Quando as férias mudam a rotina, o desafio pode ser maior para crianças com TEA e TDAH
As férias escolares mudam a rotina da família. Veja por que esse período pode ser mais desafiador para crianças com TEA e TDAH.
As férias escolares já mudaram a rotina de muitas famílias brasileiras. Para algumas, este é um período de descanso e convivência. Para outras, especialmente quando há crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH ou outros transtornos do neurodesenvolvimento, os dias sem aula também exigem novas adaptações.
A quebra da rotina pode aumentar a ansiedade, provocar mudanças no comportamento e deixar pais e cuidadores diante do desafio de preservar a liberdade das férias sem abrir mão das referências que ajudam a criança a se sentir segura.
Especialistas ouvidas pelo SaúdeLab explicam que não existe uma fórmula pronta. Mas algumas adaptações simples na rotina podem ajudar a tornar esse período mais tranquilo para crianças e familiares.
Por que a mudança na rotina pode afetar algumas crianças?
Muitas crianças com transtornos do neurodesenvolvimento se sentem mais confortáveis quando conseguem prever o que vai acontecer ao longo do dia.
Quando essa previsibilidade desaparece de uma vez, algumas podem apresentar mais ansiedade, dificuldade para lidar com frustrações ou alterações no comportamento.
Segundo a neuropsicopedagoga Silvia Kelly Bosi, isso não significa que as férias precisem reproduzir o ritmo da escola.
"Uma rotina flexível, com horários minimamente organizados e atividades significativas, ajuda a reduzir a ansiedade e favorece a autonomia", explica.
Na prática, pequenas referências já fazem diferença. Manter horários aproximados para acordar, fazer as refeições e dormir, por exemplo, costuma oferecer mais segurança sem comprometer a liberdade típica das férias.
Outro aspecto importante é que, com a convivência mais intensa, pais e responsáveis passam a observar situações que, durante o período letivo, eram compartilhadas com professores e terapeutas.
Por isso, dificuldades relacionadas à atenção, à regulação emocional ou à tolerância à frustração podem parecer mais evidentes — nem sempre porque a criança piorou, mas porque agora elas acontecem diante da família por mais tempo.
Brincar continua sendo uma das atividades mais importantes
Nem toda atividade das férias precisa ter um objetivo terapêutico.
Brincadeiras ao ar livre, jogos, culinária em família, desenhos, passeios e outras experiências do cotidiano continuam sendo oportunidades valiosas de desenvolvimento.
Além de estimular habilidades motoras, cognitivas e sociais, esses momentos fortalecem os vínculos familiares e reduzem a necessidade de recorrer às telas durante todo o dia.
Celulares, tablets e televisão podem fazer parte da rotina, mas o ideal é que não ocupem a maior parte do tempo livre.
Alternar o uso dos dispositivos com experiências reais costuma trazer benefícios para a criança e para toda a família.
É preciso manter as terapias durante as férias?
A resposta depende das necessidades de cada criança.
Segundo a psiquiatra Fabricia Signorelli, algumas crianças se beneficiam de uma pausa, enquanto outras podem precisar manter parte dos atendimentos para preservar avanços importantes.
"Em alguns casos, a manutenção parcial dos atendimentos pode ser recomendada. A decisão deve ser construída entre a família e a equipe multiprofissional", afirma a especialista.
Ela também lembra que as férias são um momento para fortalecer vínculos e descansar. Por isso, não existe obrigação de preencher todos os dias com atividades ou estímulos constantes.
Cuidar da criança também significa cuidar de quem cuida
As férias também mudam a rotina dos adultos. Conciliar trabalho, cuidados com os filhos, lazer e, muitas vezes, a falta de uma rede de apoio pode tornar esse período bastante desgastante.
Para Natália Lopes, mãe atípica e fundadora do Voz das Mães, é importante abandonar a ideia de que as férias precisam ser perfeitas.
"É importante reconhecer que o cansaço dos pais existe e que buscar ajuda ou estabelecer limites não significa falhar como mãe ou pai", destaca.
Aceitar que nem todos os dias sairão como planejado, dividir responsabilidades sempre que possível e respeitar os próprios limites também faz parte do cuidado com a criança.
Não existe uma fórmula que funcione para todas as famílias. Mas especialistas concordam que manter alguma previsibilidade, valorizar momentos simples de convivência e reduzir a cobrança por férias perfeitas costuma tornar o período mais leve para crianças e adultos.
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