume ou a intensidade dos treinos sem ajustar a alimentação, o sono e os períodos de recuperação.
"Não basta que o organismo tenha energia suficiente para o treino. O corpo também precisa ter condições para funcionar e realizar suas atividades básicas", explica o nutrólogo e médico do esporte Dr. Thiago Viana.
Segundo o especialista, quando a falta de energia se torna persistente, o organismo passa a economizar recursos em algumas funções para continuar funcionando. Esse mecanismo pode causar consequências que vão muito além de um dia ruim de treino.
Por que a corrida pode favorecer o quadro?
A corrida exige energia para o movimento, a manutenção da temperatura corporal, a contração muscular e a recuperação após o exercício. Quanto maior a distância, a intensidade ou a frequência dos treinos, maior tende a ser a demanda do organismo.
O risco aumenta em situações como:
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Aumento repentino da quilometragem semanal.
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Preparação para provas sem acompanhamento profissional.
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Treinos longos depois de muitas horas sem comer.
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Tentativa de perder peso rapidamente.
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Restrição de carboidratos, gorduras ou calorias.
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Rotina intensa de trabalho, pouco sono e recuperação insuficiente.
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Pressão para manter determinado peso ou aparência.
A RED-S também pode atingir corredores amadores. Não é necessário ser atleta profissional, correr maratonas ou treinar duas vezes por dia para existir um desequilíbrio entre a energia gasta e a energia disponível.
Um treino intenso realizado depois de um dia inteiro de trabalho, por exemplo, pode representar uma demanda importante para quem passou horas sem se alimentar adequadamente.
Sintomas que merecem atenção
A RED-S não costuma ser identificada por um único sintoma. O alerta deve surgir principalmente quando vários sinais aparecem juntos e permanecem por um período prolongado.
Entre as manifestações possíveis estão:
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Cansaço constante, inclusive fora dos treinos.
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Queda inexplicada no ritmo ou na performance.
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Dificuldade para completar treinos que antes eram habituais.
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Recuperação muscular mais lenta.
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Dores musculares persistentes.
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Aumento da frequência de lesões.
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Fraturas por estresse ou lesões ósseas recorrentes.
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Infecções frequentes ou demora maior para se recuperar de doenças.
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Alterações de humor, irritabilidade, ansiedade ou desânimo.
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Dificuldade de concentração.
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Sono ruim.
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Perda de peso não intencional.
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Sensação de frio com mais frequência.
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Alterações gastrointestinais.
Revisões médicas também relacionam a baixa disponibilidade energética a prejuízos no desempenho de resistência, na resposta ao treinamento, na coordenação, na concentração e no julgamento.
Nas mulheres
Um dos sinais mais conhecidos é a irregularidade ou a ausência da menstruação. Embora muitas vezes seja normalizada no ambiente esportivo, a alteração pode indicar que o organismo está enfrentando dificuldades para manter funções hormonais adequadas.
A ausência do ciclo menstrual não deve ser considerada um "benefício" do treinamento ou da perda de peso. Ela precisa ser investigada por um profissional de saúde, especialmente quando aparece junto de fadiga, queda de desempenho ou lesões.
Nos homens
Nos homens, podem ocorrer alterações hormonais, redução da libido e prejuízos à função reprodutiva. Também podem surgir queda de performance, piora da recuperação, alterações de humor e redução da saúde óssea.
A condição, portanto, não é exclusivamente feminina. O conceito de RED-S foi ampliado justamente por afetar diferentes sistemas do organismo e também atletas do sexo masculino.
Quais são os impactos na saúde?
A baixa disponibilidade energética pode comprometer vários sistemas ao mesmo tempo. O organismo prioriza funções essenciais e reduz o investimento em processos como reprodução, construção óssea, resposta imunológica e recuperação.
Entre os possíveis impactos estão:
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Alterações no metabolismo.
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Mudanças na função menstrual.
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Redução de hormônios sexuais.
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Prejuízo à saúde óssea.
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Maior risco de fraturas por estresse.
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Redução da síntese e da adaptação muscular.
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Queda da imunidade.
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Recuperação mais demorada após lesões.
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Piora do desempenho aeróbico e da resposta aos treinos.
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Repercussões psicológicas, como irritabilidade, ansiedade e depressão.
Uma revisão publicada no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism descreve a RED-S como uma síndrome com efeitos sobre metabolismo, função menstrual, ossos, imunidade, síntese proteica, sistema cardiovascular e desempenho.
Como prevenir a RED-S
A prevenção começa pelo alinhamento entre treino, alimentação e recuperação. Quando a carga aumenta, a estratégia nutricional também precisa acompanhar essa mudança.
Algumas medidas importantes são:
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Aumentar a ingestão de energia conforme o volume e a intensidade dos treinos.
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Não passar longos períodos sem se alimentar antes de sessões exigentes.
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Consumir carboidratos para ajudar no fornecimento de energia e na reposição do glicogênio.
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Incluir proteínas suficientes ao longo do dia para apoiar a recuperação muscular.
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Não retirar completamente as gorduras da alimentação.
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Manter variedade de vitaminas e minerais na dieta.
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Priorizar sono de qualidade.
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Respeitar os dias ou períodos de recuperação.
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Evitar metas de perda de peso muito agressivas.
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Observar mudanças persistentes no ciclo menstrual, libido, humor e desempenho.
"Os carboidratos contribuem para o fornecimento de energia durante o exercício e para a reposição do glicogênio, enquanto as proteínas participam da recuperação e adaptação muscular", destaca Dr. Thiago Viana.
A alimentação, porém, não deve ser ajustada apenas com base em dicas genéricas da internet. A necessidade energética varia de acordo com peso, composição corporal, rotina, objetivo, volume de treino e condições de saúde.
Como reverter o quadro?
A reversão da RED-S costuma envolver o aumento da disponibilidade energética. Isso pode ser feito por meio de ajustes nas refeições e, em alguns casos, pela redução temporária da carga ou da intensidade dos treinos.
O tratamento deve ser individualizado e pode exigir uma equipe formada por médico, nutricionista e profissional de educação física. Dependendo dos sintomas, também pode ser necessário investigar anemia, deficiências nutricionais, alterações hormonais, problemas da tireoide, distúrbios do sono e outras causas de fadiga.
O corredor não deve simplesmente aumentar a quilometragem para "testar" se o cansaço passa. Também não é recomendado iniciar hormônios ou suplementos por conta própria.
Suplementos podem ter utilidade em situações específicas, mas não substituem uma alimentação adequada. Como resume o Dr. Thiago Viana: "O treino estimula o corpo, a alimentação fornece a matéria-prima e o descanso permite a adaptação".
Quando procurar ajuda
Procure avaliação profissional se o cansaço persistir, se a performance cair sem explicação ou se houver aumento de lesões. O cuidado é ainda mais importante diante de fraturas por estresse, perda de peso involuntária, desmaios, alterações menstruais, redução importante da libido ou infecções frequentes.
Até a avaliação, reduza a pressão por desempenho e evite aumentar a carga de treinos. Descansar não significa perder evolução: em muitos casos, é justamente o que permite ao organismo se recuperar e voltar a responder ao treinamento.
A corrida deve ser uma ferramenta de saúde, prazer e desempenho — não uma disputa permanente contra os sinais do próprio corpo. Cansaço ocasional faz parte da rotina, mas fadiga constante merece investigação.
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